Crônica da Cidade

Crônica da Cidade

Amigos do Athos

Por Severino Francisco severinofrancisco.df@dabr.com.br
postado em 08/12/2019 00:00
Jornalista cultural não ganha prêmio Esso; no máximo, ganha prêmio Osso. Considero que uma das maiores distinções que recebi foi ter sido convidado por Athos Bulcão para escrever uma pequena biografia sobre ele. Durante as conversas com Athos, o que mais me impressionou era a quantidade de amigos. Eles constituíam uma verdadeira constelação modernista.

Vejamos: Oscar Niemeyer, Lelé Filgueiras, Jorge Amado, Burle Marx, Di Cavalcanti, Paulo Mendes Campos, Vinicius de Moraes, Scliar, Ceschiatti e Paulo Francis. Ter amigos dessa qualidade é uma fortuna. Quando eu pensava que o livro estava finalizado, Athos evocava alguma história com um grande personagem e eu tinha de acrescentar.

É insólito que Athos tenha feito a primeira tentativa de ser artista como ator do grupo Os Comediantes, que exercia um papel de vanguarda na época. Ele se divertia lembrando as provocações do diretor Adauto Botelho: ;Você está com cara de pedra. Procure dar uma expressão humana;.

Não podia enfrentar plateias; não falava, sussurrava. Espanta a capacidade de fazer amigos, pois, como se sabe, Athos era um habitante do silêncio, pertencia à raça dos tímidos, daqueles que ficam em casa esperando que alguma coisa boa lhes caia na cabeça como um raio.

No caso de Athos, o raio benfazejo sempre foi os amigos. Eles o salvaram nos instantes mais cruciais. Certa vez, Athos mandou alguns quadros para um júri de pré-seleção visando mostra a ser realizada na Argentina. Os trabalhos foram recusados, e Portinari ficou furioso, berrou que era uma injustiça e convidou Athos para trabalhar com ele no mural de São Francisco, na Pampulha, em Belo Horizonte, uma das referências essenciais na criação de Brasília.

Mas, sem dúvida, o amigo mais importante na vida de Athos foi Oscar Niemeyer. Em 1943, no atelier de Burle Marx, Niemeyer flagrou Athos desenhando em um canto e perguntou: ;O que é isso?;. Era um desenho a guache baseado em cerâmica popular. Niemeyer gostou e o convidou para transformar o desenho em um azulejo para o Teatro Municipal de Belo Horizonte. O teatro não foi construído. No entanto, a admiração e a afinidade estética convergiriam para as magníficas parcerias arte-arquitetura de Brasília.

Às vésperas das celebrações dos 60 anos de Brasília, é preciso lembrar que o mais importante artista da cidade não tem uma sede digna para abrigar o seu acervo e as atividades da Fundação Athos Bulcão (FAB). Lelé Filgueiras, um dos parceiros e amigos, riscou um belo projeto para a sede da FAB, mas o terreno próximo à Funarte foi doado no governo de José Arruda e ;desdoado; no de Agnelo Queiroz. Seria uma atração turística obrigatória a atrair os visitantes. É uma vergonha para Brasília, que, espero, seja reparada no aniversário da cidade.

E, para fechar, fiquemos com o retrato surreal de Athos Bulcão que Rubem Braga traça com ajuda de Paulo Mendes Campos e Vinicius de Moraes: ;Athos Bulcão, lento e delicado, de olheiras (fez regime, emagreceu 18 quilos), tem certa fama de fantasma, costuma aparecer nos lugares mais estranhos nas horas mais inesperadas, e dizem que já ;baixou; ao mesmo tempo em São Paulo, no Rio ou em Roma, segundo testemunhos autorizados; Paulo Mendes Campos afirma que ele evapora de madrugada em menos de um minuto, ficando apenas dois olhos boiando no ar, que logo somem. Vinicius de Moraes, perguntado uma vez se acreditava no espiritismo, disse: ;Yo no creo em Athos Bulcones, pero que los hay, los hay;.

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