"Chora a nossa pátria, mãe gentil"

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Cantor, compositor e escritor, Aldir Blanc morreu na madrugada desta segunda-feira, devido a complicações do novo coronavírus

» Irlam Rocha Lima » Lucas Batista* » Pedro Ibarra*
postado em 05/05/2020 00:00
 (foto: Casa da Palavra/Divulgação)
(foto: Casa da Palavra/Divulgação)


O pensamento brasileiro perde uma grande referência nome, Aldir Blanc. Nome por trás de clássicos da cultura do país, o compositor morreu aos 73 anos, no Rio de Janeiro, em decorrência de complicações geradas pela Covid-19. O velório e enterro do artista não serão abertos ao público, devido às medidas de distanciamento social.
Internado desde o dia 10 do mês passado, Blanc só recebeu o positivo para o novo coronavírus no dia 23 do mesmo mês. Preliminarmente, o artista tratava de um quadro de infecção generalizada iniciado no sistema urinário que acarretou em uma pneumonia. Alguns exames de imagem levantaram suspeita da Covid-19 que acabou sendo confirmada.
Antes de receber a certeza de que estava infectado com o coronavírus, o compositor teve muita dificuldade de conseguir um leito. A filha, Isabel Blanc, fez uma campanha on-line para que fosse levado a uma UTI e transferido. O músico chegou a ser transferido de hospital para conseguir espaço em uma ala de tratamento intensivo. Mesmo com todo o esforço, Aldir Blanc não resistiu e morreu na madrugada de ontem. O artista deixa um vasto legado de mais de 600 composições, interpretadas por grandes vozes da música popular brasileira.

Carreira

Em entrevista ao Correio em 2010, Blanc afirmou que a composição era a ação que mais o dava prazer. ;Fazer letra, sem dúvida. Tenho orgulho de acalentar uma fantasia: morrer feito o Noel Rosa, estendendo a mão para a última letra;. Mesmo com toda a paixão, o sonho de ser artista quase ficou em segundo plano quando ele ingressou na Faculdade de Medicina, em 1966, para se especializar em psiquiatria. Mas, durante a própria faculdade, as composições desse orgulhoso suburbano carioca chamavam atenção e eram classificadas para festivais universitários, até que, em 1973, decidiu se dedicar apenas ao universo musical, abandonando o curso de medicina.
O grande parceiro de Blanc na música foi o cantor e violinista João Bosco, com quem criou vários clássicos para a MPB. Entre as composições estão Bala a bala, O mestre-sala dos mares, De frente pro crime e Caça à raposa.
A dupla compôs o clássico O bêbado e a equilibrista, interpretada por Elis Regina no álbum Essa mulher, lançado em junho de 1979. A canção se tornou um sucesso durante a luta pela anistia, durante o declínio da ditadura militar no Brasil, sendo chamada de Hino da Anistia, ainda que tenha sido composta antes da aprovação da Lei da Anistia, em agosto de 1979.
;As músicas mais importantes para mim foram O bêbado e a equilibrista, por ter virado espontaneamente o Hino da Anistia, e O mestre-sala dos mares, por fazer justiça a João Cândido, uma das maiores figuras de nossa história;, revelou ele aos jornalistas Irlam Rocha Lima e José Carlos Vieira.
A letra de o O bêbado e a equilibrista possui diversas referências de eventos e personalidades ligadas ao período da ditadura e se tornou referência contra o regime totalitário no Brasil. Nos versos ;Choram Marias e Clarisses;, por exemplo, Blanc cita as viúvas Maria, mulher de Manuel Fiel Filho; e Clarisse Herzog, esposa de Vladimir Herzog, ambos morreram nos porões da ditadura.
As façanhas de Aldir Blanc não se restringiram apenas ao mundo da música. Na literatura, o artista publicou mais de 10 livros, entre eles: Vila Isabel, inventário da infância (2017); Heranças do samba (2004); Uma caixinha de surpresas (2010); Rua dos artistas e transversais (2006); Direto do balcão (2017); e Porta de tinturaria (2017).
Em 1993, fez um retrato bem-humorado e crítico do cidadão brasileiro da época, no livro Brasil passado a sujo: a trajetória de uma porrada de farsantes. Na obra, revela-se como contista, cronista e poeta, focando em personagens comuns do Rio de Janeiro, mas também da conturbada cena nacional. O autor publicou ainda um compilado de crônicas que escreveu para o jornal O Pasquim, no livro Rua dos Artistas e arredores.

Repercussão

A morte do compositor comoveu grandes artistas brasileiros. Nas redes sociais, o amigo e parceiro de arte de Aldir, João Bosco publicou um pronunciamento, no qual afirma que cantará as músicas do compositor até ;onde tiver forças;. ;Aldir foi mais do que um amigo pra mim. Ele se confunde com a minha própria vida. A cada show, cada canção, em cada cidade, era ele que falava em mim. Ele com aquele humor divino. Sempre apaixonado pelos netos. Ele médico, eu hipocondríaco. Fomos amigos novos e antigos. Mas, sobretudo, eternos;.
João Bosco completa o pronunciamento dizendo que perdeu seu maior amigo, mas que ganhou uma razão para viver. ;Não existe João sem Aldir. Felizmente nossas canções estão aí para nos (fazer) sobreviver. E como sempre, ele falará em mim, estará vivo em mim, a cada vez que eu cantá-las. Hoje é um dos dias mais difíceis da minha vida. Meu coração está com Mari, companheira de Aldir, com seus filhos e netos. Perco o maior amigo, mas ganho, nesse mar de tristeza, uma razão pra viver: quero cantar nossas canções até onde eu tiver forças. Uma pessoa só morre quando morre a testemunha. E eu estou aqui pra fazer o espírito do Aldir viver. Eu e todos os brasileiros e brasileiras tocados por seu gênio;.
Maria Rita, filha de Elis Regina, classificou o compositor como um dos ;mestres maiores;. ;;Azar! a esperança equilibrista sabe que o show de todo artista tem que continuar;. Aldir, dos mestres maiores, que o senhor descanse em luz, com a certeza do tanto que nos deixou de legado, amor, senso crítico, arte, cultura. Missão cumprida! Que farra boa o céu vai presenciar;, disse.
O músico Arnaldo Antunes reverenciou Aldir pelo Twitter. ;;Rubras cascatas/Jorravam das costas dos santos entre cantos e chibatas;. Quando morre o autor de um verso como esse, entre tantos outros memoráveis, só nos resta chorar e reverenciar. ;Glória a todas as lutas inglórias;. Viva Aldir Blanc!”, publicou.
O rapper Emicida também prestou homenagem ao artista: ;Aldir Blanc, assim como o sol, saiu de nosso campo de visão normal nessa noite. A poesia acorda triste com a partida de mais uma caneta que nos inspirou a sonhar. Obrigado por nos presentar com um país pelo qual nos apaixonamos, Seu Aldir. O maior dos obrigados;, disse.

*Estagiários sob a supervisão de José Carlos Vieira




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