Protestos na Venezuela

De opositor a mártir

Leopoldo López, líder da oposição acusado de terrorismo e homicídio, se entrega à polícia, ovacionado pela multidão. Prisão deve fortalecer adversários do presidente

Rodrigo Craveiro
postado em 19/02/2014 00:00
 (foto: Raul ARBOLEDA/afp

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(foto: Raul ARBOLEDA/afp )




Brasília ; Vestido de branco, ele carregava a bandeira da Venezuela na mão direita e trazia uma flor branca na esquerda. Um soldado da Guarda Nacional Bolivariana (GNB) usou a cabeça para forçá-lo a entrar na viatura blindada, enquanto outro o ;abraçou; e o empurrou para dentro. Enfurecida e em êxtase, a multidão, reunida na Praça José Martí, em Chacaoito (região de Caracas), gritava: ;Não se entregue!” O povo ergueu sua mulher, Lilian Tintori, para se despedir com um beijo. Às 12h24 (13h54 em Brasília), depois de fazer um discurso pelo qual foi ovacionado, Leopoldo López, líder do partido de oposição Voluntad Popular, passou a ser considerado preso político.

Cinco horas depois, estava diante de um juiz, em uma sala do Palácio da Justiça, acompanhado do presidente da Assembleia Nacional, Diosdado Cabello. Acusado de oito crimes, incluindo terrorismo e homicídio, o economista formado pela Universidade de Harvard passou a noite no Centro de Processados Militares de Ramo Verde, em Los Teques, a 32km de Caracas. López deve retornar ao tribunal hoje. As autoridades culpam-no pelas três mortes nos protestos de 12 de fevereiro. Segundo analistas, a prisão vai potencializar apoio à oposição, fortalecer a imagem de López e desgastar a reputação do sucessor de Hugo Chávez. Marchas de solidariedade ocorreram em Barquisimeto, Mérida e Valência, onde uma mulher foi baleada.

Antes de se entregar à GNB, López utilizou um megafone para falar aos simpatizantes, muitos dos quais usavam branco. ;Eu tinha a opção de partir, mas não sairei nunca da Venezuela. Outra opção era ficar escondido na clandestinidade, e nada temos a esconder;, declarou. ;Se minha prisão permitir à Venezuela despertar definitivamente, (...) ela valerá a pena;, acrescentou. Vereador em Caracas e coordenador político nacional adjunto do Voluntad Popular, Freddy Guevara estava ao lado de López. ;Uma comitiva de delegados o acompanha. Nossa luta vai prosseguir. O povo venezuelano não vai retroceder;, afirmou por telefone. De acordo com ele, a batalha não se trata apenas de Leopoldo, mas de ;um sistema decidido a acabar com pensamentos independentes, antidemocrático e ineficiente, que levou a Venezuela aos maiores índices de inflação e de pobreza da América Latina;.

Para José Vicente Carrasquero Aumaitre, cientista político da Universidad Simón Bolívar, a rendição foi um ;impactante ato de comunicação política;, que vai potencializar, de modo importante, a imagem do opositor. ;Ao mesmo tempo, surtirá efeitos negativos na debilitada imagem de um governo incapaz de resolver problemas econômicos e sociais graves;, admitiu. Ele classifica as acusações contra López de ;aventura comunicacional;, para desprestigiar o líder. ;Os resultados foram contraproducentes. Em vez de sair do país, López enfrentou a situação.;

CALCULADA Victor Maldonado, professor da Universidad Católica Andrés Bello (Ucab) e diretor da Câmara de Comércio de Caracas, acredita que López tomou uma decisão ;calculada;. ;Além de mostrar o regime como perseguidor de oponentes políticos e pôr em evidência que na Venezuela não estão vigentes garantias constitucionais, a prisão coloca o governo Maduro em ;interdição;. O único delito de López foi fazer política, desafiar o governo e denunciar que o mesmo não está disposto a abrir espaços de diálogo para a governabilidade;, explicou.

Diante do Palácio de Miraflores, milhares de chavistas se reuniram para prestar apoio a Maduro. Na véspera da prisão, López propôs a formação de uma comissão de ex-presidentes latino-americanos para investigar abusos de direitos humanos. Ele sugeriu o brasileiro Fernando Henrique Cardoso, o chileno Ricardo Lagos, o costa-riquenho Óscar Arias e o colombiano Ernesto Samper como integrantes. Deputado da coalizão opositora Mesa de Unidade Democrática, Carlos Michelangeli disse que a prisão de López fará com que o povo ;desperte em unidade;. ;Leopoldo se entregou a um sistema judicial que não é autônomo, além de ser manipulado pelo Estado. Nós apelamos à sanidade, repudiamos os atos de violência promovidos pelo governo e exortamos novos protestos pacíficos.;

Em Brasília, o chanceler Luiz Alberto Figueiredo comentou a crise na Venezuela, depois de o Mercosul dar respaldo a Maduro. ;Estamos acompanhando a situação com atenção. Temos a expectativa, como se pronunciou o Mercosul, de que haja uma convergência dentro de um respeito à institucionalidade e à democracia.; (Colaborou Gabriela Walker)

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