A rua será a arquibancada

A rua será a arquibancada

Quadra de Taguatinga já está decorada em verde-amarelo. A tradição começou em 1990, graças a um carioca apaixonado por futebol, que convida os brasilienses a assistirem aos jogos em um telão. Depois das partidas, trio elétrico embalará a festa

MATHEUS TEIXEIRA
postado em 17/05/2014 00:00
 (foto: Carlos Vieira/CB/D.A Press)
(foto: Carlos Vieira/CB/D.A Press)


Sempre que a Copa do Mundo se aproxima, os moradores da CBS 2/3, em Taguatinga, abrem a janela de casa e se deparam com bandeirolas e faixas em verde e amarelo. Desde 1990, quando o carioca Nelson Pereira, 60 anos, relações públicas, mudou-se para Brasília, a rua fica toda enfeitada antes mesmo do início do Mundial. Este ano, como o torneio será aqui, os preparativos começaram ainda mais cedo. Há 10 dias, a rua está toda decorada, e a vizinhança já entrou no clima de Nelson, um apaixonado por futebol. ;Viramos referência quando o assunto é animação. Por iniciativa do Pereira, todos se envolvem e fazemos uma festa linda. Desta vez, será histórico, por isso começamos a nos preparar meses antes do torneio;, diz o estudante Tiago Lima, 30.

Nelson conta que, em dias de jogo da Seleção, ele põe um telão para todos assistirem à partida na rua, e aluga um trio elétrico para animar a festa após a vitória. ;Reunimos até 2.500 pessoas aqui. Todos descem de suas residências, os moradores das quadras vizinhas também vêm. Nossa torcida é sempre uma das mais animadas do Distrito Federal;, exalta. Ele se lembra da primeira vez em que a vizinhança se mobilizou, 24 anos atrás. ;Começou aos poucos e foi crescendo. A maioria não está mais aqui, mudou de endereço. Mas as novas gerações vieram ainda mais empolgadas;, elogia.

Ele afirma que a torcida brasiliense não fica atrás de nenhuma outra. ;No Rio de Janeiro, o povo tem fama de ser animado, mas garanto que o DF não deve nada para eles. No Planalto Central, se faz festa como ninguém;, assegura. Nelson tem casa e familiares no Rio, mas não pensa em voltar para a cidade natal. ;Virei brasiliense. Daqui, não saio nunca mais;, diz. A cada quatro anos, ele prepara uma vinheta especial, faz um CD com os cantos da torcida e sai andando pela cidade com o som do carro no máximo volume. ;Convido a todos para assistir aos jogos na nossa rua. É só chegar e torcer. Sempre estamos de braços abertos;, ressalta.

O estudante Daniel Batista, 21 anos, morou na CBS 2/3 a vida inteira e vê as partidas da Seleção com os vizinhos desde pequeno. ;Quando eu tinha 1 ano, em 1994, comemorei o tetra aqui;, afirma. Agora, ele tem um filho de 2 anos e espera que o menino seja pé quente igual o pai. ;Minha primeira Copa, eu venci. Vamos ver se ele tem a mesma sorte;, espera. Daniel acredita que o time do Brasil tem talento suficiente para garantir o hexa. ;Temos vários craques.; Para ele, se Neymar se inspirar em Ronaldo Fenômeno, pode anotar dois gols na final do Mundial. ;Ele tem capacidade para repetir o feito do Ronaldo e fazer história no Maracanã (estádio em que será jogada a final, em 13 de julho).; Já Tiago Lima comprou ingresso para Portugal e Gana, e vai ao Estádio Nacional de Brasília Mané Garrincha. Os jogos do Brasil, porém, ele assistirá na CBS 2/3. ;Aqui eu tenho sorte. Jogo da Seleção só assisto na rua.;

Não só os moradores estão empolgados. Dom Leonino Gomes, pároco da igreja no fim da rua, também costuma entrar no clima da Copa. Ele abençoou a vizinhança para que a festa deste ano seja mais bonita do que qualquer outra. ;O pessoal é animado;, diz. Ele acredita no título do Brasil. ;Vamos pedir a Deus para sermos hexa;, promete.

Debutante
Em Sobradinho, o empresário Alessandro Rezende, 37 anos, juntou a torcida pela Seleção com a empolgação de ver a filha, Letícia, chegar aos 15 anos. Ele pintou o portão de casa com uma bandeira do país, a caricatura da garota e das duas cachorrinhas de estimação, Estrela e Lilica. ;Nunca fui um torcedor muito animado;, afirma. ;Desta vez, porém, como a Copa é no Brasil e minha filha acabou de debutar, já comecei os preparativos;, anima-se.

A filha Letícia confessa ter ficado com vergonha do desenho nas primeiras vezes em que viu. ;Meu pai não me avisou. Quando ficou pronto, tirou várias fotos e mandou para todo mundo pelo celular;, lembra-se. A pintura foi feita logo após o carnaval, e a menina só foi aprová-la perto do aniversário, em 24 de abril. ;O pessoal começou a falar bem, minhas amigas disseram que estava benfeito;, conta, antes de fazer uma objeção: ;A Estrela e a Lilica ficaram bem parecidas. Eu, nem tanto;.



2,5 mil
Número de pessoas que se reúnem para assistir aos jogos da Seleção na CBS 2/3

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