Quatro perguntas /Vanessa Barbara

Quatro perguntas /Vanessa Barbara

postado em 27/05/2014 00:00
Você tem uma certa obsessão com Alice? Desde quando e por quê? O que te fascina no livro e na personagem?
Sim, sempre gostei de Lewis Carroll, principalmente dos jogos de lógica, dos diálogos de nonsense e do ritmo da narrativa. Um dos meus professores de jornalismo chegou a encaixar o livro no currículo e foi incrivelmente divertido: fiz uma prova inteira escrevendo invertido (em espelho), à la Carroll. Adoro, por exemplo, os diálogos da Alice durante o chá maluco, enfim, acho a maior graça em ver um personagem tentando usar a razão e insistindo em fazer perguntas sensatas aos outros, que por sua vez estão completamente enlouquecidos e engajados em suas lógicas próprias. E nesse caminho eles vão confundindo e manipulando a coitada da Alice, até que ela mesma esteja seguindo uma lógica torta. Um exemplo de diálogo genial:

;Gatinho de Cheshire;, começou, de forma um tanto tímida, já que não sabia se aquele nome o agradava; contudo, ele apenas sorriu mais largamente. ;Ótimo, até agora está satisfeito;, pensou Alice, prosseguindo. ;Poderia me dizer que caminho devo tomar para sair daqui?;

;Isso depende bastante de onde você quer chegar;, retrucou o Gato.

;Não faz muita diferença;, disse Alice.

;Então não importa que caminho tome;, afirmou o Gato.

;... Contanto que eu chegue a algum lugar;, acrescentou Alice, à guisa de explicação.

;Oh, isso certamente acontecerá;, falou o Gato, ;desde que ande o bastante;.

Qual foi a maior dificuldade ao traduzir o livro de Carroll?
Melhor perguntar se houve alguma facilidade; foi tudo difícil nessa tradução... O pior para mim foram os trocadilhos, que aparecem às dezenas. Foi preciso optar primeiramente pela ;lógica; do trocadilho (ou falta de), atendo-se de forma secundária ao sentido literal. Um exemplo é um diálogo enorme e sem sentido que se segue à canção do dourado, e que fala de graxa, botas e sapatos. Se você ler o original, ele faz tão pouco sentido quanto. Então era preciso ler um milhão de vezes em inglês, tentar captar a lógica por trás daquilo, depois tentar transpor para a nossa língua perdendo o menos possível no caminho. Um dos desafios mais curiosos foi reconhecer que muitos dos trocadilhos do Carroll eram, em si, muito sem graça ; tipo um que fala sobre o professor Cação, que era uma tartaruga ; que eu simplesmente não podia arrumar uma solução mais brilhante ou elegante no português, senão estaria traindo o original.
Enfim, também consultei várias outras traduções consagradas (a minha preferida é a da Maria Luiza de A. X. Borges, da Zahar) e fui reparando que a quantidade de soluções possíveis em português é quase tão grande quanto o próprio ímpeto trocadilhesco do Carroll.

Como Alice ainda é atual?
Se é atual eu não sei, mas ainda é de chorar de rir. E é ousado, é tolo, é criativo, tudo junto.

Li que você precisou respeitar o ritmo original na tradução. Se não precisasse, você teria traduzido de outra forma? Que forma?
Uai, um dos trabalhos do tradutor é justamente respeitar o ritmo original... Acho que você está se referindo ao fato de que eu tive que respeitar a diagramação da Yayoi Kusama, traduzindo os blocos de texto de forma a que não estourassem na página ou ficassem sobrando. Como se já não fosse difícil o suficiente... Mas no fim das contas achei que isso iria dar mais trabalho do que deu ; acabei seguindo mais ou menos o número de caracteres do original, o que foi um alívio. Talvez o desafio de traduzir o Carroll seja, em si, tão enorme que qualquer outra regrinha colocada pra dificultar o jogo acaba parecendo fácil.

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