Perde a majestade?

Perde a majestade?

Com a abdicação do rei Juan Carlos, a república retorna ao debate na Espanha, e os olhares se voltam para o futuro da venerável monarquia da Inglaterra, onde se aproxima a sucessão de Elizabeth II

LUCAS FADUL
postado em 08/06/2014 00:00

No mesmo dia em que o rei Juan Carlos, da Espanha, anunciou a decisão de abdicar em favor do filho, o príncipe Felipe de Astúrias, adeptos e opositores da monarquia voltaram os olhos para o trono que encarna as raízes ancestrais da realeza. Uns e outros sabem que se aproxima o momento da sucessão de Elizabeth II, 88 anos, dos quais 62 com a cabeça coroada. O soberano espanhol foi o terceiro monarca europeu a ceder o trono para a nova geração, no intervalo aproximado de um ano. Mas foi em Madri que a troca de guarda no palácio recolocou em questão a república, em boa parte graças ao desgaste sofrido nos últimos anos pela dinastia Borbón. A Casa de Windsor, na Inglaterra, está ancorada em uma instituição quase milenar. Mesmo assim, as opiniões se dividem quanto à oportunidade de a rainha seguir o exemplo de seus pares e abrir caminho para o filho, Charles de Edimburgo, príncipe de Gales.


Na última segunda-feira, no calor das notícias da Espanha, o jornal britânico The Guardian colocou a questão para os leitores, numa enquete, e o resultado foi empate técnico: metade dos participantes defendeu que Elizabeth II deixe o trono. Charles, o primeiro na linha sucessória, está longe de ser um consenso entre os súditos. Há quem prefira que a coroa passe direto para William, filho do herdeiro com a falecida (e carismática) princesa Diana. Mas o trono não parece em questão.
Para o professor Ricardo Caldas, do Instituto de Ciência Política da Universidade de Brasília (UnB), a monarquia britânica é um exemplo de regime político bem-sucedido. ;No Reino Unido, nem sequer se comenta sobre o estabelecimento de uma república. Os partidos aceitam a monarquia por causa da luta contra o nazismo, durante a Segunda Guerra Mundial;, explica. ;Eu morei lá e conheço o debate. Existe um grupo republicano, mas é pequeno. Além disso, os países europeus que abandonaram a monarquia se tornaram regimes totalitários, como a Grécia e a Itália;.


Caldas acredita que, devido aos problemas econômicos e sociais na Espanha, há espaço para debate sobre o modelo de governo. ;Por causa da crise, a família real tornou-se o bode expiatório. Em momentos como esse, qualquer fósforo riscado causa incêndio. Mas a monarquia europeia já sobreviveu a outros momentos difíceis, como a crise de 1929;, assinala. O cientista político suspeita de que um referendo no Reino Unido revele que apenas 15% da população é a favor da república. ;Na Espanha, em um cenário negativo, eu diria que 40%, no máximo, optariam pelo fim do atual regime;, conclui.
O professor compara a monarquia ibérica à Constituição do Brasil de 1988: ;Ambas significaram a retomada da democracia no país, cada qual em seu momento;, afirma Caldas, referindo-se ao fim do regime autoritário de Francisco Franco, em 1975, e da ditadura militar brasileira, em 1984.

Processo lento

Em entrevista por e-mail, Emmet O;Connor, professor da Universidade do Ulster (Irlanda do Norte), afirmou ao Correio que a Europa está, gradualmente, se livrando dos reis. ;Apesar de restarem poucas monarquias no continente, esse é um processo lento;, observa. O;Connor acredita que, se os espanhóis se pronunciarem em plebiscito pela república, outros países poderão seguir o caminho. ;Os reis, no entanto, são menos populares na Espanha e na Bélgica do que no Reino Unido e na Escandinávia;, pondera o estudioso. Para ele, Elizabeth não abdicará em favor de Charles, que segue na fila aos 65 anos de idade. ;A rainha é uma tradicionalista e gosta do trabalho. É improvável que saia enquanto ainda tem a saúde razoavelmente boa. Todavia, Charles não é tão popular quanto a mãe, por causa da forma como tratou Diana e por conta de certas gafes. Alguns dizem que ele deve passar a coroa para William.;


Segundo o professor Juan Gabriel Gomez Albarello, do Instituto de Estudos Políticos da Universidade Nacional da Colômbia, a secularização das sociedades europeias é muito profunda, processo que vai na contramão da permanência das monarquias. ;No passado, elas eram justificadas mediante a apelação ao direito divino dos reis. Atualmente, em uma democracia, é difícil achar legitimação para os privilégios da realeza;. Entretanto, Albarello garante que a tradição monárquica no Velho Mundo ainda é forte. ;Quando as forças de integração da União Europeia empurram para uma direção contrária à do bem-estar social, as pessoas procuram símbolos de unidade em nível nacional. Os reis e as rainhas cumprem bem esse papel. Enquanto ficarem longe dos escândalos, manterão a coroa.;

Tags

Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor. As mensagens estão sujeitas a moderação prévia antes da publicação