Batuque empolga, mas não faz vencer

Batuque empolga, mas não faz vencer

Assistimos ao jogo da Seleção Brasileira no quadrilátero mais empolgado da Copa do Mundo no Brasil, o Pelourinho. No 0 x 0 contra o México, pode ter faltado gol, mas sobrou batuque e beijo na boca

Lorrane Melo Enviada Especial
postado em 18/06/2014 00:00
 (foto: Daniel Ferreira/CB/D.A Press)
(foto: Daniel Ferreira/CB/D.A Press)


Salvador ; Olodum é ; e sempre será ; sinônimo de carnaval. Já viveu seus dias de coadjuvante de Michael Jackson também. Mas desde 2002, por uma dessas estranhas relações do povo com a festa do futebol, acabou virando referência na Copa do Mundo. A Seleção Brasileira só vai à Bahia caso se classifique em segundo no lugar do grupo, algo ; pé de pato, mangalô, três vezes ; improvável, mas o ritmo da Bahia é pura Copa do Mundo. Basta que alguma transmissão ao vivo chame o Olodum no telão para que alguém cutuque Mestre Memeu no Largo do Pelourinho e ele comece a comandar os 60 percussionistas do grupo.

A música embala o malabarismo com os instrumentos. A batida rápida e ritmada transforma Valtécio dos Santos, de 39 anos, no jovem que era antes de levar um tiro na medula, justamente quando ia para um ensaio do Olodum. Ele dança sobre uma cadeira de todas enquanto tece artigos artesanais nas cores preta, amarela e vermelha. Valtécio e a turma precisam estar prontos para levantar o ânimo dos milhares de baianos ; e turistas ; que conseguiram entrar no Pelourinho antes que os policiais cercassem a área. Tudo lotado. O Correio estava lá para ver, afinal, como é assistir a uma partida do Brasil com o Olodum.

Quem encontrou espaço no quadrilátero se deu bem. Quem não entrou e tentou invadir o cordão de isolamento ganhou gás de pimenta da polícia ; sem discriminação, até porque ;Olodum tá reggae, Olodum tá rock;. ;Mais baiano do que gringo. Porque gringo não aguenta, não;, diverte-se Mestre Memeu. ;Só o Michael Jackson ali na janela;, mostra, apontando a casa azul. ;Mas ele não era gringo, né?;, brinca.

Desde 1988 no comando do Olodum, mestre Memeu comanda 120 percussionistas, que se revezam em dois grupos em jogos da Seleção. No Brasil 0 x 0 México, 5.200 pessoas assistiram à partida. Padrão Fifa? Que nada. Padrão carnaval da Bahia mesmo. ;Tem que deixar todo mundo entrar;, reclamava dona Edith Souza, baiana, 77 anos. Solidária com os que estavam de fora, ela, vez ou outra, se esquecia dos ;desabrigados; para dar uma olhadela no jogo. ;Fred vai fazer um gol.;

Fred mal tocou na bola, dona Edith. Mas se não teve abraço em campo, nos paralelepípedos baianos, era beijo que não acabava mais. E o repique de Flávio dos Santos de Jesus ;acelerava tudo;. Palavras dele. Confiante, pediu um pedaço de papel emprestado para entregar o número de telefone a uma moça, quase uma deusa no ritmo do samba reggae. A beldade fez o coração do rapaz acelerar mais do que o ataque do México.

No ritmo do Olodum, os corações batiam. E se alguns paravam por milésimos de segundo em busca do amor, afinal é mesmo carnaval, o da maioria parava quando o telão do Pelourinho falhava. Justo no ataque do Brasil.

No fim, o 0 x 0 contra o México teve um quê de frustração na torcida, mas não na banda que virou sinônimo de futebol. ;Não pode parar de andar, não pode parar de sambar, não pode parar de tocar;, grita Mestre Memeu, mantendo a galera em ordem. Ao longo de 26 carnavais (e muito ensaio), ele não perde o nervosismo antes de entrar ao vivo na tevê. E ri com o canto da boca quando fala do resultado do jogo, como se creditasse aos orixás o perrengue nacional diante dos mexicanos. E que assim, só assim, classificando em segundo lugar, a Seleção vai à Bahia. Quem sabe;

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