Valor da Petrobras encolhe R$ 18,4 bi

Valor da Petrobras encolhe R$ 18,4 bi

Contratação da estatal pelo governo, sem licitação, para explorar campos do pré-sal desvaloriza ações e impõe perdas a investidores. Dilma diz que operação é legal

» Simone Kafruni
postado em 26/06/2014 00:00
 (foto: Petrobrás/Divulgação)
(foto: Petrobrás/Divulgação)


O valor de mercado da Petrobras despencou R$ 18,4 bilhões só esta semana, montante superior aos R$ 15 bilhões que desembolsará ao governo pelo direito de explorar o óleo excedente de quatro campos do pré-sal na Bacia de Santos (RJ). Só ontem, o recuo do preço de suas ações foi de R$ 4,56 bilhões. Ontem, os papéis ordinários (ON) derreteram 3,34%, cotados a R$ 16,23, e os preferenciais (PN), 1,98%, a R$ 17,29. Esse desempenho da petroleira ajudou ao pregão tombar 1,58%, o pior resultado em quase um mês. A operação sem licitação, autorizada terça-feira pelo Conselho Nacional de Política Energética (CNPE), desagradou aos investidores na companhia na Bolsa de Valores de São Paulo (BM).

Após duas quedas seguidas, o valor das ações da Petrobras caiu para R$ 225,5 bilhões. Hoje, a Petrobras vale R$ 129 bilhões menos que seu patrimônio líquido, de R$ 354,5 bilhões. A reação negativa é um claro indicativo de que a exploração de volumes extras do pré-sal pressiona ainda mais o caixa e consolida o intervencionismo político na empresa. A impressão é de que os recursos devidos à União visam melhorar a performance fiscal do governo.

O governo contratou a Petrobras, sem licitação, para explorar o óleo excedente em algumas áreas da chamada cessão onerosa ; Búzios, Entorno de Iara, Florim e Nordeste de Tupi ;, o que deve garantir reservas adicionais de até 15,2 bilhões de barris. O negócio, contudo, implica desembolso de R$ 15 bilhões em bônus e em antecipações até 2018, sendo que a estatal prevê que o primeiro óleo excedente seja extraído só em 2021. Além disso, será feito ainda este ano pagamento de R$ 2 bilhões à União na assinatura do contrato.

Diante da reação negativa do mercado, a presidente Dilma Rousseff defendeu ontem a medida controversa, tomada a seu pedido. ;Realizamos o que a lei do modelo de partilha permite que, através da contratação direta, coloquemos a Petrobras para explorar áreas do pré-sal;, disse. Segundo ela, a estatal vai explorar os campos imediatamente e os recursos obtidos vão para a educação e a saúde.;

Maquiagem
Para o diretor do Centro Brasileiro de Infraestrutura (CBIE), Adriano Pires, o momento da decisão do CNPE não poderia ser mais inadequado, pegando todos de surpresa. ;O tema não exigia tanta pressa, a quatro meses da eleição. O problema da Petrobras não é reserva de petróleo, mas de caixa;, comentou. Ele vê a medida como eleitoreira, ao alardear que volumes do pré-sal não seriam entregues a empresas estrangeiras. Na sua opinião, a operação visa, claramente, a promoção de ;mais uma maquiagem fiscal;, ao contribuir para atingir a meta anual do superavit primário (economia para o pagamento do juros da dívida), de 1,9% do Produto Interno Bruto (PIB).

Na avaliação de Lino Gill, analista da DX Investimentos, confirma a tese de Pires e aponta como principal fator negativo da medida um aumento de gastos. ;A Petrobras não tem recursos para explorar mais reservas. Além disso, a falta de licitação não é bem vista pelo mercado;, observou. Em relatório, a analista do Itaú BBA Paula Kovarsky indagou: ;por que agora? ;A estatal tem muito mais do que pode desenvolver a médio prazo. Enquanto isso, o governo adia a paridade internacional dos preços dos combustíveis para evitar pressões inflacionárias;, resumiu.

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