Crônica da Cidade

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Emergência do Hran

por Conceição Freitas >> conceicaofreitas.df@dabr.com.br
postado em 12/07/2014 00:00
Saí moída, uma gosma humana, de oito horas passadas na emergência do Hran, acompanhando um amigo. Aos olhos de Brasília, é um hospital simpático, o Hran. Fala-se de um tratamento de excelência em queimaduras, o que suaviza o peso de ser um hospital público, ou seja, de ser um instituição que padece de doença crônica, entra governo e sai governo, mesmo sendo um governante médico.

Não há sujeira no corredor interno da emergência. É um ambiente largo e limpo, embora antigo, monástico. Os pacientes que passam pela triagem e seguem para o atendimento emergencial são acomodados numa sala pequena, com uma televisão. Cadeiras seminovas, mas não menos incômodas.

Dos cinco consultórios disponíveis para atendimento (um deles para oftalmologia), três tinham médicos em atividade. Eram consultas demoradas, bem mais do que as dos consultórios dos hospitais privados. Porém, enquanto isso, mulheres vomitavam e gemiam na pequena sala de espera. Um homem tentava se ajeitar, deitado entre duas cadeiras de metal.
Um silêncio gritante se impunha naquela sala de desvalidos até que alguém anunciou: ;A mulher está passando mal;. Ninguém da equipe hospitalar se moveu. Não vi nenhum caso de grosseria entre os servidores. O comportamento variava entre a cordialidade e a letargia.

Depois de três horas de espera, o doente a quem eu acompanhava foi chamado ao consultório (tempo que não se diferencia do atendimento com plano de saúde). O médico solicitou exames de sangue, urina e um raio x.

Algum equipamento havia quebrado no laboratório de exames de sangue e urina e, portanto, deveríamos esperar umas três horas para receber o resultado. Mas o raio x estava ok. Porém, ninguém conseguiu localizar o exame do paciente ; eu mesma me dispus a ajudar, e ajudei, o servidor solícito a localizar a chapa, como se dizia naquele tempo. Um pedaço de papel, pedido do médico, envolvia, como um guardanapo, cada um dos filmes.

Enquanto procurávamos o exame perdido, um outro servidor comentou: ;O governo compra equipamento informatizado para raio x do zoológico, e a gente;;, ao que outro completa: ;Esse é o governo do PT;.
Perdeu-se a chapa. Foi preciso fazer outra.

Chegou a hora da mudança de equipe ; assisti a duas delas. Ocorre uma paralisia de pelo menos uma hora entre a saída de uma e a entrada de outra equipe. A do horário do almoço foi a mais demorada.

Pergunto ao médico se haveria necessidade de internação e, se houvesse, se haveria lugar. ;Lugar sempre tem; na cadeira; no chão;, respondeu, com um sorriso que parecia ser um misto de descrença, ironia e cansaço.

Uma das mulheres que vomitava se levantou e anunciou, mais de duas horas depois: ;Ah, vou embora, parei de vomitar;. E foi.

Eu não estava doente, mas também saí de lá enauseada. 7 x 1 para o descaso com a saúde dos brasilienses.
P.S.: O diagnóstico do médico foi equivocado. Comprovou-se depois.

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