A corrupção, segundo o homem-bomba

A corrupção, segundo o homem-bomba

Em depoimento à Justiça Federal, Paulo Roberto Costa revela detalhes do desvio de dinheiro na Petrobras: PT, PMDB e PP cobravam até 3% de propina nos contratos superfaturados da estatal

EDUARDO MILITÃO
postado em 10/10/2014 00:00
 (foto: Carlos Moura/CB/D.A Press - 17/9/14)
(foto: Carlos Moura/CB/D.A Press - 17/9/14)

Em depoimento à Justiça em que se comprometeu a falar a verdade e não silenciar sob pena de perder os benefícios da delação premiada, o ex-diretor de Abastecimento da Petrobras Paulo Roberto Costa acusou o PT, o PMDB e o PP de obterem 3% de propinas de contratos superfaturados na estatal. Ele disse que recursos desviados foram usados na campanha eleitoral de 2010. O esquema, segundo afirmou, envolve um cartel com as maiores empreiteiras do Brasil, que, após acertarem previamente as obras e os preços para cada uma, elevam seus custos para financiar o suborno a ser pago posteriormente por meio de apadrinhados políticos em diretorias da petroleira. De acordo com o homem-bomba, quem não pagasse as comissões ficaria de fora de contratações não só na Petrobras, como em outras estatais e empreendimentos, como portos, aeroportos, rodovias, hidrovias, ferrovias, usinas hidrelétricas e nucleares.

As denúncias, tornadas públicas no fim da manhã de ontem, sacudiram o mundo político. Todos os acusados negaram as afirmações. A oposição quer o depoimento prestado ao juiz Sérgio Moro, da 13; Vara Federal de Curitiba, como arma no segundo turno das eleições presidenciais.

Ao encerrar o depoimento, o ex-diretor da Petrobras reconheceu seus erros no esquema de corrupção e disse que agia para melhorar o Brasil e a estatal onde trabalhou durante 35 anos, a partir de 1977. ;Houve erro, foi a partir da entrada minha na diretoria por envolvimento com grupos políticos, que usam a oração de São Francisco, que é ;dando que se recebe;;, disse o homem-bomba, que é engenheiro. ;Eu decidi fazer a delação premiada com o objetivo de que a gente tenha no futuro um Brasil melhor.; O depoimento foi o primeiro após Paulo Roberto ter fechado acordo de delação premiada com o Ministério Público, em troca da redução de sua pena.

Tudo combinado

Segundo o delator, um cartel de grandes empreiteiras, como Odebrecht, Camargo Corrêa, OAS, Andrade Gutierrez, Queiroz Galvão e Mendes Júnior, fazia reuniões em que loteava grandes obras no país, inclusive na Petrobras, acertando preços previamente. Paulo Roberto disse que mantinha contatos com os executivos das empresas quando necessário. Com os preços combinados, as licitações eram ganhas por quem tinha acertado o seu ;lote;. Nos orçamentos, as empresas acrescentavam um percentual de 3%.

Depois, de acordo com a diretoria da petroleira envolvida no contrato, o valor era rateado entre os partidos. Segundo Paulo Roberto, o PT ficava com 3% quando o caso envolvia as diretorias de Serviço, antes comandada por Renato Duque, de Gás e de Exploração. O réu na Operação Lava-Jato disse que o tesoureiro do PT, João Vaccari, é quem arrecadava o dinheiro. ;A ligação que o diretor do PT tinha era com o tesoureiro do PT, senhor João Vaccari;, afirmou Paulo Roberto. Ele disse que Duque foi indicado para o cargo pelas mãos do ex-ministro José Dirceu, condenado no mensalão.

Quando o negócio envolvia a Diretoria de Abastecimento, para a qual ele fora indicado pelo PP, os petistas recebiam 2%. O PP ficava com 1%, valor, por sua vez, rateado entre o próprio partido, Paulo Roberto, o doleiro Alberto Youssef e o ex-líder do PP na Câmara José Janene (PR), morto em 2010.

O PMDB tinha influência sobre a Diretoria Internacional, então a cargo de Nestor Cerveró. Segundo o delator, ele, Cerveró e Duque também recebiam parte do dinheiro da corrupção. O operador das propinas seria o lobista Fernando Soares, o Baiano. Paulo Roberto disse que o esquema se estendia à Transpetro, comandada pelo ex-senador Sérgio Machado (PMDB-CE). Afirmou que em 2009 ou 2010 foi ao apartamento de Machado no Rio de Janeiro para receber da mãos dele R$ 500 mil de comissão após intermediar uma compra de navios.

Depois que saiu da Petrobras, em abril de 2012, o réu continuou a receber propinas de pendências antigas. Com a sua empresa de consultoria, a Costa Global, Paulo Roberto fechou contratos de consultoria fictícios para obter ;comissões; antigas.

Bate-boca
Para não inviabilizar o processo com discussões jurídicas, o juiz Sérgio Moro proibiu o delator de mencionar os nome dos políticos com mandato, por causa do foro privilegiado, destinatários da propina. Mas Paulo Roberto lembrou que uma agenda apreendida pela PF detalha os valores pagos a ;agentes políticos de vários partidos; na campanha de 2010. Moro proibiu o réu de informar se se tratava de uma campanha eleitoral majoritária, como presidencial, governos estaduais ou senadores. Em várias ocasiões, o juiz discutiu com advogados que insistiam em obter nomes de políticos. Se isso for feito, é possível pedir ao Supremo Tribunal Federal (STF) que chame todo o processo para si e, na prática, retire o caso de Moro, considerado ;linha-dura; pela advocacia.


Trechos
Confira o que disse Paulo Roberto Costa (foto) ao juiz Sérgio Fernando Moro, da Justiça Federal em Curitiba

;As diretorias da Petrobras no governo Sarney, Collor, Itamar, Fernando Henrique e Lula foram sempre por indicação política;

;Ninguém chega a general se não for indicado. Eu fui indicado pelo PP para assumir essa Diretoria de Abastecimento;

;O que acontecia nas obras da Petrobras? Por hipótese: O BDI (custo da obra) era 15%? Então se colocava normalmente em média 3% a mais. E esses 3% eram alocados a agentes políticos;

;A ligação que o diretor do PT tinha era com o tesoureiro do PT, senhor João Vaccari. A ligação era diretamente com ele;

;No PMDB, da Diretoria Internacional, o nome que fazia essa articulação era com o senhor Fernando Soares (lobista Fernando Baiano);

;Do 1% para o PP, 60% iam para o partido e 20% para despesas. E 20% eram repassados, 70% para mim e o restante para o Janene ou o Alberto Youssef;

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