Doleiro detalha pressão dos políticos

Doleiro detalha pressão dos políticos

NAIRA TRINDADE
postado em 10/10/2014 00:00
 (foto: Carlos Moura/CB/D.A Press - 18/10/05)
(foto: Carlos Moura/CB/D.A Press - 18/10/05)

Outro delator do esquema de lavagem de dinheiro da Operação Lava-Jato, o doleiro Alberto Youssef afirmou que o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva cedeu à pressão de políticos do Congresso para nomear Paulo Roberto Costa para a diretoria de refino e abastecimento da Petrobras. Em depoimento a integrantes do Ministério Público Federal e ao juiz Sérgio Moro, da Justiça Federal em Curitiba, o doleiro detalhou que ;políticos trancaram a pauta do Congresso durante 90 dias;.

;Para que Paulo Roberto Costa assumisse a cadeira de diretor da Diretoria de Abastecimento, esses agentes políticos trancaram a pauta no Congresso durante 90 dias. Na época, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva ficou louco, teve que ceder e realmente empossar o Paulo Roberto Costa;, frisou o doleiro, em vídeo no qual os promotores preservam sua imagem e gravam apenas o teto da sala. Nas mais de duas horas em que prestou informações à Justiça, Youssef foi proibido de mencionar o nome de deputados, senadores e governadores por causa do foro privilegiado e os identifica apenas como ;agentes políticos;.

;Nós participávamos de reuniões, no caso, ou em hotéis no Rio ou em hotéis em São Paulo, ou na própria casa. Vamos falar do agente político que, primeiramente, comandava esse assunto através da área de Abastecimento. Nessas reuniões eram feitas atas de discussão de cada ponto que estava sendo discutido ali naquele dia;, explicou o doleiro em relação aos valores combinados com os políticos. ;(As reuniões ocorriam) para se discutir exatamente questão de valores, questão de quem ia participar do certame, esse tipo de situação;, contou. As conversas sobre problemas eram registradas em atas.



Paulo Roberto Costa assumiu uma das diretorias da Petrobras no primeiro semestre de 2004, sob o governo do ex-presidente Lula. Levantamento da Câmara, a pedido do Correio, mostrou que a pauta de votação da Casa não esteve trancada entre janeiro e maio daquele ano, período em que se negociava a indicação do ex-diretor ao posto na estatal. Porém, para pressionar o governo, não necessariamente os parlamentares precisam trancar a pauta, bastam deixar de votar medidas importantes no Congresso.

A fatia

À Justiça, Alberto Youssef destrincha as porcentagens conquistadas por cada integrante do esquema e reforça as afirmações de Paulo Roberto Costa de que PP, PT e PMDB participavam das negociações ilícitas. ;Uma obra da Camargo Corrêa de R$ 3,480 bilhões, ela tinha de pagar R$ 34 milhões para o PP. Se tinha outra comissão, eu não era responsável. Se tinha de pagar outro por cento, como o Paulo Roberto está dizendo, tinha de pagar para o João Vaccari (tesoureiro do PT), que assim diziam;.

O doleiro descreveu que o ex-diretor da Petrobras ficava responsável em dividir o dinheiro das empreiteiras. ;Paulo Roberto fatiava essa questão do recebimento de obras porque ele tinha de atender o PMDB e, às vezes, alguém do PT. Então, outra pessoa fazia o recebimento ou repassava para mim, para fazer o pagamento;. Youssef ainda sugere que outras diretorias integrem o esquema, como as comandadas pelos ex-diretores Renato Duque, de Serviços; e José Zelada, da Internacional.

Nos relatos, o doleiro descreveu como começou o esquema fraudulento que sangrou a Petrobras por cerca de seis anos. ;Qualquer empresa que fosse fazer obras na Petrobras tinha que pagar o pedágio de 1% para a área de abastecimento e também a parte da (diretoria) de engenharia;, contou. Segundo Youssef, o esquema começou pelas mãos do ex-deputado federal José Janene (PP-PR), que teria feito a ponte entre políticos e empresários. ;O deputado (Janene) fez a negociação até ficar doente. Depois, eu passei a representar o partido (o PP) e comecei a negociar com as empresas;, admitiu o doleiro.


Trechos
Confira o que disse Alberto Youssef (foto) ao juiz Sérgio Fernando Moro, da Justiça Federal em Curitiba

;Eu não sou o mentor dessa organização. Eu apenas fui a engrenagem para que pudesse haver o recebimento e os pagamentos aos agentes públicos;

;Tenho conhecimento que, para que Paulo Roberto Costa assumisse a cadeira de diretor de Abastecimento, esses agentes políticos trancaram a pauta no Congresso durante 90 dias;

;Na época, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva ficou louco, teve que ceder e realmente empossar o Paulo Roberto na Diretoria de Abastecimento;

;O deputado (José Janene (PP-PR) fez a negociação até ficar doente. Depois, eu passei a representar o partido (o PP) e comecei a negociar com as empresas;

;Qualquer empresa que fosse fazer obras na Petrobras tinha que pagar o pedágio de 1% para a área de Abastecimento e também a parte da (diretoria) de Engenharia;

;Uma obra da Camargo Corrêa de R$ 3,48 bilhões, ela tinha de pagar R$ 34 milhões para o PP. Se tinha outra comissão, eu não era responsável. Se tinha de pagar outro por cento, como o Paulo Roberto está dizendo, tinha de pagar para o João Vaccari (tesoureiro do PT).

;Paulo Roberto fatiava essa questão do recebimento de obras porque ele tinha de atender o PMDB e, às vezes, alguém do PT. Então, outra pessoa fazia o recebimento ou repassava para mim, para fazer o pagamento;


Candidato no RJ pede ;ajuda;
O ex-diretor da Petrobras Paulo Roberto Costa disse que ;um candidato ao governo do Rio de Janeiro; pediu a ele ajuda em uma campanha eleitoral com uma lista de empreiteiras que prestavam serviços à petroleira. O encontro ocorreu no início deste ano, motivado, a princípio, para que o engenheiro ajudasse a montar o capítulo sobre energia do plano de governo do político. Por causa do encontro, Paulo Roberto anotou em sua agenda uma planilha com o nome das empresas Mendes Júnior, UTC-Constram, Engevix, Iesa, Hope RH e Toyo Setal. Ontem, o Correio questionou os principais candidatos ao Palácio da Guanabara. Luiz Fernando Pezão (PMDB), Marcelo Crivella (PRB) e Anthony Garotinho (PR) negaram encontros com Paulo Roberto. O senador Lindbergh Farias (PT) não foi localizado pelos assessores para esclarecer se conversou com o engenheiro. (Eduardo Militão)


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Escute os áudios dos depoimentos de Paulo Roberto Costa e Alberto Youssef à Justiça Federal

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