Correio Econômico

Correio Econômico

Recessão do Estado

por Vicente Nunes / vicentenunes.df@dabr.com.br
postado em 13/11/2014 00:00
Diante da farra fiscal nos últimos quatro anos, Dilma Rousseff terá que decidir o tamanho da fatura que jogará no colo da sociedade para tirar o país do atoleiro em que se encontra. Há duas opções em jogo, diz o economista Tony Volpon, da Nomura Securities: impor uma recessão ao Estado, o que nada mais é do que um ajuste fiscal consistente; ou deixar que os agentes econômicos façam o serviço sujo, jogando os preços do dólar nas alturas e forçando o Banco Central a elevar os juros. Nesse caso, a recessão atingirá em cheio as empresas e os trabalhadores. E, com certeza, a conta será bem mais salgada.

Na opinião de Volpon, não haverá escapatória. ;A deterioração das contas públicas chegou a tal ponto, que qualquer saída será difícil. O que fará a diferença será o tamanho do custo. Ou seja, a decisão está com o governo;, diz. Para ele, a sensação que se tem hoje, ante os primeiros sinais emitido por Dilma, é de que ;alguma coisa vai ser feita;, mas nada muito contundente. Isso só piora a situação, pois agrava a onda de desconfiança que varre o país. ;A presidente falou em fazer o dever de casa, mas não tem a credibilidade que precisa para reverter o pessimismo. Por isso, a sensação de que se elegeu um Aécio Neves piorado;, complementa.

Para o país, seria muito melhor que o governo cortasse gastos e desse um arrocho severo na máquina pública. Se, num primeiro momento, a economia sentiria o tranco, em seguida, a confiança seria retomada e o setor privado trataria de impulsionar o crescimento. Desse forma, os empregos seriam preservados e, com certeza, o ano de 2016 estaria salvo. ;O primeiro ano do segundo mandato de Dilma já está comprometido. O que se tem que decidir é se terminaremos 2015 em situação de começarmos 2016 bem ou mal;, assinala. ;Não podemos ter uma repetição de 2014 para 2015;, acrescenta.

Pelo raciocínio de Volpon, os agentes econômicos não serão complacentes com Dilma, devido aos erros que ela cometeu no primeiro mandato. Ele ressalta que não é o mercado financeiro que está punido a petista reeleita, mas o empresariado, responsável pelos investimentos produtivos que movem o Produto Interno Bruto (PIB). Em 2002, quando havia uma desconfiança do que seria um governo Lula, o mercado realmente fez o estrago ao jogar o dólar para R$ 4. Mas, neste ano, a moeda norte-americana andou comportada em boa parte do tempo, a bolsa de valores acumulou valorização por um bom período e os juros futuros cederam. Os investimentos produtivos, contudo, estagnaram, jogando a economia na recessão.

A tendência mais provável, no entender do economista da Nomura, é de que o governo faça um mix de cortes de gastos com aumento de impostos. Mesmo assim, será impossível atingir a meta mínima de superavit primário de 2% do PIB prevista na proposta de Orçamento da União de 2015. Sendo assim, o melhor é que Dilma saia do país das fantasias e anuncie, claramente, o tamanho do ajuste que o governo fará no ano que vem. Que seja de 0,5% ou 1% do PIB. Mas que seja consistente, sem truques, sem mágicas, sem maquiagens. Ninguém aguenta mais tanta insegurança quanto aos rumos da economia.

Inspiração em Ronald Reagan
Esquerdista convicta, a presidente Dilma se inspirou em um programa do direitista Ronald Reagan quando presidente dos Estados Unidos nos anos de 1980. Cortou impostos apostando que isso aumentaria o ritmo de crescimento da economia e, por tabela, a arrecadação, fazendo com que as contas públicas fechassem. Deu errado nos EUA. Deu errado no Brasil.

Fazenda
virou piada

; A presidente Dilma anda fazendo piadas com a ansiedade em torno do nome que sucederá Guido Mantega no Ministério da Fazenda. Com auxiliares próximos, não segura o riso ao comentar a tensão do mercado.

Ceticismo
e decepção

; Apesar de, nos documentos oficiais, o Banco Central dizer que está confiante que o governo fará um ajuste fiscal consistente no ano que vem, o que evitaria um choque de juros para levar a inflação ao centro da meta, de 4,5%, até o fim de 2016, internamente, o ceticismo é grande. No ano passado, o BC deu vários votos de confiança ao Ministério da Fazenda, que prometia o equilíbrio das contas públicas. No entanto, só colheu decepção.

Banheiros
da Fazenda

Algo de estranho acontece nos banheiros do andar térreo do Ministério da Fazenda. Parte está em obras, uns são sujos demais e outros só podem ser usados com autorização da administração do prédio.

Parabéns,
companheiros

; É um orgulho enorme comandar uma equipe jovem e guerreira, como a de Economia do Correio. O maior retorno que poderia ter veio com o Prêmio Esso de Informação Econômica, com a série ;20 Anos do Real;. Um trabalho primoroso de reportagem.

Com Rosana Hessel e Celia Perrone




Tags

Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor. As mensagens estão sujeitas a moderação prévia antes da publicação