Ataques contra a fé

Ataques contra a fé

Colonos judeus são acusados de invadir vilarejo na Cisjordânia e incendiar mesquita. Jihad Islâmica promete retaliação "a qualquer momento". No norte de Israel, coquetel molotov é lançado contra sinagoga

Rodrigo Craveiro
postado em 13/11/2014 00:00
 (foto: Abed Omar Qusini/Reuters)
(foto: Abed Omar Qusini/Reuters)






Alguns exemplares do Corão, o livro mais sagrado do islã, ainda ardiam em chamas na manhã de ontem. A mesquita de Al-Mughayir, um vilarejo situado próximo a Ramallah, na Cisjordânia, foi incendiada durante a madrugada. Também à noite, um coquetel molotov atingiu a histórica sinagoga de Shfaram, comunidade árabe localizada no norte de Israel. Construído na metade do século 18, o local de culto sofreu danos leves. Os dois atentados contra templos do islamismo e do judaísmo aumentaram os temores de uma terceira intifada (levante palestino).

A organização Jihad Islâmica prometeu retaliar a agressão à mesquita. ;Aqueles que encorajam e permitem ataques a mesquitas e contra os palestinos devem esperar uma resposta a qualquer momento;, anunciou, por meio de um comunicado. A escalada de tensão não impediu Israel de aprovar a construção de mais 200 moradias no bairro de Ramot, em Jerusalém Oriental ; a medida deve servir de combustível para as críticas dos árabes e da comunidade internacional sobre uma suposta colonização dos territórios ocupados. O plano tornou a ser alvo de críticas de Washington. O Departamento de Estado norte-americano mostrou-se ;profundamente preocupado; com a decisão e advertiu que ela vai impedir as tentativas de se obter uma solução para o conflito baseada em dois Estados.

Depois de visitar Al-Mughayir, Zakaria Saddah, ativista da organização não governamental Rabinos pelos Direitos Humanos (em Jerusalém), classificou o incidente de ;ato terrorista;. ;Dois carros entraram na vila depois da meia-noite. Em seguida, a mesquita pegou fogo;, afirmou ao Correio, por meio da internet. ;O primeiro andar do prédio foi totalmente destruído. Janelas também se quebraram. Eu testemunhei um cenário muito triste. Creio que os colonos gostam de uma guerra religiosa;, lamentou. Saddah lembra que outra mesquita tinha sofrido um atentado semelhante dois anos atrás. ;Eu condeno fortemente o ataque às mesquitas, às igrejas e às sinagogas.;

O comerciante Rabah Alaraj, um palestino de 46 anos que trocou o Panamá pela Cisjordânia há duas décadas, mora a apenas 7km da mesquita. ;Ninguém viu nada. O que ocorreu aqui foi um mistério. Mas todos daqui pensam que os colonos judeus entraram em Al-Mughayir com a ajuda de soldados israelenses;, relatou ao Correio. Segundo ele, o atentado ocorreu por volta das 3h (23h de terça-feira, em Brasília). ;Cheguei lá às 7h30. Havia jornalistas dos Estados Unidos, da Europa e da rede de tevê Al-Jazira. A princípio, os bombeiros pensavam tratar-se de um curto-circuito, mas logo descartaram.; Alaraj não tem palavras para descrever a profanação da mesquita. ;Se você é católico, judeu ou muçulmano, sabe quão grave é queimar um local sagrado.;

Terceira intifada
Professor da Universidade de Al-Quds (em Jerusalém), o palestino Bishara Bahbah também condenou como ;abomináveis; as ações contra locais de cultos. ;Não interessa quem as comete ou por qual motivo. São totalmente e inequivocamente inaceitáveis;, comentou, em entrevista por e-mail. O especialista, no entanto, disse não se surpreender com os crimes de vandalismo. ;Estamos assistindo à formação da terceira intifada. Se o processo de paz não se mover adiante e os raios de esperança forem encobertos pela escuridão das ações políticas, toda a Palestina vai se incendiar mais cedo do que pensamos;, advertiu.

Segundo Bahbah, os ataques a israelenses ; por meio de facadas ou atropelamentos ; alcançaram uma frequência que não era vista há muito tempo. Na terça-feira, o premiê de Israel, Benjamin Netanyahu, determinou às forças de segurança uma megaoperação para combater a permanência de palestinos sem documentação que os permita trabalhar no país. ;Os líderes de extrema-direita de Israel são cegos ou mudos. A causa da atual onda de violência é a falta de progresso nas negociações de paz, não os trabalhadores árabes;, opinou. Ele acredita que o Oriente Médio não terá tranquilidade, a menos que um acordo duradouro seja assinado e que Israel desarticule a ocupação nos territórios palestinos.

Em Amã, o presidente da Autoridade Palestina (AP), Mahmud Abbas, se encontrou com o rei Abdullah II para debater sobre a crise deflagrada pela restrição de acesso à Esplanada das Mesquitas. Abbas afirmou considerar a Jordânia ;um grande parceiro sobre os temas de Jerusalém; e obteve do monarca o compromisso para uma solução do conflito árabe-israelense. ;A situação se tornou explosiva, não podemos mais esperar;, declarou o porta-voz da AP, Nabil Abu Rudeina. ;É preciso jogar água fria sobre essa situação;, concordou o ministro israelense das Finanças, Yaãr Lapid, de acordo com a agência de notícias France-Presse. Abbas deve se reunir ainda hoje com o secretário de Estado norte-americano, John Kerry. Por meio de um comunicado, o ex-premiê britânico Tony Blair, enviado especial do Quarteto ; ONU, União Europeia, Estados Unidos e Rússia ; para o Oriente Médio, se revelou ;imensamente preocupado; com os desdobramentos do conflito.



Líder do Fatah na solitária


Uma mensagem de invocação à resistência armada custou sete dias de isolamento na prisão para Marwan Barghuti, líder do partido Fatah detido em Israel desde 2002. Um comitê disciplinar do Centro de Detenção Hadarim, no centro do território hebraico, ordenou que ele seja punido por ;incitar a violência;, além de pagar multa de centenas de shekels. Em carta publicada anteontem, por ocasião do 10; aniversário da morte de Yasser Arafat, Barghuti afirma ser imperativo ;considerar a resistência como um meio para vencer o ocupante;.
De acordo com ele, ;prosseguir com a resistência global e armada é manter-se fiel à herança de Arafat;.




O conflito na agenda de Dilma



Em visita a Doha, a presidente Dilma Rousseff debateu o conflito árabe-israelense com o emir do Catar, xeque Tamim bin Hamad Al-Thani. ;Eu fui muito clara. Nós não concordamos nem com os ataques que levaram a bombardeios por parte de grupos sobre Israel, mas não concordamos ainda muito mais com a desproporção do ataque, que comprometeu crianças, matou crianças, que matou mulheres, que matou civis;, afirmou a mandatária. Ela contou ter externado a importância de estabilizar o Oriente Médio, o que exigiria a negociação para a criação dos dois Estados. Por sua vez, o secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, nomeou um painel composto por cinco especialistas para investigar os ataques israelenses a abrigos das Nações Unidas, entre 8 de julho

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