Depois do PIB, hora do adeus

Depois do PIB, hora do adeus

Guido Mantega e Miriam Belchior deixarão a pasta da Fazenda e a do Planejamento para que a presidente Dilma Rousseff tente resgatar, com os novos nomes, a credibilidade da política econômica antes mesmo de o segundo mandato começar

SIMONE KAFRUNI DECO BANCILLON
postado em 26/11/2014 00:00
 (foto: Breno Fortes/CB/D.A Press - 25/9/14
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(foto: Breno Fortes/CB/D.A Press - 25/9/14 )


A posse da nova equipe econômica, com Joaquim Levy no Ministério da Fazenda, Nelson Barbosa no Planejamento e Alexandre Tombini reconduzido ao Banco Central, deve ocorrer ainda nesta sexta-feira ou, no máximo, na próxima segunda-feira. Demitido durante o segundo turno das eleições, Guido Mantega, o mais longevo ministro da Fazenda do país no período democrático, acertou sua saída com a presidente Dilma Rousseff para sexta-feira, mesmo dia em que Miriam Belchior deve deixar o Planejamento para ocupar um cargo no Palácio do Planalto. Com isso, a expectativa é de que a presidente faça o anúncio oficial do novo time e das diretrizes econômicas amanhã.

O ministro Mantega deve se despedir durante a entrevista para comentar os resultados do Produto Interno Bruto (PIB), que serão divulgados na sexta pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Pelas estimativas do mercado, ele poderá deixar o governo anunciando que o país saiu da recessão, já que a projeção é de que o PIB do terceiro trimestre tenha crescido entre 0,1% e 0,2%.

Apesar de Mantega ter sido o ministro mais importante do governo Dilma, ele é considerado responsável por estender demais a chamada nova política econômica, com foco no consumo. ;Enquanto havia espaço no mercado de trabalho, essa política, de estímulo ao consumo, de benefícios fiscais e de aumento de salários, funcionou bem. O problema é que a insistência gerou retração nos investimentos produtivos, inflação alta e queda no PIB. E ele não admitiu que o modelo estava esgotado;, comentou Luciano Rostagno, estrategista-chefe do Banco Mizuho.

;O governo erra ao demorar tanto para fazer o anúncio da nova equipe. O Mantega foi demitido ainda no processo eleitoral. E com razão, pela responsabilidade na condução de uma política fiscal expansionista, minada pela contabilidade criativa. Mas a demora provocou um turbilhão no mercado;, ressaltou Alex Agostini, analista da Austin Ratings. Para ele, o legado do ministro é um deficit recorde, de R$ 25 bilhões, no primário. ;O Brasil andou para trás com Mantega. Ele não vai deixar saudade;, disse.

A lentidão para anunciar o substituto, segundo fontes ligadas ao governo, foi reflexo da pressão de setores do PT, que não avalizaram o nome de Joaquim Levy para a Fazenda, por ser considerado muito ortodoxo, justamente a principal característica que anima os especialistas. O senador e ex-candidato da oposição Aécio Neves (PSDB) brincou com a nomeação. ;Levy no Ministério da Fazenda é como se um grande quadro da CIA fosse convocado para dirigir a KGB;, disse, referindo-se aos serviços secretos dos Estados Unidos e da antiga União Soviética.

Fontes ligadas ao governo garantem que a restrição a Levy foi trabalhada por Luiz Inácio Lula da Silva durante o último fim de semana e que o ex-presidente teria sido bem-sucedido em reduzir a pressão. ;Também houve rumores de que Nelson Barbosa não estaria satisfeito no Ministério do Planejamento;, revelou Rostagno, do Banco Mizuho.

De fato, o convívio dos dois não será fácil. Futuro dono da chave do cofre, Levy é conhecido por comandar as contas públicas com mão de ferro. Barbosa, por sua vez, é desenvolvimentista e está mais alinhado com a ideologia do partido da presidente. ;Eles vão ter que trabalhar juntos para resgatar a credibilidade;, pontuou Agostini.

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