Entrevista - Cleonice Berardinelli

Entrevista - Cleonice Berardinelli

postado em 13/12/2014 00:00

Dona Cléo, qual o elixir que a
faz tão disposta e tão produtiva?

Respondo sempre a esta pergunta, que frequentemente me fazem, dizendo: o segredo é que sempre trabalhei naquilo de que gosto muito e por isso o faço com paixão.

Quando se deu o primeiro contato
da senhora com a obra de Fernando Pessoa?

Devo a meu grande amigo e, àquele tempo, professor catedrático, Thiers Martins Moreira, o presente de uma antologia de Fernando Pessoa feita por Adolfo Casais Monteiro, um breve livro que Thiers me apresentou quase dramaticamente, perguntando-me: ; que acha deste poeta?;. Não acho nada, porque nunca o li. A resposta o levou a apontar-me o indicador, acrescentando com energia: ;Uma falha na sua formação intelectual. Leve o livrinho, leia-o e venha conversar comigo;. Foi o que fiz e continuei a fazer pela vida afora, até ao recente lançamento do meu livro Fernando Pessoa ; antologia poética, seguida de ensaios meus sobre sua obra, à qual antepus uma dedicatória justa e afetuosa: A Thiers Martins Moreira, eternamente grata pelo mágico veneno que me inoculou, ao pôr-me nas mãos, pela primeira vez, os versos de Fernando Pessoa, deponho aqui minha homenagem.

O que a levou a interessar-se pela obra do poeta, a ponto de
tornar-se a maior autoridade brasileira no legado dele?

O que me levou ao interesse e paixão pela obra de Pessoa foi a qualidade indiscutível de seus versos, a pluralidade de suas vozes, os diálogos entre elas mantidos, o que constitui o seu drama em gente ou em almas, como ele mesmo definiu.

Entre os heterônimos de Pessoa,
há aquele que tem a sua preferência?

Acho difícil dar esta resposta. Tenho a sensação que deve ter uma mãe a quem perguntam de qual dos filhos gosta mais. A minha resposta é: aquele que estou lendo no momento.

Como se deu o encontro com Maria
Bethânia, outra devota do poeta?

Nosso primeiro encontro deu-se com a participação de meu ex-aluno e atual colega, Júlio Diniz, amigo de longa data de Bethânia que, já encantada por Fernando Pessoa, planejava apresentar, no Canecão, um espetáculo em que ela cantaria versos de Pessoa. Júlio Diniz, chamado por ela para dar-lhe apoio nas escolhas, falou-lhe sobre sua ex-professora, Cleonice Berardinelli, especialista no assunto. Bethânia nos convidou então para o espetáculo, que foi um sucesso, como era de se esperar. Ao fim do espetáculo, fomos cumprimentar Bethânia no camarim ; foi este o nosso primeiro encontro.

Levar a obra de Pessoa a público,
como na Flip de 2013, foi algo que lhe agradou?

Agradou-me imensamente ver uma enorme plateia pôr-se de pé para aplaudir-nos, a Bethânia e a mim.

A senhora se sente uma pop star,
ao protagonizar o documentário
O vento lá fora, ao lado de Bethânia?

Não direi que me sinto, mas é verdade que me estão friccionando o ego, todos me ligam para dizer coisas amáveis sobre o filme...

O conteúdo do filme é exatamente
o que a senhora gostaria de ver no roteiro do filme?

Não tive a pretensão de que saísse tão bom. Estou muito feliz.

Como foi para a senhora ser
dirigida por Márcio Debellian?

Foi uma revelação. Não conhecia o seu trabalho e agora sinto que não poderia ser melhor. Nossa mútua simpatia nos aproximou naturalmente e a sua direção nunca se fez de cima para baixo ; do diretor para a dirigida ;, mas lado a lado, com mútuo interesse, mútuo apoio. Enfim, digo que, de minha parte, foi um prazer ininterrupto a participação nesse filme, que deu tão certo.

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