Fed sinaliza cautela e dólar recua 0,52%

Fed sinaliza cautela e dólar recua 0,52%

» PAULO SILVA PINTO
postado em 19/03/2015 00:00


Ao sinalizar ontem que manterá a atitude de cautela para decidir o momento de começar a elevar as taxas de juros no país, o Federal Reserve (Fed, o banco central dos Estados Unidos) ajudou a acalmar o mercado de câmbio. Depois de alcançar R$ 3,28, na cotação máxima do dia, o dólar encerrou os negócios em
R$ 3,214, com recuo de 0,52% em relação ao dia anterior. A Bolsa de Valores de São Paulo (BM) fechou em alta de 2,47%.

Aguardado com expectativa pelo mercado, o comunicado de política monetária do Comitê Federal de Mercado Aberto (Fomc) do Fed indicou que a provável subida dos juros pode ter início em junho, julgando improvável que haja novidades na próxima reunião do colegiado, marcada para o mês que vem.

Como esperado, o termo ;paciente; ; utilizado nas últimas atas ; foi retirado do comunicado, reforçando a ideia de que o reajuste está mais próximo. Mas a presidente do Fed, Janet Yellen, ponderou em entrevista que, ao deixar de lado o termo ;paciente; no texto, o Fed não transmite ;impaciência;, ou seja, o ritmo da alta de juros deverá ser lento e gradual.

Além disso, o relatório trimestral do Fed apontou corte na perspectiva de inflação para 2015 e redução na trajetória para a taxa de juros: a mediana de estimativas caiu para 0,625% ao final de 2015, ante 1,125% na projeção de dezembro. A autoridade monetária continua a admitir que a inflação está abaixo das expectativas, pressionada em parte pela queda dos preços da energia. A cotação do petróleo voltou a cair, para perto de US$ 42.

Volatilidade
Para o economista-chefe do Banco ABC, Luís Otávio de Souza Leal, não houve surpresas no resultado da reunião do Fed. ;Muita coisa já está nos preços;, disse. Ele explicou que a decisão da autoridade monetária norte-americana sobre a taxa básica tem influência limitada no valor que se está pagando para os títulos de 10 anos do Tesouro norte-americano, bem acima da taxa básica, portanto não terá influência tão grande quanto alguns imaginam no fluxo de recursos para o Brasil.

Atualmente, a remuneração embutida nesses títulos está em 1,94% ao ano, bem acima dos papéis alemães, em 0,19%. Isso reflete uma aposta de que a economia norte-americana será mais dinâmica do que a europeia nos próximos anos, e também enfrentará um aperto monetário, enquanto a Europa está em um processo de estímulo, com injeção de dinheiro no mercado.

A diretora do Fundo Monetário Internacional (FMI), Cristine Lagarde, havia dito na terça-feira que ;emergentes devem se preparar para a volatilidade dos mercados; com a alta de juros nos Estados Unidos. Mas André Perfeito, economista-chefe da Gradual Investimentos, avalia que, no cenário atual, é bem possível que o Brasil passe a ser visto como um mercado atraente. ;Há muito pessimismo hoje em relação ao país, e com razão. Mas é o que paga os juros mais altos. Se for mantido o grau de investimento pelas agências de classificação de risco, em pouco tempo poderá haver otimismo;, afirmou. Para ele, essa é a aposta que levou à alta da bolsa e à queda do dólar de ontem.

A indicação de que o Fed tornaria mais evidente o movimento de alta nos juros era bastante consensual, acrescentou o economista da Guide Investimentos Ignacio Rey. No entender dele, ainda que haja a possibilidade de ser iniciada em junho, o mais provável é que a elevação fique para setembro. ;O Fed sinalizou que aguardará a divulgação de mais dados econômicos para ter um cenário mais claro;, sustentou.

Entre os emergentes, avalia o gerente de câmbio da corretora Fair, Mário Battistel, o Brasil está entre os mais despreparados para lidar com a mudança de cenário na economia norte-americana. ;Nossa política populista dos últimos anos forçou uma arrumação da casa justamente agora, em um momento de fragilidade externa;, comentou. Para ele, a alta de juros nos Estados Unidos deve se concretizar somente em setembro. (Colaborou Diego Amorim)


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