O alquimista chega aos 70

O alquimista chega aos 70

Jorge Ben Jor diminuiu o fôlego criativo das primeiras décadas de carreira, mas, ao fazer aniversário, mantém-se no topo da dinastia da MPB. Ecad divulga com exclusividade as músicas dele mais tocadas nos últimos anos

GABRIEL DE SÁ
postado em 19/03/2015 00:00
 (foto: Adriana Lins/Divulgação)
(foto: Adriana Lins/Divulgação)


Lá se vai mais de uma década desde que Jorge Ben Jor lançou seu último disco de canções inéditas. Reactivus amor est (Turba philosophorum) saiu em 2004. Antes disso, os fãs do cantor e compositor carioca já haviam esperado por longos nove anos para ouvirem novidades do ídolo. Ou seja, nos últimos 20 anos, Ben Jor colocou na praça apenas dois trabalhos com criações atuais. O diagnóstico, contudo, não diminui a relevância artística do inventor do samba rock, que chega aos 70 anos, no próximo domingo, ainda no topo na dinastia da MPB.

O prestígio se deve aos 21 discos que Ben Jor lançou entre 1963 e 1989, petardos sonoros que, em maior ou menor escala, ajudaram a dar forma ao que conhecemos como Música Popular Brasileira. O último grande sucesso veio em 1990, com o hit radiofônico W/Brasil, ainda hoje executado à exaustão. A ausência de trabalhos relevantes nos últimos anos, porém, não retiraram o artista dos holofotes.

Na lista das 10 músicas mais tocadas de Ben Jor em rádios e casas de show entre 2010 e 2014 (veja quadro acima), levantamento exclusivo do Ecad feito a pedido do Correio, apenas duas faixas não são das décadas de ouro do carioca: a citada W/Brasil (que já completa 25 anos) e uma parceria com a sensação juvenil Fiuk, Quero toda noite, de 2011. No topo do rol, as clássicas País tropical, Mas, que nada, Taj Mahal e Fio maravilha, o que comprova que o que Ben Jor fez de mais consistente foi antes dos anos 1990.

;Ben chega aos 70 com muita dignidade, não deve nada a ninguém;, opina o pesquisador musical e estudioso da obra de Jorge Ben, Marcelo Fróes. ;É uma opção dele ficar mais afastado e curtir a vida;. Fróes acredita que a reclusão do artista tenha contribuído para ele ter sido tão mitificado ao longo dos anos. Mas não só isso: ao escutar uma canção de Jorge Ben Jor, você a reconhece como dele imediatamente. Apesar da ausência de produtos frescos no mercado fonográfico, Jorge segue com agenda robusta de shows.

Pai do samba rock
Para o crítico musical Mauro Ferreira, a batida de violão apresentada por Jorge no álbum Samba esquema novo (1963) é tão revolucionária quanto a que João Gilberto desenvolveu para a bossa nova. ;Ele é um dos grandes. Trouxe novos caminhos para a MPB. Mesmo que tivesse parado em 1980, ainda estaria entre nossos maiores artistas;, acredita.

O fato de Ben Jor viver do ;passado de glória;, como atesta Ferreira, não é nenhum demérito. Enquanto Caetano e Gil, entre outros colegas de geração, desafiam os anos com vitalidade ímpar, Jorge prefere seguir seu tempo interno. ;Para fazer discos ruins, é melhor não fazer. E, enquanto as músicas de outros artistas ficaram datadas, as dele não envelheceram;, observa Ferreira.

Uma das questões curiosas que rondam a trajetória do carioca de Madureira é a mudança no nome artístico. Jorge Ben virou Jorge Ben Jor no fim dos anos 1980, embora os fãs mais teimosos prefiram se referir a ele pela primeira alcunha. O motivo da troca, segundo Marcelo Fróes, tem origem na arrecadação de direitos autorais no exterior. O brasileiro era, muitas vezes, confundido com o norte-americano George Benson, e resolveu extirpar o problema de forma radical.

Ano passado, ele fez o jingle da campanha do então candidato Luiz Fernando Pezão ao governo do Rio de Janeiro ; um samba rock daqueles. Pezão acabou levando a melhor nas urnas. Outra aparição recente do carioca foi ao lado de Fiuk, quando dividiram o estúdio para gravarem uma faixa em conjunto. O encontro soou inusitado para os fãs, mas, em se tratando de Jorge Ben, toda ousadia está perdoada.

Segundo a assessoria de imprensa, Ben Jor tem gravado coisas novas, mas sem nenhum objetivo específico ; pelo menos por enquanto. Ele irá passar o aniversário nos Estados Unidos e, por isso, não conversou com o Correio, já que não dá entrevistas por e-mail e evita o telefone. O músico retorna ao Brasil no fim do mês, para uma apresentação no Recife, em 28 de março.

Reverência
A sonoridade extraordinária de Ben foi reverberar no Recife e influenciou a turma da Nação Zumbi. Desde 1998, Jorge Du Peixe (voz), Dengue (baixo), Lucio Maia (guitarra) e Pupillo (bateria) resolveram tocar um projeto paralelo em homenagem ao carioca, batizado de Los Sebosos Postizos. Calcado nas músicas compostas entre as décadas de 1960 e 1970, o grupo tem em A tábua de esmeralda e Samba esquema novo as principais referências. ;Jorge Ben fez uma espécie de bossa nova a seu estilo, bem original. É realmente um ;samba esquema novo;;, observa o vocalista Du Peixe.

Já a cantora brasiliense Ellen Oléria traz Jorge Ben Jor como um amuleto de muita sorte. Ela já cantava a canção Zumbi em seus shows pelo Distrito Federal. Contudo, quando interpretou a faixa em rede nacional, na estreia do reality musical The voice, da TV Globo, carimbou sua passagem para a final do programa e acabou se sagrando vencedora da competição. No episódio derradeiro, para completar, ela lançou mão do hit Taj Majal.

Ellen gravou Zumbi no álbum lançado em 2013 e não deixa de interpretar a música em suas apresentações pelo país. ;Minha irmã sempre o escutou muito em casa, e ela dizia que, por pior que o dia estivesse, Jorge Ben faria tudo ficar alegre;, conta Oléria. ;Foram as canções dele que me escolheram. Zumbi é uma música poderosíssima, me arrepio sempre que canto;.



Top 10
O Jorge Ben Jor que mais tocou nas rádios e casas de show, entre 2010 e 2014

1 ; País tropical
2 ; Mas, que nada
3 ; Taj Mahal
4 ; Fio maravilha
5 ; Chove chuva
6 ; Ive Brussell
7 ; Que maravilha
8 ; Quero toda noite
9 ; W/Brasil
10 ; Por causa de você, menina

Fonte: Ecad

Tags

Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor. As mensagens estão sujeitas a moderação prévia antes da publicação