Brasileiros escaneados

Brasileiros escaneados

Estudo inédito detalha como as doenças crônicas não transmissíveis afetam os adultos. Primeiros resultados indicam que metade dos participantes diabéticos desconhecia ter a doença

» Junia Oliveira
postado em 31/03/2015 00:00
 (foto: Euler Júnior/EM/D.A Press)
(foto: Euler Júnior/EM/D.A Press)



Belo Horizonte ; Pesquisadores de seis instituições do Brasil trabalham há seis anos em um levantamento epidemiológico que, pela primeira vez, vai detectar quais fatores contribuem para aumentar ou diminuir o risco de doenças crônicas não transmissíveis entre os brasileiros adultos. O Estudo Longitudinal da Saúde do Adulto (Elsa) municiará médicos e o Sistema Único de Saúde (SUS) com informações e referenciais de valores para exames clínicos e laboratoriais, hoje tidos com base em sondagens feitas em outros países, como os Estados Unidos. O projeto vai se estender ao menos pelos próximos 20 anos, mas já há sinais de que os parâmetros de saúde são diferenciados.

O estudo recrutou 15.105 voluntários, servidores de universidades e institutos de pesquisa públicos, com idade entre 35 e 74 anos, em seis capitais: Belo Horizonte, Porto Alegre, Rio de Janeiro, São Paulo, Salvador e Vitória. A saúde deles está sendo acompanhada desde 2008. Anualmente, são entrevistados por telefone. A cada quatro anos, submetidos a baterias de exames e a outras entrevistas que ajudam a verificar a evolução do quadro de saúde de cada participante. Cerca de 50 pesquisadores das universidades federais de Minas Gerais (UFMG), do Rio Grande do Sul (UFRGS), do Espírito Santo (Ufes) e da Bahia (UFBS), da Universidade de São Paulo (USP) e da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) estão envolvidos no projeto.

O interesse principal do Elsa-Brasil é avaliar doenças cardiovasculares, hipertensão arterial e diabetes, além de problemas como cognição, depressão e aterosclerose. Entre os parâmetros biológicos avaliados, estão a espessura da camada média-intimal da artéria carótida (o espessamento dela indica o risco aumentado de doenças cardiovasculares), a duração das ondas e os intervalos registrados no eletrocardiograma e exames que verificam a função renal e enzimas produzidas no fígado.

;Nós nos apropriávamos do conhecimento produzido nos Estados Unidos e nos países europeus e aplicávamos na nossa população, mas há diferenças culturais, étnicas, de alimentação e do comportamento. Esse estudo nos trará detalhes da nossa realidade a partir do nosso conhecimento e do que o mundo tem gerado;, afirma Sandhi Maria Barreto, coordenadora do Elsa-Brasil em Minas Gerais e professora do Departamento de Medicina Preventiva e Social da Faculdade de Medicina da UFMG. ;É importante termos parâmetros próprios para ter condição de interpretar com mais precisão um exame pedido pelo médico;, completa.

Patente mineira

A pesquisa gerou, até agora, 55 artigos. Outros 105 estão em andamento, analisando diferentes aspectos. No caso do diabetes, verificou-se que cerca de metade dos indivíduos desconhecia ter a doença ; prova de que a incidência da enfermidade no país está subestimada e vai além dos números oficiais. ;Temos que nos preparar para isso e evitar que os pré-diabéticos se tornem diabéticos, e controlar os doentes;, diz Sandhi Barreto.

Além de publicações em revistas internacionais, o trabalho rendeu, em Minas Gerais, o depósito de patente de dispositivo que ajuda no estudo e no tratamento da osteoartrite. Também conhecida como artrose. O dispositivo é fruto do subprojeto Elsa-Musculoesquelético (Elsa-Me), desenvolvido por pesquisadores da UFMG e que investiga a enfermidade em joelhos e mãos e a dor musculoesquelética em 3 mil voluntários.

Trata-se de um suporte de acrílico usado para retificar a posição e permitir que se faça a medida mais correta do joelho e, com isso, facilitar a percepção sobre a possível existência de artrose. Ele substitui o modelo norte-americano, usado apenas em pessoas com estatura superior a 1,60m. Também está sendo desenvolvido um software que vai estabelecer parâmetros, correlações e atlas de medidas para a população brasileira que terão amplo uso na clínica médica.

A ferramenta digital vai ajudar a padronizar a leitura dos dados obtidos pelo dispositivo. O programa deve identificar o tamanho do espaço articular dos joelhos, que diminui com o agravamento da doença. De acordo com a professora da UFMG, o software possibilitará uma medição semiautomatizada desse espaço, até então verificado manualmente. O novo processo tende a diminuir o tempo de mensuração e o risco de ocorrência de erros.

Degenerativa

Doença crônica que afeta a cartilagem das articulações e dos tecidos circundantes. É a complicação articular mais frequente, afetando a maior parte das pessoas com mais de 70 anos. De modo geral, os sintomas da artrose, também chamada de osteoartrite, avançam de maneira gradual. As articulações dos dedos, da base dos polegares, do pescoço, da lombar, dos quadris e dos joelhos costumam ser as mais afetadas. Exercícios de alongamento, de fortalecimento muscular e fármaco são as principais opções de tratamento. Em casos mais graves, há a possibilidade de cirurgia para a substituição da articulação comprometida

"Nós nos apropriávamos do conhecimento produzido nos Estados Unidos e nos países europeus e aplicávamos na nossa população, mas há diferenças culturais, étnicas, de alimentação e do comportamento. Esse estudo nos trará detalhes da nossa realidade;

Sandhi Maria Barreto,
coordenadora do Elsa-Brasil em Minas Gerais.

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