Governo ainda para começar

Governo ainda para começar

Foram 90 dias de manifestações, cortes de benefícios, derrotas na Câmara Legislativa, recuos políticos e cancelamentos de eventos. O próprio Rodrigo Rollemberg afirma que, até agora, só tratou do caos administrativo. Especialistas cobram ações positivas

» ARTHUR PAGANINI » THAÍS PARANHOS
postado em 31/03/2015 00:00
 (foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press - 3/3/15)
(foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press - 3/3/15)







Os primeiros 90 dias de gestão de Rodrigo Rollemberg (PSB) mostram que o esforço do GDF em organizar prioridades para iniciar o governo ainda vai durar alguns meses. Desde o início do ano, o socialista sofre pressão de credores, de servidores públicos e de uma parcela de aliados sem espaço na máquina. Na Câmara Legislativa, a articulação é fraca: não há um interlocutor de peso e ele lida com a bancada mais conservadora da história da Casa ; bem diferente do perfil político esquerdista dele. Com um quebra-cabeça burocrático para resolver e um jogo de interesses para administrar, Rollemberg tem o desafio de mover uma máquina administrativa imobilizada e ineficiente.



O ex-senador iniciou o governo olhando para trás, criticando um ;caos administrativo; deixado por Agnelo Queiroz (PT). Já nos primeiros dias, anunciou que não pagaria salários e benefícios atrasados de servidores, o que abriu caminho à paralisação de professores, merendeiras, profissionais da saúde e de uma série de terceirizados. Também tomou medidas drásticas, como o cancelamento da Universíade 2019, da etapa da Fórmula Indy, dos repasses às escolas de samba para o carnaval e da maior parte dos repasses da via-sacra, uma das mais tradicionais do país.

O calvário de Rollemberg piorou quando o limite com gastos com pessoal foi ultrapassado, e as nomeações dos comissionados indicados por aliados políticos tiveram de ser interrompidas. Diante da opinião pública, Rollemberg perdeu pontos ao sugerir o Pacto por Brasília, conjunto de medidas que inclui os aumentos de IPTU, IPVA, ITBI, TLP, e do ICMS sobre gasolina, diesel e telefonia.

Recuos

O socialista também sofreu baixas. Antônio Fúcio, indicado pelo PSB para assumir o Detran, deixou o cargo em 4 de janeiro após o Correio denunciar que ele havia cometido 50 infrações ao volante em um mesmo ano. Já o então subsecretário de Microcrédito da Secretaria de Trabalho, Alexandre Donikian Gouveia, foi exonerado em 7 de janeiro após vir à tona um mandado de prisão contra ele, expedido pela Justiça de Curitiba. Um mês depois, Fábio Rolim deixou uma diretoria da Terracap responsável pelas licitações e concessões de terras públicas ; ele havia se envolvido em dois escândalos de corrupção: a CPI dos Bingos, de 2004, e das ONGs, em 2007. Dois administradores ; do Guará/SIA e de Vicente Pires ; também deixaram os cargos após divergências com o GDF.

Em outras oportunidades, Rollemberg se viu obrigado a recuar. Uma das primeiras demonstrações disso foi sobre a divisão da Administração de Ceilândia, berço da maior favela da América Latina, o Sol Nascente e o Pôr do Sol. A intenção era repartir o comando da cidade entre aliados, mas a repercussão foi negativa. Em janeiro, o governador extinguiu a Secretaria para Assuntos de Pessoas LGBT depois de pressão da bancada religiosa da Câmara, mas a medida desagradou a militantes da causa. Em troca, o GDF criou a Coordenadoria de Promoção de Direitos da Diversidade. Em fevereiro, após o Correio informar o impacto do aumento do IPTU no bolso dos contribuintes, o GDF também foi obrigado a voltar atrás na intenção de elevar o imposto, em média, em 80%. Em março, sem discussão com os distritais, encaminhou um projeto para diminuir de 31 para 24 o número de administrações regionais. Os parlamentares se recusaram a votar o texto.



Na Câmara, Rollemberg ainda não conseguiu reunir uma base sólida. Seu partido não elegeu nenhum representante. Nas matérias polêmicas, como os aumentos de impostos, apenas 12 distritais votam com o GDF. Na propositura de projetos, aliás, o governo caminha devagar. Ao todo, foram nove leis, incluídas duas suplementações orçamentárias. Para Joe Valle (PDT), o GDF precisa ser mais transparente. ;O Rodrigo foi eleito para fazer diferente, mas esse processo de transição ainda não começou;, cobra.

Sem Raimundo Ribeiro ; que deixou a liderança de governo por defender o impeachment da presidente da República ;, quem assumiu o cargo foi o deputado de primeira viagem Júlio César (PRB), ex-empresário de São Paulo trazido a Brasília para compor o governo de Agnelo Queiroz. ;Estaria mentindo se dissesse que conheço tudo da política do DF, mas, de 2012 para cá, conheci bem as diferenças e os pontos críticos da cidade;, aponta.

Comunicação

Na análise do professor de administração pública da Universidade de Brasília José Matias-Pereira, a gestão de Rollemberg ainda não tem uma marca. ;Muitos dizem que trocamos seis por meia dúzia. A população quer saber se os problemas do dia a dia serão superados. Se ele não criar as condições para alavancar o DF, ficaremos sem governo por mais quatro anos;, aponta.

Para o economista da UnB Roberto Piscitelli, a equipe do novo governo parece desconhecer a realidade do DF. ;Não sei se por ingenuidade ou forma de fazer política, o fato é que o discurso da herança maldita tem caracterizado o processo sucessório no Brasil. Os novos dirigentes se isentam de responsabilidades por alegarem que o caixa está zerado;, diz. Cientista político e professor da UnB, João Paulo Peixoto classifica como frustrante os três primeiros meses do governo de Rollemberg. ;Não deu para sentir aquele ímpeto de uma gestão nova, aquelas medidas de impacto. É hora de parar com esse discurso de crise e colocar algo novo;, sugere.


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