A aposentadoria do secretário-geral

A aposentadoria do secretário-geral

postado em 03/04/2015 00:00
 (foto: Jose Varella/CB/D.A Press - 14/5/08)
(foto: Jose Varella/CB/D.A Press - 14/5/08)

Na última quarta, Mozart Vianna de Paiva, o ex-secretário-geral da Mesa da Câmara, cumpriu o último compromisso oficial: entregar o cargo ao sucessor, o também servidor Sílvio Avelino. Aos 63 anos, o ;doutor Mozart;, como é conhecido, acompanhou de perto as gestões de 11 presidentes da Casa, aos quais auxiliou durante as sessões plenárias e fora delas, inclusive fazendo as vezes de ;conselheiro; em momentos de tensão. Depois de 40 anos de serviço no parlamento, Mozart diz que não pensa em curtir a aposentadoria: recebeu propostas de empresas privadas e até do governo do Paraná, que avalia contratá-lo para chefiar o escritório de representação em Brasília.

;Não consigo ficar parado nem posso. Eu vivo do meu salário;, diz Mozart. ;Estive com o governador (Beto Richa, do PSDB), e ele quer me nomear secretário no Paraná, para cuidar dos interesses do estado aqui;, contou. ;Há também sinalizações de empresas privadas;, disse. Se não quer parar de trabalhar, para quê sair? ;Qualquer outro trabalho não tem aquele ritmo lá (da Câmara);, disse.

;Eu me coloco no lugar da minha mulher, dos meus filhos. Às vezes, a gente carrega uma culpa, assim. Foram 20 anos nesse ritmo;, confidencia ele, que disse que chegou a ter dúvidas sobre a retirada do ;time de campos;. Segundo o próprio Mozart, pesou na decisão o fato da Mesa Diretora ter resolvido, no fim de novembro passado, limitar os salários ao teto constitucional. ;Se eu ficasse em casa, receberia a mesma coisa (com a aposentadoria);, contou.

Ao longo dos anos como secretário-geral, Mozart foi se tornando uma espécie de confidente dos chefes da Casa do povo. No começo de março, fez uma visita de cortesia a um ex-presidente, atualmente sem mandato e condenado num processo de corrupção, cujo nome pediu que fosse preservado. Entre deputados veteranos, circulam histórias sobre a influência de Mozart em momentos importantes, como a votação da Lei da Ficha Limpa (o então presidente, Michel Temer, do PMDB, tinha dúvidas sobre pôr ou não o texto em votação. Mozart o teria encorajado).

Até mesmo o controverso Severino Cavalcanti (PP-PE), que terminou cassado, procurou conselho na hora sombria. ;Ele tava naquela dúvida (sobre renunciar ou não). Ele achava que tinha chance de ganhar em plenário, na hora que fossem votar a cassação. E ele me chamou na casa dele. ;Dr. Mozart, queria uma opinião sincera sua;. Era uma quinta. ;Eu acho que eu ganho. O que você acha?;. Mozart disse que ele não tinha chance. ;Foi muito difícil dizer isso pra ele;. ;Não me arvoro a ser juiz, ou promotor. Para julgar, já existe o Judiciário;. Cavalcanti acatou o conselho: em setembro de 2005, renunciou ao cargo.

Seminário
Nascido em Corinto, um pequeno município próximo a Cordisburgo, no centro de Minas Gerais, Mozart saiu de casa muito cedo: com 10 anos, passou a viver em um seminário de padres franciscanos, próximo à cidade de Santos Dumont, na porção mineira da Serra da Mantiqueira. Ele estudou com os padres até os 18 anos de idade. ;Eu queria continuar, não saí por falta de vocação, não. Mas eu precisava ajudar com a situação (em casa). Eu e meu irmão fomos para Belo Horizonte (...), e eu arranjei emprego como contínuo, em uma gráfica;, rememora ele, acrescentando que o salário era ;apertado;. A vinda para Brasília ocorreu em 1970, ainda rapaz. Mozart conta que surgiu uma vaga para o irmão, como contador, em uma firma na capital. ;Meu primeiro trabalho foi numa firma de sinteco, na 311 Sul. Chamava Du Lar Decorações.;

A entrada na Câmara ocorreu em julho de 1975, por meio de um concurso para o cargo de datilógrafo. ;Eram 420 toques por minuto naquelas máquinas Olivetti;, conta. Com outro concurso, tornou-se assistente legislativo. Por essa época, no começo dos anos 1980, Mozart já havia concluído a graduação em letras na Universidade de Brasília e atuava como docente no órgão da Casa que depois daria origem ao Centro de Formação (Cefor) da Câmara. A ida para a Secretaria-Geral se deu depois de atuar como secretário da antiga Comissão de Redação Final, hoje extinta. ;Na redação final, você tem que montar o texto (da lei). Inserir a emenda, o destaque. Tem que ter muito cuidado;, explicou.

A nova função também o pôs em contato com o antecessor no cargo, Paulo Afonso Martins de Oliveira, a quem Mozart auxiliou durante os trabalhos da Assembleia Nacional Constituinte, em 1987. Até hoje, o ex-secretário-geral discorre sobre detalhes do processo de confecção da Constituição atual. A titulariedade na SGM veio em 1991, com a saída de Paulo Afonso. (AS)

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