Promovendo o desapego

Promovendo o desapego

Passar para frente o que não se usa é, mais do que um negócio, uma espécie de fenômeno cultural. Penetrou no inconsciente coletivo como um antídoto para o desperdício %u2014 e como uma tremenda diversão para quem exercita o desapego

Por Renata Rusky
postado em 14/06/2015 00:00
 (foto: Zuleika de Souza/CB/D.A Press)
(foto: Zuleika de Souza/CB/D.A Press)
Se vender e comprar peças de vestuário e acessórios usados já estiveram associados a eventos de igreja, as coisas mudaram bastante. Se comprar roupas de segunda mão já foi visto como hábito de quem não tinha condições financeiras para adquirir peças novas, a situação deu uma reviravolta nos últimos tempos. A prática ganhou muitos adeptos em Brasília. Por motivos e objetivos diversos, brasilienses estão procurando uma forma de dar destino àquilo que ainda tem valor, mas está parado no guarda-roupa.

Na Europa, é uma atitude corriqueira há muito tempo. Segundo o coordenador do curso de design de moda do Centro Universitário Iesb, Marco Antônio Vieira, as guerras no continente teriam fortalecido a consciência do reaproveitamento (não só de roupas) entre a população. ;Eles viveram momentos de escassez de materiais. Na Segunda Guerra Mundial, Ferragamo fez sapatos de cortiça, papel-jornal e acrílico. As mulheres usavam cortinas para fazer vestidos;, exemplifica. O contato maior dos brasileiros com esses valores ; por meio de viagens e da internet ;, impulsionou uma nova mentalidade. Não espanta que alguns brechós estrangeiros tenham, inclusive, apelo turístico.

Além desses endereços de escambo, uma nova geração aposta em formas mais baratas e menos burocráticas de vender o que não se usa mais, mas que ainda está conservado e pode servir perfeitamente a outra pessoa. Exibem os objetos em feirinhas, em plataformas on-line ou em casa mesmo. E nem sempre a estrutura caseira significa ;pensar pequeno;. O sucesso dos bazares é tamanho que, em alguns casos, supera o faturamento de lojas famosas. Afinal, um dos baratos desse ramo é que cada ;comerciante; pode imprimir sua personalidade e se voltar para públicos superespecializados.

Cada um tem seus motivos para entrar na onda: economia, ideologia, insatisfação com a moda que se encontra no shopping. Muitos responsabilizam a crise econômica pela vontade de vender e comprar roupas usadas. Desse ponto de vista, crise é oportunidade. Aqueles que querem garantir um dinheiro extra se uniram aos que querem comprar roupas por preços mais acessíveis e todo mundo sai ganhando.

O professor Felipe Lago, do curso de moda do Iesb, acredita que a disseminação dos bazares é parte de um fenômeno de busca por personalidade. As pessoas já não se enxergam no fast-fashion. ;Sabemos que se vamos à liquidação da Zara comprar uma roupa nova e vamos a uma festa com ela depois, vai ter um monte de gente igual;, lamenta. ;A roupa de bazar, naturalmente mais barata, ainda dá possibilidade de criar em cima e customizar. Quando se paga caro em algo, não se corre o risco de estragar a peça;, especula.

A questão do consumo consciente, por sua vez, ganhou espaço na mídia e na mente das pessoas depois que diversas confecções têxteis ; fornecedoras de grandes marcas ; foram flagradas usando trabalho escravo. A tragédia com um prédio repleto de lojas em Bangcoc também levantou a polêmica sobre consumo excessivo e fez com que pessoas buscassem alternativas.

Claro, existem também os bazares despretensiosos. Algumas pessoas querem dar uma movimentada no fim de semana e se divertir ao mesmo tempo em que exercem o desapego. Para isso, os recursos são variados, como o convite a artistas e oferta de drinques, comidinhas. Há quem queira apenas se ver livre do excesso de coisas e levantar uma grana. Motivos nobres e não tão nobres... Não importa: não há regra.

Ambiente virtual de troca

A venda e o consumo de produtos usados se estendem, é claro, à internet. Atualmente, existem diversos sites e grupos em redes sociais nos quais as pessoas anunciam a venda de produtos usados. Apesar de todas as vantagens da internet, quem tenta vender e comprar por meio dela ainda passa por decepções. As reclamações mais comuns: vendedor e comprador combinam de se encontrar em algum lugar para efetuar o negócio e um deles não aparece; na foto parecia mais bonito. Por isso, muita gente ainda prefere o contato físico. Em alguns casos, encontram uma forma mais pessoal de fazer negócio mesmo que pela web.

O Instagram foi eleito a plataforma preferida de Tchérena Guimarães, jornalista, 27 anos. Ela percebeu que a interação com o público era mais fácil por meio dele. ;Eu até tenho um site e um perfil no Facebook, mas a interatividade é diferente, não funciona tão bem;, justifica. Na rede de Mark Zuckerberg, de fato, nem tudo que é postado em uma página vai necessariamente aparecer pra todos que a curtem.

O Desapega, menina, bazar de vestidos de festa, ficou na ideia por 3 anos até ser colocado em prática, no meio do ano passado. ;Eu já estava preocupada porque, se não fizesse logo, alguém ia fazer;, conta Tchérena. A proposta surgiu quando ela percebeu que tinha pagado caro em um vestido de festa que nunca mais usaria e que serviria perfeitamente para outra pessoa. Consultou algumas amigas e percebeu que todas elas tinham o mesmo problema. De fato, Tchérena recebe vestidos de todo lugar do Brasil. Muitos deles são de grifes. ;São roupas muito marcantes, que a gente acaba usando só uma vez, e muito caras, que perdem 50% do valor por serem usadas, mesmo que uma única vez;, explica.

Tchérena percebe que, no contexto inflacionário do país, o mercado de usados ganha força. E se esmera na curadoria de tudo o que chega em suas mãos. Existem coisas que não se encaixam no estilo mais sofisticado que ela propõe, e é tanta oferta que ;é até demais;. Embora receba vestidos de marca, isso não é critério. Ela oferece modelos que não têm marca específica, mas que considera excepcionalmente bonitos e bem conservados.

O Desapega, menina! ainda engatinha, já que Tchérena se divide entre o negócio e o emprego. No entanto, os planos são promissores. Tchérena cita um bazar de rua com vestidos de festa, organizado em São Paulo, e pensa em, um dia, levar seus vestidos para serem exibidos ao ar livre. Ela não descarta a criação de um espaço físico, para que as pessoas possam tratar pessoalmente com ela.

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