É só chegar e escolher

É só chegar e escolher

postado em 14/06/2015 00:00
 (foto: Ed Alves/CB/D.A Press)
(foto: Ed Alves/CB/D.A Press)

Camila Boschini, 32 anos, administradora, organizou o Bazar do Desapego pela primeira vez no fim de semana passado. Há muito tempo, ela compra em brechós e bazares, mas nunca tinha feito o seu próprio. Tinha a vontade, mas por causa do trabalho e dos cuidados com a filha pequena, sempre deixava para depois. Ela não nega que um dos objetivos principais era fazer um dinheiro extra, mas abrir um espaço a mais nos armários de casa também lhe parecia uma grande vantagem. ;Parece pouco porque coloquei as peças em um preço bem baixo, mas de R$ 10 em R$ 10, dá bastante;, revela. Camila passou adiante cerca R$ 1,5 mil em roupas e acessórios.

Não foi, no entanto, só das roupas de Camila que o bazar foi feito. Um mês antes da data programada para o evento, ela fez um grupo só para amigos em uma rede social. Quem quisesse, poderia pagar uma taxa, colocar preços em algumas coisas que não usa mais e entregar pra ela. ;Muita gente quer vender coisas, mas tem preguiça de organizar um evento desses ou até de levar a um brechó;, aponta. Com as roupas em mãos, ela checaria se a peça estava em bom estado e se o preço não estava alto demais. Vinte e três mulheres lhe entregaram peças para fazer parte do Desapego. A taxa cobrada não era para lucro de Camila, mas para pagar gastos como aluguel do salão de festas, das araras etc. O lucro viria estritamente da venda das peças.

Posteriormente, Camila tornou o grupo público, como uma forma de divulgar o evento. Aos poucos, ela divulgava fotos do que seria encontrado no bazar. ;Depois que já estava na parte só de divulgação, várias pessoas vieram me procurar para colocar coisas no bazar também;, conta. ;Quem sabe no próximo?;, completa. Além da divulgação on-line, a administradora também fixou cartazes nos prédios da vizinhança.

No evento, a peça mais cara custava R$ 90 (botas de couro). Camila não tinha um público em mente. Quem viesse seria bem-vindo. Apareceram funcionários dos blocos, empregados domésticos e moradores ; todos os curiosos acabaram levando algo para a casa. Homens foram minoria e reclamaram da pouca oferta de produtos voltados para eles. A satisfação das mulheres, no entanto, foi completa. Uma ou outra até comprou para revender.

Ação entre amigas

Uma rede de amizades levou Maria Clara Aguiar, 22 anos, maquiadora, a um bazar na laje de uma casa. Ela percebeu que o evento funcionou muito bem e que, no fim, não sobrou quase nada. Para Maria, no entanto, a experiência não foi tão interessante, pois as peças disponíveis não tinham nada a ver com o estilo dela. ;Era uma coisa meio hippie;, explica. Ainda assim, foi o impulso inicial que a fez avaliar o que realmente estava em uso em sua própria casa.

Maria decidiu que faria algo semelhante, com as amigas. O bazar teria a cara delas, seria algo mais alternativo. Ao longo das edições, uma menina chamava outra, que chamava outra, e elas passaram a convidar também pessoas que não pertenciam ao grupo, mas com as quais elas se identificavam ; até como uma estratégia para ampliar a oferta de peças. A curadoria, portanto, não dizia respeito aos objetos, aos parceiros. Dessa forma, foram feitas 15 edições do Bazar Dazamigas em 5 anos.

Em 2011, foi organizada a primeira edição. O evento começou no café Objeto Encontrado, na Asa Norte, conhecido por fazer eventos na parte externa. Foi um evento divulgado só para os conhecidos. O experimento deu certo e ela idealizou outras edições ali. Foi na terceira que o bazar conseguiu mais espaço no café e reuniu mais gente. Era hora de sair de lá e ocupar um lugar maior. Transferiram o bazar para a casa da vó de Maria, no Lago Sul, e, posteriormente, fizeram um no Estacionamento 10 do Parque da Cidade com música e cultura. Essa edição teria, inclusive, sido uma das inspirações para o evento PicniK.

Na procura de locais legais, alugaram uma área reservada para feiras no centro comercial Deck Norte, no Lago Norte. ;Comercialmente, o Bazar Dazamigas feito no Deck foi o melhor. Muita gente que estava indo comer ali acabou passando e comprando alguma coisa;, conta. No entanto, isso não satisfez Maria. ;Apesar do lucro, o bazar perdeu a essência. Ganhar dinheiro nunca tinha sido o objetivo. Sempre foi mais questão de ideologia. Nós consumimos demais e, depois, deixamos as coisas paradas no guarda-roupa;, analisa.

O professor de moda Felipe Lago explica que, por trás de todo bazar, há um lifestyle diferente: geralmente, são pessoas que estão mudando a maneira de pensar. Para Maria, ao se inserir no ambiente de um shopping, houve um desvirtuamento. Ela também queria que o bazar fosse em um local onde todos se sentissem bem para passar a tarde. ;Todo mundo lucrou mais, mas, na minha cabeça, era pra ser em um lugar bonito, agradável e natural;, conta. Depois disso, ficou um ano sem organizar nenhum bazar. No começo do ano passado, retomou o projeto com duas amigas e fez um evento na casa de uma delas, com DJ, piscina e tudo que sempre quis. ;O volume da música sempre tinha sido um problema, mas não dessa vez;, conta.


Entrevista / Adriana Moraes

Tempos alternativos

Não é a primeira vez que Brasília passa por um movimento que prioriza a identidade por meio de roupas e que vão na contramão do que acontece dentro dos shoppings da cidade. Em 1996, foi criada a Bsb Mix, feira que fez parte da história da capital. Era um mercado alternativo inspirado no Mercado Mundo Mix de São Paulo. Nela, até havia certas bancas de roupas usadas, mas, segundo Adriana Moraes, uma das criadoras do evento, o conceito de moda consciente é mais atual. Ela contou um pouco sobre a iniciativa e o contexto em que foi criada.

Quanto vocês cresceram do início, em 1996, ao auge da Bsb Mix?
Por uns seis meses, trabalhamos para captar expositores. Na primeira edição, em junho, eram 40. Estreamos no Le Corbusier, um ginásio que ficava perto do Gilberto Salomão. Do iniciozinho ao auge, passamos de 40 expositores pra quase 120. Nosso processo foi muito intuitivo. Uma intuição que nasceu de uma grande amiga, Mônica Azambuja, quando fez uma viagem a São Paulo e viu pela primeira vez o Mercado Mundo Mix. Um belo dia, ela me chamou, também a Cláudia e outra amiga, a Cris, e disse: ;Acho que a gente podia fazer algo assim em Brasília;.

Qual era o contexto social e comercial que permitiu o sucesso da feira?
O momento da cidade e do país, no campo da moda, era efervescente, com muitos novos talentos surgindo. A moda alternativa estava abrindo espaço e a criatividade estava em alta. Tínhamos expositores de Brasília, mas também recebíamos muitos convidados de Minas, Rio, São Paulo e Recife. Era muito gostoso, cada vez, conhecer gente diferente, com produtos e matérias-primas diferenciadas.

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