Na estrada incerta do caos

Na estrada incerta do caos

Em entrevista ao Correio, Alexandre Pilati fala sobre o novo livro, a representação de Brasília nos poemas, o estágio atual da literatura na cidade e os sinais de vitalidade da produção brasiliense

Severino Francisco
postado em 20/06/2015 00:00
 (foto: Edilson Rodrigues/CB/D.A Press - 11/2/09)
(foto: Edilson Rodrigues/CB/D.A Press - 11/2/09)


A presença de Brasília na poesia a relação dos poetas com a cidade é o tema de uma roda de debates a ser realizada, na próxima terça-feira, a partir das 18h, no Sebinho (405 Norte), com Alexandre Pilati, Francisco Alvim e Nicolas Behr. É um encontro de várias gerações de poetas da cidade. Eles discorrerão sobre como veem Brasília e farão um pequeno sarau com a leitura de poemas. Depois da roda poética, o poeta, professor e crítico literário Alexandre Pilati autografará e outros nem tanto assim (Ed. 7 Letras), o segundo livro de poemas. Nesta entrevista, ele fala sobre o sentimento de incerteza que perpassa a sua poesia e os tempos que vivemos, a representação de Brasília na poesia, os avanços e os impasses da literatura na cidade.


O título do livro, e outros nem tanto assim (em caixa baixa) reflete uma tendência à inconclusão e à desconexão da experiência?
O título é, na verdade, o trecho de um poema, é o recorte de uma frase. Acho que ele tem dois sentidos: o primeiro é do caráter inconclusivo, é uma poesia que procura registrar a incerteza e o caos na linguagem. E, por outro lado, expressa a tendência a uma poesia menos assertiva. Há uma referência interna, pois eu tinha mais certezas na produção do livro anterior. E há também uma referência externa. Os poemas foram escritos entre 2010 e 2014, um momento de incerteza na relação do homem brasileiro com o horizonte de futuro. Existe um sentimento de desgoverno, de descontrole social, de estar à deriva. E eu queria dar forma à isso em minha poesia.

Você explora a trilha da tradição coloquial irônica do modernismo brasileiro. Como se dá a sua apropriação dessa vertente na poesia?
A crítica Iumna Simon apontou na produção mais recente da poesia brasileira a tendência ao que ela chama de ;retradicionalização frívola; do modernismo. Evidente que há uma linha do modernismo e da poesia marginal bem visíveis em minha poesia. Há uma atenção declarada a Oswald de Andrade, Carlos Drummond de Andrade e a Manuel Bandeira na ideia de que a poesia está nos fatos. Aantes de ser uma peça de linguagem, existe a atenção ocular aos fatos, o testemunho e o impulso de registrar a experiência na linguagem. Mas, na verdade, tento fugir da retracionalização frívola mencionada por Iuma Simon no sentido de absorção dos trejeitos do modernismo. Utilizo a ironia contra essas próprias referências. A constante é a crítica aos objetos consagrados. Faço várias homenagens a Chico Alvim, a Clarice Lispector, a Carlos Drummond de Andrade. Mas não é pacífica, é uma relação tensa.

O fato de ter nascido e crescido em Brasília interfere em sua poesia ou é apenas uma circunstância irrelevante?
É uma das circunstâncias mais importantes, embora boa parte do livro tenha sido escrita for a de Brasília. Há referencia a uma canção do exílio. Presto atenção à experiência de outras cidades, mas de olho em Brasília, é sempre um ponto de referência. Ela está presente neste livro de maneira essencial. É mais ou menos como os escritores românticos que iam à Europa e redescobriam o Brasil com olhar estrangeiro. Eu levava um olhar de Brasília para outras cidades e comecei a experimentar o espanto e a saudade, coisas que não esperava sentir. Uma das minhas vontades era sair daqui, mas, quando saí, senti falta de Brasília. É uma cidade que tem um apelo muito formal muito forte para quem observa os monumentos e o espaço. Ela instiga a produção de arte.

A geração de Nicolas Behr viveu Brasília na era da distopia, pois a cidade estava sob o jugo do regime militar, tanto que a poesia dele vê os monumentos da utopia modernista na condição de ruínas. Que afinidades e que diferenças nota em relação á poesia de Behr na representação de Brasília?
A Brasília de Behr é muito interessante e cheia de vida. Para qualquer poeta que falar sobre Brasília, ele é a primeira referência, mas, na verdade, a minha Brasília é um pouco diferente. Nasci em 1976 e cresci nos tempos de abertura política. A de Behr é a da negação da utopia. Não tenho muito o que negar ou afirmar, mas sinto certo mal-estar diante dos monumentos. Escrevi um poema no dia da morte de Oscar Niemeyer que destoa um pouco da sensação de incômodo. Mas Brasília estimula muito a criação. O equilíbrio das formas, o horizonte e o céu são muito plásticos. Se souber observar, pode ir para o poema. A experiência urbana é muito plástica.

Não existem muitas referências explícitas de Brasília nas canções de Renato Russo, mas elas estão presentes na expressão de certo tipo de subjetividade de quem vive nos espaços amplos de Brasília. Você diria que isso ocorre também com sua poesia?
A subjetividade é um filtro muito importante da especificidade do espaço de Brasília. Um dos aspectos que está no livro é uma espécie de sentimento de solidão mesmo. Esse é um destino do poeta, mas em Brasília essa dimensão é vivenciada pela dificuldade de mistura da experiência urbana que você tem, por exemplo, no Rio de Janeiro ou em São Paulo. O Chico Alvim tem um poema muito bom sobre o tema intitulado Parque: ;É bom, mas é misturado;. Esse sentimento é muito claro em nossa experiência urbana de brasilienses. Vejo isso muito claramente ao acompanhar o crescimento do meu filho. Há uma carência essencial de vivência com o outro. Viver sem pobreza, sem o outro e sem o contraditóiro nõa é bom. Viver o contraditório é formativo. Escrevi um poema que fala sobre isso. Quando estava em outra cidade queria aproveitar o frenesi das ruas. Fecho o poema dizendo: ;Lá em Brasília não se consegue fazer um verso que preste;. É a ânsia de uma vida menos artificial e mais humana.

Já é possível afirmar que existe uma poesia brasiliense representativa e de qualidade?
Acho que sim. Não arriscaria a dizer nomes da minha geração próximos a mim. Mas vejo muita gente produzindo poesia muito boa. E, não podemos esquecer, que a poesia em Brasília sempre teve uma tendência a confluir para o teatro, o rock e o rap, com muita qualidade. Há uma tradição de poetas que ajudaram a formar a cidcade. Anderson Braga Horta, Chico Alvim, Nicolas Behr, que é uma figura central, Existe por causa de Brasília e dá sentido a cidade. É um privilégio. Chico Alvim radicado aqui há algum tempo. Acho que falta alguém que fizesse um mapeamento da produção mais recente com uma tonalidade mais crítica. Seria um projeto interessante.

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