Amor que não se mede

Amor que não se mede

Vera Lúcia de Oliveira
postado em 27/06/2015 00:00
 (foto: grupoautentica.com.br/Divulgação)
(foto: grupoautentica.com.br/Divulgação)



Vera Lúcia de Oliveira

;Bárbara bela, do norte estrela...; Esses são os primeiros versos do poema que Bárbara Eliodora não acabou de ler, pois rasgou e fez picadinho do papel em que estavam escritos. Estava muito zangada com Alvarenga Peixoto, autor dos versos, pai de sua filha ; e seu marido ;, embora não estivessem legalmente casados. Essa é uma passagem do excelente romance Um poema para Bárbara (Ed. Gutemberg, 2015), de Mônica Sifuentes, mineira de Belo Horizonte, estudiosa do famoso casal participante da Inconfidência Mineira.

Bárbara Eliodora Guilhermina da Silveira poderia ter se casado com o guapo ouvidor de Vila Rica ou com qualquer outro pretendente daquelas paragens. Bastava apenas que seus olhos azuis se cruzassem com os olhares daqueles que a cobiçavam; mas ela amou um só homem: Inácio José de Alvarenga Peixoto. Viveu a plenitude desse amor, que exigiu coragem e muito caráter, pois afrontava as severas leis da sociedade do século 18. E conheceu o que pouca gente conhece: a verdadeira felicidade de amar e ser amada, adorada, melhor dizendo. Bárbara, que era filha de pai português e mãe goiana descendente dos Buenos, fundadores da Capitania de Goiás, trazia o altivo porte de princesa e assim era chamada, bem como suas irmãs. Mas foi mais do que isso, foi rainha para o seu Inácio. Inteligente, culta e grande leitora, nasceu e viveu em São João Del Rei, Minas Gerais, no período mais rico, em todos os sentidos, de sua história. Era também boa poeta, o que não é pouca coisa.

Essa história de amor que Mônica Sifuentes tanto pesquisou para nos contar é daquelas que só acontecem muito raramente, a exemplo de Aberlado e Heloísa, casal apaixonado que desafiou todas as convenções, foi separado e morreu fiel a seu amor, na França medieval; e de Tristão e Isolda, este, sim, adorado por Bárbara, a ponto de dar o nome do trágico heroi ao filho caçula, que Alvarenga, desafortunadamente, não veio a conhecer. Essa triste história de amor até os corações mais duros enternece, para lembrar o belo verso de Basílio da Gama...

Segundo o crítico Emil Staiger, um grande romance participa dos três gêneros literários, o lírico, o épico e o dramático. O romance de Mônica Sifuentes exemplifica essa afirmação na medida em que apresenta o lírico como fio condutor de seu enredo, ou seja, a história de amor de um casal que viveu entre sonetos e sonatas, baseada na recordação, recheada de poemas, cartas e juras de amor, e linguagem e liberdade poética; o épico está presente na estrutura episódica, com o desenrolar dos acontecimentos fiel à cronologia, mostrando os acontecimentos verídicos, visto tratar-se de romance histórico. Sem faltar o herói, Tiradentes, aquele que não vacilou em suas convicções, nem traiu. E, por fim, a presença do dramático, do ;pathos;, com a morte anunciada pela mãe de santo, no papel de oráculo. Em meio à escravidão e servidão, é a tragédia da liberdade, ainda que tardia!

Mais que interessante, Um poema para Bárbara é um romance de fôlego, fundamental, com a presença de santa Bárbara, rainha dos raios e tempestades, e dos grandes poetas árcades Cláudio Manoel da Costa, Tomás Antônio Gonzaga e Alvarenga Peixoto que, por seu triste fado, exige do leitor, ao virar a última página, um minuto de silêncio...

Vera Lúcia de Oliveira é professora de literatura

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