Uma resposta para Obama

Uma resposta para Obama

JOSÉ RICARDO RORIZ COELHO Presidente da Associação Brasileira da Indústria do Plástico (Abiplast) e diretor do Departamento de Competitividade e Tecnologia da Fiesp
postado em 23/07/2015 00:00



Na recente visita da presidente Dilma Rousseff ao seu colega norte-americano Barack Obama, chamou-me a atenção o dado que este revelou: desde que tomou posse em seu primeiro mandato, as exportações dos Estados Unidos para o Brasil aumentaram mais de 50%. O comércio bilateral superou o patamar de um US$ 1 bilhão por ano, mas com saldo favorável a Tio Sam. É mais um jogo que estamos perdendo na economia global, um sintoma agudo de nossa baixa competitividade.

Pesquisando números oficiais, constatei que os Estados Unidos foram o segundo principal parceiro comercial brasileiro em 2014, com participação de 13,7% no total de nosso comércio exterior. Entre 2010 e 2014, o nosso intercâmbio comercial com os norte-americanos cresceu 33,8%, saltando de US$ 46,35 bilhões para US$ 62,03 bilhões. Entretanto, o saldo da balança comercial foi favorável aos Estados Unidos, no período. O Brasil amargou, em 2014, deficit de US$ 7,97 bilhões.

Verifiquei, também, os números específicos do intercâmbio bilateral com os Estados Unidos no setor de plásticos transformados, no qual estamos fazendo grande empenho no sentido de aumentar a competitividade. Em 2014, importamos US$ 583,02 milhões e exportamos US$ 121,15 milhões. O saldo setorial foi negativo para o Brasil em US$ 461,87 milhões.

Nosso país é quase uma exceção quando analisamos o intercâmbio bilateral dos norte-americanos com as demais nações, majoritariamente deficitário. São poucas as que têm saldo negativo nas trocas com a maior economia do Planeta, onde os serviços representam quase 80% do PIB, com o mercado consumidor de manufaturados sendo abastecido por indústrias com produção em outras nações, embora muitas tenham capital dos próprios Estados Unidos.

Os números são claros: os norte-americanos apresentaram, em 2014, deficit em transações correntes de US$ 430,9 bilhões. A balança comercial foi deficitária em cerca de US$ 720 bilhões. Ter saldo negativo no intercâmbio bilateral com os Estados Unidos é algo como a Alemanha, campeã do mundo em 2014, ser eliminada da Eurocopa pelo time de Liechtenstein. Com todo o respeito ao simpático principado, é o tipo de resultado que não se pode admitir.

No entanto, o Brasil continuará correndo do prejuízo no comércio global enquanto não rever questões prementes de sua política econômica. Precisamos, por exemplo, de juros e impostos compatíveis com os vigentes nos países com os quais competimos, bem como financiamentos de longo prazo também para as médias e pequenas empresas. É urgente, ainda, rever o modelo do real desvalorizado e da Selic alta como estratégia única de combate à inflação. Ademais, nossa legislação é anacrônica, com taxas onerosas incidentes sobre insumos, serviços e normas trabalhistas. Tudo isso se soma à insegurança jurídica e ao desequilíbrio fiscal, que vem sendo combatido com remédios errados, cortando-se recursos da infraestrutura, educação e outras prioridades, em vez do custeio da máquina administrativa.

Ao contrário dos norte-americanos, não podemos nos dar ao luxo de manter deficit comercial, como ocorreu em 2014. Para a indústria e a economia brasileiras, as exportações de manufaturados desempenham papel importante na geração de empregos, renda e alimentação do PIB. Para respondermos aos números apresentados pelo presidente Obama e reagirmos perante o comércio global, precisamos de competitividade, já!


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