Rua, a morada da lata velha

Rua, a morada da lata velha

Especialistas alertam para o aumento do número de veículos abandonados em todo o país devido à multiplicação da frota. Somente nos pátios da Polícia Rodoviária Federal, 60 mil carros, motos e similares esperam um destino

IVAN IUNES
postado em 08/08/2015 00:00
 (foto: André Violatti/Esp.CB/D.A Press
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(foto: André Violatti/Esp.CB/D.A Press )

O aumento vertiginoso da frota de veículos no Brasil apresenta dois resultados antagônicos. Ao passo em que pode ser apontado como um dos principais símbolos do avanço no poder de consumo do brasileiro no século 21, indica um horizonte problemático quando se coloca uma questão-chave: o que fazer com o crescente número de carros, ônibus e similares abandonados em cidades e vias do país? Entre 2000 e 2014, passou de 29,7 milhões para 86,7 milhões a quantidade de meios de transporte em circulação. Como resultado do avanço, hoje, somente nos pátios da Polícia Rodoviária Federal, 60.078 veículos enferrujam sob sol e sereno, a grande maioria esquecida pelos proprietários. Na maior cidade brasileira, São Paulo, a estimativa é de que 500 carros sejam largados todos os anos, em geral, com idade superior a 20 anos. Com a multiplicação exponencial da frota, a previsão é de que a estatística do abandono cresça em igual ritmo.

A despeito do avanço da indústria automobilística, a prevenção para que ruas e cidades brasileiras não se transformem em cemitérios de veículos abandonados caminha a passos tímidos na maior parte do país. Pelo Código Brasileiro de Trânsito, o poder público pode leiloar veículos recolhidos não reclamados pelos donos há mais de 90 dias. As regras específicas sobre a apreensão das sucatas do transporte, no entanto, são diferentes, pois cada estado dita normas próprias. No Distrito Federal, há previsão de remoção se decorridos 30 dias sem qualquer movimentação de automóveis, ônibus, motos e similares. Em caso de acidente, o prazo cai para 48 horas. Se provocar grave perturbação do trânsito, 24 horas.

Desde 2011, o Departamento de Trânsito do Distrito Federal (Detran-DF) promoveu 40 operações, sendo recolhidos 457 veículos/carcaças de vias públicas. O número representa apenas uma pequena parcela do que precisa ser removido. O Governo do Distrito Federal não tem pátios suficientes para abrigar o montante abandonado no Plano Piloto e nas regiões administrativas. Entre 18 e 19 de maio, o Detran-DF leiloou 1,4 mil sucatas. ;Temos muitos pedidos de remoção de veículos, mas priorizamos administrações com espaço. Somente no Plano Piloto, temos mais de 100 carros abandonados;, diz Gustavo Viana, responsável pela Operação Sucata. Segundo o especialista, as carcaças acarretam problemas de saúde e de segurança pública. ;No período das chuvas, é normal encontrar focos de mosquito da dengue. Os veículos também servem de abrigo para moradores de rua e consumidores de drogas, como o crack;, explica Viana.



Problema endêmico

Em todo o país, o problema é considerado endêmico por especialistas, e a situação é mais grave nas grandes cidades. ;Precisamos de uma solução o mais rapidamente possível. O período econômico atual é crítico, mas, de qualquer jeito, entraram muitos veículos nas estradas nos últimos anos e entrarão mais. É fundamental que o país se estruture no tema da reciclagem de veículos;, afirma Daniel Enrique Castro, engenheiro do Centro Federal de Educação Tecnológica de Minas Gerais (Cefet-MG). Nos primeiros seis meses do ano, os dois maiores municípios do país, São Paulo e Rio de Janeiro, retiraram das ruas 725 e 951 veículos, respectivamente. Na capital fluminense, onde a situação é considerada especialmente crítica, a prefeitura local editou um decreto com classificações para separar sucatas de carros e ônibus abandonados. No primeiro caso, no qual se enquadram os sem placa ou identificação e com sinais de desuso aparente, o material vai a leilão com mais agilidade. No segundo, quando ainda há como acionar o proprietário, respeita-se o Código de Trânsito Brasileiro, que impõe espera de 90 dias para a venda do material.

Em São Paulo, para evitar que os carros retornem às ruas depois de removidos, lei municipal impõe multa de R$ 16 mil para quem quiser reaver o veículo removido por abandono. Como a maioria das carcaças não chega a valer a metade disso, é raro o material a não ser leiloado. Para que a remoção possa ser realizada, as subprefeituras precisam verificar, nos demais órgãos competentes, como Polícia Militar, se o veículo não tem relação com crime, sinistro ou furto ou, ainda, algum tipo de pendência judicial. ;Além da multa, cabe ao responsável arcar com os custos de remoção e de estadia, calculados conforme o tipo de veículo;, informa a Secretaria de Coordenação das Subprefeituras de São Paulo. Desde que intensificou a remoção de sucatas, em 2011, a prefeitura paulistana recolheu 7.133 veículos abandonados. O número cresce anualmente. Há quatro anos, foram 1,2 mil. No ano passado, 2,6 mil ; o equivalente a sete por dia.

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