Descoberta facilita o estudo da Aids

Descoberta facilita o estudo da Aids

postado em 17/09/2015 00:00

O pegivirus humano (HPgV), antigamente conhecido por GB vírus C e vírus da hepatite G, pode ser transmitido sexualmente ou por transfusão de sangue, infectando cerca de um sexto da população mundial sem se manifestar como doença. O fascínio pelo HPgV começou quando surgiram indícios de que ele protegeria pacientes com HIV do desenvolvimento da Aids. Esse mecanismo, porém, ainda não foi estudado porque não existem modelos animais que permitam uma observação detalhada por cientistas. Agora, pesquisadores da Universidade de Wisconsin;Madison, nos Estados Unidos, apresentam uma solução: com a participação do infectologista Esper Georges Kallás, professor da Universidade de São Paulo, eles criaram um modelo de infecção em animais com uma versão do HPgV encontrada em babuínos selvagens da Tanzânia e da Uganda.


O estudo, publicado na edição mais recente da revista Science Translational Medicine, traz dados preliminares do esconderijo do pegivirus símio (SPgV) ; o baço e a medula óssea ; e como a carga viral se relaciona com o organismo das cobaias, entre outras informações. ;O fato é que o modelo deu certo e, agora, temos como entender qual a relação dele com o HIV;, comemora Esper Kallás. David O;Connor, pesquisador sênior do estudo, explica que a dificuldade de desenvolver um modelo animal para estudar o pegivirus se deve, em parte, à exclusividade da infecção em humanos e em espécies de chimpanzé.


Tentativas de infectar outros animais com o patógeno fracassaram. ;Isso não é incomum. Micro-organismos como o vírus da imunodeficiência humana (HIV) também não infectam e causam a doença em macacos. Mas o pegivirus babuíno, que é geneticamente similar ao humano, supera essa barreira entre espécies;, completa. Nos babuínos, a infecção por pegivirus também não se apresenta como doença. Os pesquisadores acreditam que o SPGV, ao contrário de outros vírus de RNA encontrados na África, como o HIV e o vírus da imunodeficiência símia (SIV), não seja nocivo ao organismo. Outra diferença é que ele se reproduz lentamente e não apresenta grande mutabilidade.


Infecção freada

O vírus da hepatite G e o GB vírus C foram identificados de forma independente, em 1995, mas acabaram classificados como o mesmo patógeno. ;E aí ele se tornou um vírus à procura de uma doença. Havia suspeita de que pudesse ser transmitido por via sexual, e pesquisadores começaram a observar a ocorrência dele em pessoas com HIV/Aids;, conta Esper Kallás.


Os cientistas tiveram uma surpresa ao notar que a frequência do HPgV é maior na população soropositiva.
Porém, mais surpreendente ainda foi a constatação de que coinfectados tinham benefícios, como menor mortalidade e baixa ocorrência de Aids. ;É um papel modesto, mas existe;, diz Kallás, que liderou o grupo que demonstrou que o HPgV desinflama o organismo dos pacientes com HIV, considerada uma infecção inflamatória.


Mais ou menos na mesma época, David O;Connor, amigo de Kallás, criou um projeto para procurar novos vírus na África que pudessem ser transmitidos de animais para seres humanos. O;Connor decidiu ir a um lugar em que houvesse grande população soropositiva e muito contato entre macacos e humanos: Uganda. Em um dado momento, contou a Kallás que encontrou muitos macacos com SIV que também estavam infectados com o pegivirus. ;Ele disse que essa poderia ser uma das explicações de por que os macacos não adoeciam de Aids: o pegivirus os estaria protegendo. Ele decidiu trazer o modelo para os seres humanos e obteve sucesso;, diz.


Kallás conduz na USP experimentos com amostras humanas para tentar identificar se o que foi notado em macacos pode ser reproduzido em pessoas. ;Os resultados devem demorar um pouco, esperamos concluir até o ano que vem. Enquanto isso, as equipes continuam se ajudando, distribuindo e ideias e comentando achados;, diz. (IO)

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