O mar pede socorro

O mar pede socorro

A quase duas semanas da conferência do clima de Paris, especialistas alertam que o aquecimento global está desestabilizando drasticamente o equilíbrio dos oceanos. Elevação do nível das águas e desaparecimento de espécies são algumas das consequências

» ROBERTA MACHADO
postado em 13/11/2015 00:00
 (foto: Mark D. Spalding/Divulgação)
(foto: Mark D. Spalding/Divulgação)



Há 50 anos, o então presidente dos Estados Unido, Lyndon B. Johnson, recebia o primeiro alerta oficial do comitê científico do país a respeito de um fenômeno climático causado pela intervenção humana: o aquecimento global. Naquele momento, foi inaugurado o debate formal sobre os efeitos da emissão de gases produzidos pela queima de combustível fóssil na temperatura do planeta. Apesar do aviso, o problema não foi evitado, e especialistas continuam a apresentar evidências de que uma mudança radical na forma de produzir energia é necessária para frear esse processo que causa grande destruição ambiental.

A pouco mais de duas semanas do início da mais importante etapa da deliberação internacional a respeito do tema, a 21; Conferência das Partes das Nações Unidas para Mudanças Climáticas (COP-21), a ser realizada em Paris, uma série de artigos publicados na revista Science alerta para algumas das consequências do efeito estufa sobre os oceanos. Os prejuízos sofridos pelo ecossistema marinho são vários e afetam a economia, a produção de alimentos e a vida de espécies em todo o mundo.

Como uma pedra de gelo que derrete num copo de bebida quente ou uma poça que evapora num dia de calor, o reservatório global de água amortece o calor, mas paga um alto preço por isso. Os oceanos são um importante canal para o sequestro de carbono, impedindo que o gás chegue à atmosfera, mas essa capacidade está no limite. Eventualmente, as águas e a atmosfera entrarão em equilíbrio térmico, tornando a troca de calor mais difícil e agravando ainda mais os prejuízos causados ao hábitat marinho pela mudança climática. E, mesmo que o aquecimento global seja interrompido, podem ser necessários séculos de readaptação até que o delicado equilíbrio ambiental se restaure.

;Se a concentração de CO2 na atmosfera for maior do que no oceano, ocorre uma transferência de gases entre a atmosfera e o oceano. Presumindo que a atmosfera possa esfriar lentamente no futuro, o calor extra ainda deve permanecer nos mares;, explica ao Correio Thomas Stocker, especialista em mudanças climáticas e professor da Universidade de Bern, na Suíça. ;Devolver o calor extra à atmosfera é um processo muito mais lento, e a água próxima à Antártida deve continuar aquecendo as partes internas das geleiras e continuar a desestabilizá-las;, afirma Stocker.

O derretimento das calotas polares e a elevação do nível marítimo são os mais icônicos, mas não os únicos problemas causados aos oceanos pelo aumento de temperatura. O processo de acidificação, a alteração do ciclo de carbono e a desoxigenação são alguns dos aspectos menos óbvios, mas igualmente graves, que constituem o processo de aquecimento marítimo.

Espécies

Uma água mais ácida, por exemplo, tem matado grandes porções de corais, fundamentais para a sobrevivência de várias espécies. Também existem relatos da redução de produção de peixes em diferentes níveis do mar, assim como um desequilíbrio ambiental entre as espécies mais adaptadas ao aumento de temperatura e aquelas que mais sofrem com o aquecimento global. Além de peixes, mamíferos e recifes de coral, aves também são afetadas pela mudança climática.

E alguns dos maiores problemas, alertam especialistas, podem estar escondidos na profundidade do mar, ameaçando a preservação de um tipo de biodiversidade que é quase inacessível e ainda misteriosa para a ciência. ;A maioria das mudanças no oceano muito profundo vai ocorrer sem nosso conhecimento;, alerta Lisa Levin, coordenadora de um laboratório de pesquisa de oceanografia na Universidade da Califórnia, em San Diego.



A aproximação da COP-21 torna o tema ainda mais urgente. Os cientistas afirmam que o estabelecimento de um acordo internacional que assegure o limite do aumento da temperatura média do planeta é imprescindível para a amenização dos prejuízos causados pelo aquecimento global aos oceanos.

Levin admite que muitos dos processos que podem ocorrer com o contínuo aumento da temperatura global ainda são pouco compreendidos, mas ela ressalta que o reconhecimento do problema e a inclusão de um plano para avaliar e amenizar os efeitos da mudança climática nas regiões mais profundas são questões que devem ser consideradas pela Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre a Mudança do Clima (UNFCCC). ;Eu gostaria de ver os delegados em Paris reduzirem as emissões de CO2 para um nível que vai manter o planeta seguro. Se eles fizerem isso, o oceano profundo vai se beneficiar. Esse é um grande desafio;, reconhece Levin. O evento espera assegurar que o aumento da temperatura média do planeta não supere os 2;C até o fim do século ; esta semana, cientistas ingleses calcularam que o aumento chegará a 1;C já este ano.

O desequilíbrio também leva a outros resultados que não podem ser ignorados, como a incidência de tempestades tropicais e ciclones, que já ocorrem com maior frequência e em regiões que antes estavam fora da rota desse tipo de fenômeno.

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