Crônica da Cidade

Crônica da Cidade

por Sibele Negromonte sibelenegromonte.df@dabr.com.br
postado em 18/12/2015 00:00

Quando os filhos são os artistas

São 16h15 de uma sexta-feira abafada. Homens engravatados e mulheres sobre saltos começam a chegar esbaforidos. Alguns seguem para as primeiras cadeiras enfileiradas em frente ao palco improvisado no pátio principal do colégio. Lá, senhores e senhoras, já devidamente sentados, reservam alguns assentos com bolsas e celulares. Aos poucos, o lugar fica cheio. A fumacinha dos umidificadores nem dão mais conta de refrescar o ambiente. Gente de pé começa a posicionar os tripés das filmadoras. Cada espaço é milimetricamente disputado. A ansiedade impera na plateia.

Atrás do palco, não menos aflitos, os artistas esperam o grande momento de brilhar. Os mais velhos não têm mais que 6 anos de idade. Alguns, de chupeta na boca, ainda usam fralda. A maioria, em um misto de assustada e curiosa, não vê a hora de encontrar pais, avós e tios que tietam do lado de lá.

A cada fim de semestre a cena se repete ; com pequenas variações ; na maioria dos colégios particulares. O script é basicamente o mesmo: mamães chorando emocionadas, papais com câmeras em punho, vovôs e vovós sem conter os gritos, irmãos mais velhos entediados. No calor da emoção, também pode rolar um ou outro barraco. Afinal, na briga pelos melhores lugares, o desrespeito entre os adultos corre solto, mesmo em ambiente escolar.

Ao entrarem em cena, os artistas mirins também seguem um roteiro parecido. Em cada grupo de pequenos que se apresenta, sempre tem aquele, geralmente o menorzinho, que, desinibido, canta, dança e pula, arrancando risos e aplausos dos espectadores. Há os que, ao manterem contato visual com os parentes, querem sair correndo em busca de um colo acolhedor. Mas o que mais me comove é o pequenino que fica aos prantos durante todo o número, como que pedindo socorro para sumir daquele lugar. O papel das ;tias;, porém, é mantê-lo ali. Afinal de contas, a saída do papai e da mamãe no meio do trabalho tem que ser recompensada de alguma forma. Já presenciei até uma criança que, de tão envergonhada, fez xixi ali mesmo, diante de toda a plateia.

Desde 2009, quando o meu filho mais velho ingressou na vida escolar, vivo essa maratona. Se somados aos da minha caçula, são dezenas de espetáculos (de Natal, de São João, de semana da primavera, de formatura na educação infantil...) de experiência. Meus pequenos nunca se opuseram a participar das festinhas. Ao contrário. Fazem parte do grupo que adora subir no palco. Provavelmente, se eles fossem da turma dos inibidos, tentaria poupá-los. Confesso que, ao mesmo tempo que me emociono com cada conquista deles ; e até disputo um bom lugar na plateia ; fico um pouco estressada com todo aquele burburinho. Nada traumatizante. Ano que vem tem mais.

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