O zika e o cientista

O zika e o cientista

» PAULO ROGÉRIO FOINA Físico, doutor em computação, professor e coordenador de cursos do UniCeub, consultor do Instituto de Pesquisas Eldorado e diretor-executivo do Instituto Illuminante de Inovação
postado em 14/03/2016 00:00

Sou crítico sobre a forma como a ciência e a tecnologia são tratadas pelos governos brasileiros e pelos nossos próprios cientistas. Artigos recentes, alguns internacionais, reforçam minha percepção da baixa qualidade de boa parte das nossas pesquisas e para o pouco comprometimento delas com as reais necessidades brasileiras, mas algo novo está acontecendo e precisamos aprender com ele.

O surto de zika vírus comoveu a população pela sua possível associação com a microcefalia em recém-nascidos. O zika se propaga pelo mesmo vetor de dengue, febra amarela e outros vírus: o mosquito Aedes aegypti. Já tivemos sucesso, nos anos 1950 e 1970, em reduzir drasticamente a população desse mosquito, mas fomos incapazes de manter a vigilância necessária para evitar que sua população aumentasse e voltassem as epidemias de dengue, e agora chicungunha e zika.

Nos últimos meses, assistimos à mobilização nacional contra o mosquito e pela criação de vacinas contra o vírus da zika. Bastou a mídia jornalística mostrar crianças com microcefalia para que a população, comovida, exigisse ação do governo e ele, por sua vez, convocou os cientistas e institutos de pesquisa para buscarem solução para o problema. Os resultados começam a aparecer e numa velocidade incomum para a pesquisa brasileira. Burocracias desnecessárias estão sendo relaxadas. Pesquisadores se preocupam com um problema nacional. Fundações de apoio à pesquisa fomentam estudos dirigidos para esse tema. Ou seja, estamos vendo a ciência ser usada para resolver um problema nacional. Aleluia.

Acredito que existam nas gavetas da Embrapa e em outros instituto pesquisas prontas sobre antagonistas do mosquito que não foram comercializados por falta de interesse político, falta de visão comercial ou por pressão dos grandes fabricantes de inseticidas. Esses resultados agora ganham novo alento e podem ser colocados no mercado rapidamente ajudando a combater esse inimigo comum.

A sequência de eventos que levou a essa mobilização é simples: sensibilização da sociedade, divulgação emocionada do problema pela mídia, comoção popular, necessidade dos governos de uma pauta positiva, exército de cientistas capacitados, boa vontade dos burocratas e interesse comercial das empresas.

Temos uma lista enorme de problemas tão, ou até mais, relevantes que o zika. Por que não repetimos essa receita? Ou vamos esperar para aparecer mais natimortos para fazermos a coisa certa? A população está sempre disposta a ajudar, quando motivada, como aconteceu com o esforço para economizar água durante a crise hídrica de São Paulo. Basta mostrar que o esforço é realmente importante para o país. Nossos cientistas estão capacitados a enfrentar problemas muito mais complexos do que os que temos e, se forem incentivados, conseguem dar soluções originais para esses problemas. Basta divulgar de forma clara os problemas e suas implicações sociais e haver interesse político para resolvê-los. Com a palavra, os governos e as mídias de comunicação.

Tags

Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor. As mensagens estão sujeitas a moderação prévia antes da publicação