Histórico de crimes

Histórico de crimes

O acusado de matar a ex-namorada em Samambaia respondia a processos por roubo, agressão e dano. Além disso, havia medida protetiva que o impedia de se aproximar da vítima

ALEXANDRE SANTOS Especial para o Correio
postado em 14/03/2016 00:00
 (foto: Rodrigo Nunes/Esp.CB/D.A.Press)
(foto: Rodrigo Nunes/Esp.CB/D.A.Press)







O assassinato da estudante do terceiro semestre de gestão pública Jane Carla Fernandes Cunha, 20 anos, expôs a fragilidade de um sistema que deveria acolher mulheres intimidadas por ex-maridos e companheiros. Antes de ser morta por Jhonatan Pereira Alves, 23, na casa dos pais dela, em Samambaia Sul, a vítima havia sido agredida por ele. Além disso, o acusado, que se matou após o feminicídio, respondia a três processos, por outra agressão, roubo e dano qualificado. Os crimes foram praticados entre janeiro e novembro do ano passado. A família da jovem desconhecia os antecedentes do ex-namorado ; o casal viveu um relacionamento de seis anos.

Jane Carla trabalhava como secretária em um escritório de advocacia. O patrão dela, o advogado Gustavo Melo, 35, orientou a funcionária a procurar a Delegacia Especial de Atendimento à Mulher (Deam), após ela mencionar que as intimidações de Jhonatan se tornaram frequentes. Para ele, a Justiça falhou em não pedir a prisão do agressor. ;O Judiciário, apesar de verificar que ele tinha esses maus antecedentes, nada fez. Um absurdo;, avaliou. A jovem seguiu o conselho e denunciou o ex-companheiro, enquadrado na Lei Maria da Penha (veja O que diz a lei). Por causa da medida, ele recebeu uma ordem restritiva, ou seja, não deveria se aproximar de Jane Carla.

Mesmo assim, a irmã da vítima, Jane Fonda Fernandes Cunha, 25 anos, disse que a família sugeriu que a estudante mudasse de endereço ; ela morava com os pais, na QR 507. ;Mas ela disse que não sairia daqui por causa dele. Os meus pais, por serem católicos, também acreditavam que ele pudesse respeitar a decisão sobre o fim do namoro;, afirmou (leia Depoimento).

No início da tarde de sábado, por volta das 13h, no entanto, Jhonatan se dispôs a cumprir o que prometeu na última briga do casal, em Pirenópolis, há cerca de um mês. Armado, deixou a casa do pai, a poucos metros dali, e entrou na residência da ex-companheira. Antes de passar pelo portão, mostrou o revólver a um primo de Jane Carla, de 12 anos. A vítima estava no banho. Mal teve tempo de reagir. ;Quando ela abriu a porta do banheiro, ele deu dois tiros e se matou em seguida. Foi muita covardia;, descreveu, emocionada, a irmã.

;Meu tesouro;
Jane Carla, que completaria 21 anos amanhã, será enterrada hoje, às 11h, no Cemitério de Taguatinga. Ela levava uma vida dedicada entre a faculdade e o trabalho. Descrita como uma menina amorosa e de comportamento exemplar, a filha de Francisca Bethânia Almeida Fernandes, 43, e Olessio da Cruz Cunha, 54, aproveitava os fins de semana para estudar. A aluna do UniCeub enxergava nos livros a oportunidade de ter uma vida profissional estável.

Ela também se destacava no escritório de advocacia. ;Via nela um futuro muito promissor. Além de todo o esmero no trabalho, Jane tinha uma boa redação e já estava aprendendo muita coisa do meio jurídico. Se fosse a sua vontade mudar de curso, não abriríamos mão de patrociná-la com uma bolsa de estudos. Era uma menina sonhadora, que estava disposta a crescer e se esforçava para isso;, lamentou Gustavo Melo.

Em família, Jane Carla tinha como confidente a irmã, Jane Fonda. Nem mesmo após a mais velha ter se mudado para Ceilândia, a convivência e a parceria esfriaram. ;Éramos superamigas. Nunca brigamos, dizia sempre que a amava. A minha irmã era uma pessoa que não deixava os meus pais tristes por nada. Era uma pessoa reservada, não curtia redes sociais. Ela gostava de ir à missa, tinha amigas na igreja. Era uma menina educada e meiga, que sempre foi e será o meu tesouro;, emocionou-se.

As duas costumavam se divertir diante do guarda-roupas. ;A gente ficava se arrumando. Gostávamos de fazer as unhas e arrumar o cabelo. Fazíamos isso direto.; Abalados com a partida precoce da filha, os pais de Jane se resguardam no silêncio. ;A ficha não caiu. Mas, com certeza, as boas recordações permanecerão para sempre;, resignou-se a irmã. ;Ela cresceu, mas, para nós, será a mesma menininha que vimos nascer;, concluiu a vizinha Maria de Fátima Barros, 60.


O que diz a lei

A Lei n; 11.340, de 2006, cria mecanismos para coibir a violência doméstica e familiar contra a mulher. Isso é definido como qualquer ação ou omissão que provoque morte, lesão, sofrimento físico, sexual ou psicológico, e dano moral ou patrimonial. A norma, conhecida como Lei Maria da Penha, assegura à mulher proteção policial, atendimento hospitalar e abrigo, dependendo da situação. A Justiça pode exigir que o agressor se afaste do lar, não se aproxime da mulher e de seus familiares ou não se comunique com eles por qualquer meio de comunicação.


Depoimento

;Nós duas sempre fomos superamigas. Nunca brigamos e fazíamos tudo juntas. Uma relação tão forte, que nos tornamos confidentes. A Jane Carla era uma menina muito esforçada, dedicada à família, aos estudos e ao trabalho. Todos a admiravam por isso. Fosse na quadra onde morávamos, na faculdade, na igreja ou no serviço dela. Sempre foi vista como um ser humano de aura enorme. Ela andava muito feliz, porque já estava prestes a se formar. Cursava o último semestre de gestão pública. Na última sexta-feira, combinei de dar o presente de aniversário que prometi. Faria 21 anos na terça-feira, dia 15. O presente seria uma tatuagem, com uma passagem bíblica que ela escolheu. Falei com ela às 13h02, por celular. Às 13h10, recebo uma ligação do meu pai com a notícia de que minha maninha tinha partido.;

Jane Fonda Fernandes Cunha,
25 anos, irmã de Jane Carla


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