Tragédia sob a sombra do terror

Tragédia sob a sombra do terror

Seis meses depois do atentado contra um avião russo, Airbus da Egyptair desaparece sobre o mar em voo entre Paris e o Cairo, com 66 pessoas. Ação terrorista é a principal hipótese dos investigadores, que intensificam as buscas pelos destroços do avião, com ajuda externa

postado em 20/05/2016 00:00
 (foto:  Khaled Desouki/AFP


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(foto: Khaled Desouki/AFP )


A hipótese de ação terrorista era ontem a mais corada pelas autoridades que investigavam a queda de um Airbus A321 da Egyptair, no Mar Mediterrâneo, em meio às buscas por destroços da aeronave. O jato fazia o voo MS804, entre Paris e o Cairo, com 56 passageiros, sete tripulantes e três agentes de segurança. Controladores de tráfego aéreo perderam o contato com a aeronave quando ela sobrevoava o Mediterrâneo, cerca de 40 minutos antes do horário previsto para a aterrissagem na capital do Egito.

O avião decolou da capital francesa às 23h09 (horário local) de quarta-feira e desapareceu dos radares à 1h29 de ontem. Com as operações de buscas em andamento, a Egyptair chegou a comunicar que destroços do jato tinham sido encontrados nos arredores da ilha grega de Karpathos, mas desmentiu a informação depois de autoridades de Atenas constatarem que os objetos não pertenciam ao Airbus desaparecido.

Os esforços para encontrar pistas sobre o paradeiro da aeronave contaram com o apoio de um avião e de embarcações gregas. O governo britânico anunciou o envio de um navio militar e de um avião para auxiliar nas buscas. A França enviou vários especialistas ao Egito para participar das investigações.

Para o presidente francês, François Hollande, a possibilidade de um atentado terrorista não estava descartada. Enquanto Hollande considerou que o Airbus havia caído, o governo egípcio optou por se referir ao avião como ;desaparecido;.

Em comunicado, o presidente egípcio, Adbel Fattah Al-Sisi, ordenou que as entidades de aviação civil e as Forças Armadas adotassem todas as medidas necessárias para encontrar o jato. Horas antes, o ministro da Aviação, Sherif Fathy, afirmou à imprensa que um atentado era a causa mais provável do incidente. ;Não quero fazer presunções, mas, se analisarmos a situação apropriadamente, a possibilidade de termos um ataque terrorista é maior do que a de falha técnica;, ponderou.

Segundo a rede de televisão americana NBC News, um funcionário da inteligência norte-americana afirmou que registros eletromagnéticos sugeriam uma explosão durante o voo. James Comey, diretor do FBI (a polícia federal americana), no entanto, ressaltou que autoridades dos EUA não tinham o conhecimento de nenhuma evidência de que o jato tivesse sido derrubado intencionalmente.

Sem alerta
A tripulação do Airbus não enviou nenhuma mensagem de emergência antes da perda de contato, o que sugere que algo repentino ocorreu a bordo. Autoridades gregas relataram que a aeronave realizou uma brusca manobra de 90 graus para a esquerda e outra de 360 graus para a direita, antes de desaparecer dos radares. O jato ainda desceu de 37 mil pés para 15 mil pés e deixou de dar sinais a 10 mil pés de altitude.

A companhia aérea identificou os pilotos do voo como o comandante Mohamed Saeed Shageer, 36 anos, e o copiloto Mohamed Ahmed Mamdouh, 24. A empresa descreveu ambos como profissionais experientes. Shageer tinha mais de 6 mil horas de voo, e Mamdouh, quase 3 mil. O Ministério do Interior egípcio informou que ambos os funcionários foram aprovados nas checagens de segurança e que as autoridades desconheciam possíveis conexões com organizações políticas.

Com a segurança do aeroporto Charles de Gaulle reforçada desde os ataques de Paris, em novembro de 2015, autoridades passaram a investigar até o possível envolvimento de funcionários. Segundo o jornal britânico The Telegraph, membros de equipes que poderiam ter tido acesso ao jato ou às bagagens dos passageiros do MS804 chegaram a ser interrogados. Em janeiro passado, um mecânico da Egyptair foi investigado no Egito diante das suspeitas de envolvimento de um de seus primos com a queda de um avião comercial da companhia russa MetroJet, na península do Sinai, em outubro de 2015.

O desaparecimento da aeronave da Egyptair, meses após o incidente no Sinai, levantou questionamentos sobre os impactos do caso para o turismo no país. O setor enfrenta dificuldades desde o período de instabilidade política que provocou a deposição do presidente Hosni Mubarak e, depois, do sucessor eleito, o islamita Mohammed Morsy. Em meio às turbulências intensificou-se a ação de grupos terroristas. No ano passado, autoridades egípcias atingiram acidentalmente um grupo de turistas mexicanos, durante combate com extremistas.

Maioria de egípcios a bordo
Entre os 56 passageiros do voo MS804 viajavam 30 egípcios, 15 franceses, dois iraquianos, um britânico, um canadense, um belga, um português, um argelino, um sudanês, um chadiano, um saudita e um kuwaitiano, segundo informações da Egyptair. O governo canadense, no entanto, afirmou que dois de seus cidadãos estavam a bordo. Sem especificar nacionalidades, a companhia informou que uma criança e dois bebês estavam entre os passageiros do Airbus. Um centro de informações foi montado no Cairo para atender a familiares das vítimas da tragédia.

Não quero fazer presunções, mas a possibilidade de termos um ataque terrorista é maior do que a de falha técnica;
Sherif Fathy, ministro da Aviação do Egito

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