Plano Safra

Plano Safra

» HÉLIO TOLLINI Engenheiro agrônomo e Ph.D. em economia
postado em 20/05/2016 00:00

Como amplamente reconhecido, o Brasil enfrenta problemas econômicos muito sérios. Durante período demasiadamente longo, convivemos com política fiscal expansionista e política fiscal contracionista. Isso fez com que, para alcançar seus objetivos de estabilidade da moeda, a política monetária tivesse de ser mais apertada do que seria necessário se a política fiscal fosse mais comedida. Isso afetou negativamente a capacidade de investir e o crescimento da economia, e se alongou por tanto tempo que investidores perderam a confiança na economia brasileira.

Durante vários anos, a agricultura gerou um volume grande de divisas. Em contrapartida, a indústria não conseguiu competir com importações baratas, algumas vezes de produtos sustentados por subsídios, mão de obra com baixos salários, financiamentos especiais e outros mecanismos de apoio e promoção em seus países de origem. Substituímos, em grande parte, produtos brasileiros por produtos chineses. Perdemos empregos e mercado para nossos produtos agrícolas.

Na recente discussão sobre o processo de impeachment, falou-se muito no Plano Safra, parte importante da política agrícola que visa reduzir a diferença entre os juros pagos por produtores brasileiros e os pagos pelos nossos principais concorrentes. O crédito no Brasil é caro, com juros elevados em certas linhas de crédito, e a produção agrícola, atividade de risco. São juros desconhecidos nos países desenvolvidos. Sem a chamada equalização de juros dos planos safras, a produção agropecuária nacional poderia se reduzir de forma indesejável. Enquanto a economia brasileira não atingir níveis competitivos no mercado de crédito, a escolha é entre cobrir parte da diferença dos juros no Brasil e nos países concorrentes e correr o risco de ver a safra agrícola se reduzir perigosamente.

A redução na safra agrícola pode ser perigosa pelo seu impacto no processo inflacionário, elevando a inflação dos itens que mais pesam no orçamento das famílias de renda mais baixa. Essas famílias estão sentindo o peso da inflação de alimentos. É experiência diária para o povo. O governo que começa certamente dará atenção a esse setor, por interesse da economia como um todo e da tranquilidade social.

E não é apenas pelos efeitos na inflação que o governo dará atenção ao setor agropecuário. Também pelo emprego o país necessita de uma agricultura que se expanda de forma significante. E ainda pela possibilidade de expansão da geração de divisas. Para isso, é necessário expandir a participação no mercado internacional, já que o mercado interno crescerá em ritmo abaixo do potencial de crescimento da agricultura. Para explorarmos e nos beneficiarmos desse potencial, é necessário disputar o mercado externo. Pena que o Brasil não se beneficiou das disputas na OMC, onde vitórias importantes sobre competitividade e acesso a mercados, que poderiam eventualmente representar ampliação de mercados, foram trocadas por vantagens financeiras limitadas em seus efeitos.

O que acontece é que a economia brasileira necessita do setor, único no momento com potencial de competir internacionalmente. A valorização do dólar frente ao real melhorou a situação dos setores exportadores, como a agricultura e partes da indústria. No caso do mercado interno para a agricultura, a situação só melhorará quando os setores que processam produtos agrícolas primários retomarem ritmo normal de crescimento. São inúmeros os produtos da indústria de transformação baseados em produtos agrícolas primários. Se a demanda final não se recuperar sem demora, a demanda por produtos agrícolas acabará sofrendo queda também. Na verdade, esse processo já está acontecendo.

É preciso distinguir o Plano Safra da forma como ele é financiado. O Plano Safra é importante e necessário, e deve receber apoio do governo. Para isso, o orçamento deve prever os recursos que a sociedade quer disponibilizar para o programa. Evidente que a situação da economia é difícil e o governo terá de fazer opções também difíceis. Pela necessidade de evitar retração na oferta de alimentos e de produtos exportáveis, afetando inflação e bem-estar das famílias de menor renda, e pela necessidade de ampliar a geração de divisas, é necessário cuidado com o setor. Não são os agricultores que mais precisam disso. É a economia e o povo brasileiro.

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