Em busca de uma razão para a morte de Jéssica

Em busca de uma razão para a morte de Jéssica

Enquanto parentes e amigos da universitária assassinada procuravam consolo no enterro da jovem de 20 anos, a polícia está atrás de alguma pista mais consistente. Na bolsa dela, agentes encontraram um microsselo e uma balança de precisão

» ISA STACCIARINI » THIAGO SOARES » BERNARDO BITTAR
postado em 16/06/2016 00:00
 (foto: Minervino Junior/CB/D.A Press)
(foto: Minervino Junior/CB/D.A Press)

Investigadores da Polícia Civil tentam desvendar o assassinato de Jéssica Leite César, 20 anos, a partir do rastreamento do celular roubado da vítima. O caso, tratado inicialmente como latrocínio (roubo seguido de morte), pode sofrer uma reviravolta. O titular da 17; Delegacia de Polícia (Taguatinga Norte), Flávio Messina, não descarta a possibilidade de homicídio cometido por algum conhecido da estudante de jornalismo. Nesse caso, o telefone pode ter sido furtado por curiosos que se aglomeraram próximo ao corpo da vítima. Mensagens e fotos em redes sociais também estão sendo analisadas, assim como imagens de câmeras de segurança próximas. Entre as dificuldades na investigação estão a ausência de testemunhas, a falta de denúncias, informações desencontradas ; incluindo presença de droga dentro da bolsa dela ; e a baixa qualidade das imagens obtidas até agora.

Ontem, familiares e amigos se reuniram no Cemitério Campo da Esperança, no Plano Piloto, para o último adeus à Jéssica. Mais do que revolta, os sentimentos principais eram de tristeza e impotência diante da violência. A jovem era conhecida por sua alegria e facilidade em fazer amizades. Por esse motivo, mais de 200 pessoas passaram pelo local. A mãe de Jéssica chorou muito, chamando a filha de ;bonequinha;, enquanto colegas de faculdade ainda estavam perplexos. ;Ela era uma pessoa de personalidade muito forte. Crescemos juntos, vi cada evolução da Jéssica. A alegria de entrar na faculdade. Jéssica buscava sempre de reunir as pessoas. Gostava de ver todos felizes. É uma grande perda;, declarou Heitor de Moura, 20 anos, amigo desde os 10.


A esperança é que se descubra o assassino. Sobre isso, a linha de investigação de homicídio surgiu após a polícia constatar que a mochila da jovem ; com carteira, casaco e chips de celulares ; permaneceu no local. Em coletiva, o delegado Flávio Messina afirmou que não havia drogas na bolsa. Mais tarde, ao prender três suspeitos do crime, ele confirmou a presença de ;pouca quantidade de LSD e maconha;, mas afirmou que ainda precisava analisar a presença do ;material;. Segundo apuração do Correio, a ocorrência aponta que havia uma balança de precisão e um ;micro-selo (sic);, porém sem a informação se eram de Jéssica ou se tinham sido plantados.

;Em um caso de latrocínio, os suspeitos não teriam deixado nada para trás. Por essa razão, não descartamos o homicídio. Foi uma facada única e, provavelmente, em um contato próximo;, esclareceu o delegado. Jéssica saiu de casa, na QNL 19 de Taguatinga Norte, pouco depois das 16h, em direção à Universidade Católica de Brasília (UCB). No entanto, chamou a atenção do investigador o fato de ela ter desviado o caminho e parado em um Ponto de Encontro Comunitário (PEC) na QNL 21/23, onde o crime ocorreu. ;A família está muito abalada, mas queremos indagá-los com tranquilidade para saber se esse era um caminho costumeiro ou se ela esperava alguém no PEC e o motivo pelo qual ela saiu em um horário tão antecipado de casa, já que a aula começava às 19h;, explicou.

Messina destacou a falta de testemunhas e de imagens de qualidade. Também disse que a jovem não mantinha nenhum relacionamento amoroso e não há registros de ameaças contra ela. ;Não é um latrocínio nem um homicídio simples. Não podemos nem dizer que o celular tenha sido levado pelo autor. É uma situação muito peculiar;, acrescentou.


Região
O local do crime é conhecido como ponto de consumo de maconha, principalmente à noite. Moradores também reclamam de a área ser deserta e relatam ocorrências de roubos e furtos na região. Nascido e criado lá, o motorista Elenildo Vasques, 42 anos, reclamou da quantidade de pessoas que usam droga na área. ;Toda hora tem uma pessoa assaltada. Eu e minha mulher levamos e buscamos as crianças de 6 e 7 anos todos os dias na escola. Não tem policiamento e, na verdade, nem adianta, porque é prender e a lei soltar;, lamentou.

Em nota, a Polícia Militar garantiu que empenha, todos os dias, policiais a pé, em motos e carros, mas destacou que Taguatinga é o maior polo comercial do DF e recebe um público flutuante diário, o que demanda atenção da segurança pública e de outros setores. ;Todo o trabalho da Polícia Militar é feito por meio de manchas criminais elaboradas pela Secretaria da Segurança Pública e da Paz Social;, informou. A PM ressaltou ainda que os crimes de furto e roubo são chamados de ;delitos de oportunidades;, nos quais o bandido espera a ausência de uma equipe policial. No caso de usuários de drogas, a corporação destacou ser um problema estrutural e dependente de ações coordenadas com a saúde pública e a assistência social.


Números da violência

Dados da Secretaria de Segurança Pública e da Paz Social do DF (SSP-DF) mostram que, entre janeiro a março deste ano, houve 999 assaltos a pedestres em Taguatinga, contra 1.019 no mesmo período de 2015. Nos três primeiros meses do ano, houve oito homicídios na região e nenhum caso de latrocínio registrado. Em todo o DF, a pasta contabilizou 2.929 roubos a pedestres entre janeiro a maio deste ano, 259 homicídios e 17 latrocínios.


Perfil


O sorriso sempre aberto era a marca de Jéssica Leite César. A jovem de 20 anos tinha o sonho de ser jornalista. Estava cursando o quinto período de Comunicação Social na Universidade Católica. Na instituição, ela também atuou como secretária no Núcleo de Direito. A espontaneidade também rendeu fatos inusitados: Jéssica era a única que tratava o coordenador do curso de direito como ;você; e não ;senhor;. Isso, inicialmente, provocou um desconforto entre os colegas de trabalho, mas conquistou a confiança do promotor Diaulas Ribeiro. Com o tempo, ela passou a ter amizade com todos. Na faculdade, era conhecida por unir as diferentes tribos. Natural de Belém do Pará, a universitária morava com a mãe, Mônica, e o irmão mais novo. Era conhecida também por ser uma filha carinhosa. A garota era muito atuante nas redes sociais. Jéssica gostava de rock, desenho, andar de patins e sair para comer com os amigos.




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