Encontros por Drummond

Encontros por Drummond

Escritores brasilienses se reúnem para celebrar e homenagear a vida e a obra do grande poeta

» Isabella de Andrade Especial para o Correio
postado em 31/10/2016 00:00
 (foto: Rogério Reis/Tyba)
(foto: Rogério Reis/Tyba)







Mineiro de Itabira do Mato Dentro, Carlos Drummond de Andrade era um escritor habilidoso ao lidar com o cotidiano, transformando o ordinário em uma matéria extraordinária. Transitava pela escrita sem receios, marcando a produção literária brasileira. Nascido exatamente há 114 anos, o poeta, contista e cronista genial é considerado um dos principais poetas da segunda geração do Modernismo brasileiro. Em sua homenagem, escritores de Brasília se reúnem para o Dia D ; vida e verso de Carlos Drummond de Andrade, no Sebinho, evento que cria tradição no calendário cultural da cidade. A data celebra a visão inquietante, a leveza e o vigor da obra de um dos grandes modernistas e sua contribuição para o verso livre, irônico, social e político.

O professor e poeta Alexandre Pilati fará parte da homenagem ministrando uma oficina de escrita poética. O que lhe chama mais atenção na obra de Drummond é a maneira com que sua personalidade se encontra imersa nos problemas do mundo, colocando autor e realidade como parte de um mesmo impasse. ;Como professor de literatura, considero Drummond um modelo através do qual faço meus alunos refletirem sobre nossa literatura. Acho que ele ocupa na poesia o mesmo lugar que Machado de Assis ocupa na prosa brasileira;, afirma Pilati.

Drummond se comunica de maneira simples e amigável através de suas páginas, despertando admiração em escritores de gerações diversas. O principal sentimento despertado pela obra do escritor em Alexandre Pilati é a esperança, já que, de acordo com o professor, o autor expõe a vida em sua dimensão mais verdadeira e profunda. ;Das piores situações, sua poesia nos ensina a extrair a força para transformar a realidade e sentir por dentro a verdade da vida. Posso dizer que, para mim, a obra mais importante de Drummond é Sentimento do mundo, de 1940. Ela tem poemas belíssimos e intensos, cheios de lições de vida;, declara.

Marina Mara é uma das vozes mais conhecidas da poesia brasiliense e produz, desde 2010, o Declame para Drummond, projeto de circulação de poesia autoral, que neste ano aconteceu ontem. Para ela, o mineiro não era apenas poeta, e sim poesia. Sua postura sempre foi a de abrir espaços para novos autores, como Lygia Fagundes Telles e Cora Coralina. Marina lembra que esta mesma postura cidadã está presente em sua obra, como no livro A rosa do povo, que apresenta poemas escritos entre 1943 e 1945, nos quais o poeta que transforma angustia em engajamento social. A obra favorita é Fala, Amendoeira, que completa 70 anos em 2017. ;Conheci este livro por meio de um amigo, ele lia os trechos ao som de um velho vinil e minhas lágrimas trilhavam até o queixo de tanta emoção. Eu sentia que Drummond falava diretamente para mim.;

A poeta destaca o livro A rosa do povo como um dos mais importantes da obra de Drummond, por trazer uma mensagem atual por meio de um texto livre de rimas, métricas e de panos quentes acerca de temas polêmicos. ;Ele é imprescindível para o período sociopolítico obscuro pelo qual estamos passando. Leva ao leitor temas polêmicos como corrupção, poluição, entre outros aspectos tão urgentes em nossa sociedade;, afirma. Marina lembra que, neste ano, 163 poetas de todo o Brasil (sendo que, 64 deles são do DF) se inscreveram no projeto Declame para Drummond e tiveram poemas soltos em balões poéticos no encerramento da Bienal Brasil do livro e da leitura.

Importância

A poeta Cristiane Sobral conta que compartilhará no Dia D um pouco do livro de poemas eróticos do escritor, O amor natural, que lhe encanta pela maneira suave e direta da escrita. No livro, Drummond aborda a temática do amor com naturalidade, sensualidade e precisão. ;Falar importância da reflexão sobre os afetos na lavra poética de um escritor, no meu caso, é um tema que gosto muito de desenvolver. O autor vai ao erotismo sem esbarrar na pornografia, é uma intimidade saborosamente compartilhada, com precisão estética. Vale lembrar que sua obra não se perde no calor dos tempos atuais, pelo contrário;, destaca Sobral.

Outra figura conhecida da cena da cidade, João Bosco Bonfim, conta que Drummond lhe ensina um tanto sobre os modos de olhar, com poesia, para a vida. E para isso, não precisa de complexidade. ;Neste trecho de Toada do amor, do livro Alguma poesia, ele conclui o poema assim: ;Mariquita, dá cá o pito, / no teu pito está o infinito.; Nesses dois versos há um mundo a se explorar, que vai das especulações filosóficas às psicodélicas, passando pelas sensuais e eróticas. Uma beleza essa habilidade dele;.

Para o Dia, Bosco escolheu O marginal Clorindo Gato, com capa de Oscar Niemeyer e ilustrações de Darel, que lembram bem o contraste das xilogravuras dos cordéis nordestinos. É uma história narrada em versos, em quadras. No livro, o autor discorre sobre as nefastas glórias de assassino do personagem e de sua beatificação. ;Eu fiquei admirado, quando li: então, é possível fazer poesia a respeito de assuntos tão ordinários? E fazer a santificação de uma pessoa considerada marginal? Penso que essa foi uma de minhas fontes de inspiração para meu Romance do Vaqueiro Voador;. Bosco acredita que a poesia verdadeira vai da piada à dor mais profunda e Drummond faz isso.

; Dia D ; vida e verso de Carlos Drummond de Andrade
Hoje, às 19h, na Livraria Sebinho.

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