"Quem dá o tom da política é a Lava-Jato"

"Quem dá o tom da política é a Lava-Jato"

Pivô do mensalão afirma que a incerteza sobre quais políticos estão envolvidos na atual investigação da PF será a principal dificuldade de Temer, que, segundo ele, deve apresentar resultados econômicos a partir da aprovação do teto dos gastos

» Ana Dubeux » Denise Rothenburg » Leonardo Cavalcanti
postado em 04/12/2016 00:00
 (foto: Ed Alves/CB/D.A Press)
(foto: Ed Alves/CB/D.A Press)



Aos 63 anos, o presidente do PTB, Roberto Jefferson, não tem mais estômago para os convescotes políticos regados a uísque que fazem parte da cena de Brasília, onde se selam os acordos eleitorais, do tipo que ele fechou com o PT, em 2004, estopim do mensalão. Mais de 90% do órgão foi retirado na cirurgia que fez em 2015, depois do diagnóstico de um câncer que levou também parte do pâncreas, do duodeno, do fígado, três metros de intestino delgado e boa parte do canal biliar. Foi assim, na condição de ;mutilado visceral;, que enfrentou um ano e meio de cadeia em Niterói (RJ), de onde saiu em maio de 2015. Foi a experiência mais ;pesada; que já teve. ;Você é visto como um cara rico;, diz ele, calculando como deve ser a vida dos presos da Lava-Jato em Curitiba, lugar muito frio para se tomar banho gelado.

Para quem precisa enfrentar dieta rigorosa desde 2012, o ex-deputado passou por maus bocados quando dividiu a cela com homicidas. Lá, na estratégia para sobreviver, dividia tudo o que a família levava. ;Partilhamos as coisas melhores que vêm na visita. O bom biscoito, o pó de café, tudo é partilhado. Tem que fazer isso, senão você está perdido;, diz ele. Desse período, recorda-se da postura dos evangélicos da Igreja Universal. ;Padre, só vi uma vez, na Páscoa.;

Hoje, mesmo pouco afeito aos convescotes que o levaram a 170kg ; seu peso nos tempos em que liderava a tropa de choque do ex-presidente Collor ;, não reduziu o apetite pela política. No cenário futuro, diz ele, o risco para o governo é a Lava-Jato. ;É o mais grave, quem vai atingir? Na área econômica, quando votar o teto de gastos, já vai se ver o desafogo.; Na tarde de quinta, na sede do PTB, em Brasília, Jefferson falou por duas horas com o Correio. A seguir, os principais trechos da entrevista:





Havia a expectativa de que, com a saída de Dilma, a economia melhorasse. Isso não ocorreu.
Ainda não. Vivemos uma efervescência política, fruto da crise econômica. Dilma saiu em função dessa crise que o PT gerou em 13 anos. O PT fez questão de desmontar os alicerces de políticas fiscal e econômica equilibradas e chegou a um impasse. A previsão para o ano que vem já é de recessão com 4% de PIB negativo. No meu escritório no Rio, onde fico segunda e terça, devo ter 200 currículos de desempregados. Tomo um susto como boas pessoas, assentadas, classe média, não têm lugar para trabalhar.

O PT está começando a ensaiar o discurso de que o sistema, para tirar a Dilma, agravou a crise.
O PT se desmoralizou. É mais uma mentira. O PT hoje vive de mentira, não tem jeito, foi apanhado com a mão na cumbuca.

O senhor não vê recuperação do PT nem para 2018?

Não vejo, não, nem com o Lula. Ele vai amargar a maior frustração da vida dele, que é ser derrotado em uma eleição para presidente.

Mas ele vai disputar?
Sim, o Moro não prende ele.

Mas deveria?
Já está na hora, para fechar com chave de ouro a Lava-Jato. O chefe da estrutura toda não vai ser preso? Todo mundo estava na operação Lava-Jato, construída no governo Lula, no governo Dilma, com ele presidente do Brasil. As testemunhas dizem que ele que arquitetava, e ele está solto?

E por que ainda não foi preso?
Tem que perguntar isso ao Moro. Ele imprimiu um ritmo virulento às iniciativas que tomou, às prisões que fez, às sentenças que prolatou e ainda não chegou no chefe. Não sei o que é, não quero dizer, mas ele e os procuradores da Lava-Jato não chegaram ao chefe, estão prendendo agentes do crime, membros da quadrilha da Lava-Jato, mas não prenderam o chefe da quadrilha. Por quê?

Algum partido escapa?
Claro que escapa. Vi uma lista que está rodando aí, tem partidos que escapam. O PTB não está na Lava-Jato, o meu partido não está porque não deixei entrar.

Mas Gim Argello está preso. Como define a participação dele?

A sua pergunta define minha resposta. A participação é dele, foi ele. Não sei o que ele fez. Não sou juiz, não quero julgá-lo. Como companheiro de partido, como ser humano, nota mil, homem com H e amigo com A. O filho dele esteve aqui comigo e eu tive uma conversa com ele: ;Seu pai está nesse problema por ações pessoais dele, eu pediria que ele não levasse o PTB nisso;. Imediatamente ele saiu.

Forçou a saída de Gim do PTB?

Chamei o filho dele aqui e ele não se ofendeu, tive muito cuidado ao falar. E ele respondeu: ;Eu vou falar com o papai;. Foi e trouxe a carta do Gim. Sou grato ao Gim pelo gesto, torço para que corra tudo bem.

Chegou a falar com ele?

Não.

Não notou os movimentos de Gim?
O Senado é outra Casa, são semideuses. Na Câmara você sabe o que está acontecendo, no Senado, não sabe, cada senador é uma instituição. A Câmara é mais fácil, são vários, aí você vê, dá crise, vem um grupo e diz: ;Fulano está fazendo isso;. Tem mais informação. No Senado, não.

E por que deixou o PTB entrar no mensalão?
Não deixei entrar, fiz um acordo eleitoral com o PT. Mensalão, minha bancada não recebeu, não deixei, foi a minha briga dentro daquela estrutura da Câmara.

Por que foi cassado e acabou preso, então?
O STF entendeu que aqueles recursos que eu recebi, R$ 4 milhões do acordo de R$ 20 milhões, de financiamento do PTB nas eleições de 2004, eram fruto de repasse de corrupção e que eu teria, como presidente do PTB, de ter o domínio do fato de saber que eram recursos de corrupção.

O senhor não sabia?

É claro que não. A gente sabe que houve caixa dois, àquela época não era crime, agora está sendo criminalizado.
Mas era crime eleitoral. Sim, você andava sempre à margem porque as pessoas não davam por dentro, davam por fora. Sempre disse isso, 90% era por fora e 10%, por dentro, para legalizar a campanha. Fizemos um acordo de repasse do PT para o PTB, porque só os grandes partidos têm recursos, os médios e pequenos não têm. Recebi aquele dinheiro, eu e o grupo do PTB que estava comigo, para as eleições de 2004. O STF entendeu, o ministro Joaquim Barbosa, que era crime, porque eu teria que, pelo domínio do fato, entender que aquele dinheiro era fruto de corrupção. Recebi a sentença, cumpri a minha parte, paguei meu preço. Está tudo certo, pronto para outra.

O senhor parecia resignado.

E estou resignado, passou. Se perguntar se eu faria, hoje, qualquer acordo com o PT, não faria.

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