Trump com a bola

Trump com a bola

Enquanto Cuba vira uma página da história, o presidente eleito dos EUArevê um capítulo recém-aberto por Barack Obama. A reaproximação com a ilha, iniciada há dois anos, corre riscos com o republicano na Casa Branca

» GABRIELA FREIRE VALENTE
postado em 04/12/2016 00:00
 (foto: Yamil Lage/AFP)
(foto: Yamil Lage/AFP)



Foi com anúncios quase simultâneos que Raúl Castro e Barack Obama revelaram ao mundo que iniciariam o processo para restaurar os laços diplomáticos entre Estados Unidos e Cuba, após mais de meio século de relações congeladas. Pouco menos de dois anos após o histórico comunicado, a eleição de Donald Trump para a Casa Branca e a morte de Fidel Castro, no intervalo de duas semanas, levantam dúvidas sobre o futuro do processo de reaproximação. Enquanto os cubanos assimilavam a ausência do homem que instalou o regime socialista no país e enfrentou o que tachava de ;imperialismo; americano, o escolhido para suceder Obama a partir de 20 de janeiro reiterou a disposição de pressionar Havana por mais liberdades para o povo cubano, sob a ameaça de ;revogar o acordo;. A decisão de seguir adiante com o plano de endurecimento, porém, esbarra em interesses dos próprios americanos.

Aplaudido pela comunidade internacional e apoiado não somente pelos aliados de Obama, mas por 73% dos americanos ; segundo sondagem realizada em julho de 2015 pelo Pew Research Center ;, o reatamento com Cuba é tema prioritário na agenda externa de Washington. Mesmo que Trump escolha revogar todas as ordens executivas com que o antecessor aliviou o embargo econômico, ou mesmo decida fechar a embaixada em Havana, não será fácil para ele esquivar-se do lobby de um grupo significativo de empresários interessados em fazer negócios com a ilha.

Desde que os dois países reabriram as respectivas representações diplomáticas, no ano passado, diversas delegações de empresários e emissários de governos estaduais e municipais dos EUA visitaram a ilha. O desafio de Trump será atender às expectativas desse setor sem ser acusado de traição pelos cubano-americanos que o ajudaram a superar Hillary Clinton na Flórida, estado decisivo para a vitória do início de novembro.

SOBERANIA

Para Sarah Stephens, diretora executiva da organização Democracy in Americas, o presidente eleito tem a opção de encorajar as mudanças econômicas que já estão em curso em Cuba. Ela alerta, porém, que a movimentação do republicano contra o governo de Raúl Castro pode provocar a interrupção dos progressos feitos nesses quase dois anos de reaproximação. ;A prioridade do governo cubano, no momento, é atualizar o modelo econômico e organizar as relações externas, de modo a sustentar sua revolução ao longo do século 21;, recorda. ;Havana reagirá a qualquer coisa que venha de Washington e da Casa Branca baseada na proteção de sua soberania e na realização desses objetivos;, avalia.

Stephens acredita que possam ocorrer contratempos nas tratativas com Cuba, em meio à transição de poder nos EUA, mas espera que Trump se disponha a dialogar com Havana, antes de promover mudanças bruscas na diplomacia americana. ;Gostaria de vê-lo resistir à tentação de fazer a política de costume com Cuba e afirmar seus interesses antigos;, sugere, em referência ao fato de o sucessor de Obama já ter estudado, como empresário, o projeto de abrir um hotel na ilha.

Rene De La Pedraja, cubano radicado nos EUA e professor do Departamento de História da Canisius College, no estado de Nova York, ressalta que a política de Trump eleito para a relação com Cuba ainda não está definida, mas acredita que Havana pode aceitar atender a demandas feitas sobre comércio, investimentos, restrições de viagens e terrorismo. ;Mas Cuba rejeitará completamente qualquer imposição de mudanças em sua situação política interna;, reitera.

NACIONALISMO
O estudioso pondera que a restauração das sanções e regulações americanas vigentes no período pré-Obama seria ruim para os cubanos, mas interessante para o regime castrista. ;Diante de novas hostilidades, mesmo um governo pós-Raul terá de adotar a linha-dura;, observa. ;O nacionalismo cubano sempre foi uma poderosa força para reunir apoio em torno do governo, e os novos líderes não serão bobos de não explorar isso ao máximo.;

Mesmo com a morte de Fidel, De La Pedraja e Stephens acreditam que as mudanças econômicas e políticas na ilha não devem ser imediatamente aceleradas. ;Há uma grande expressão de orgulho, por parte dos cubanos, com as conquistas da revolução. E uma verdadeira demonstração de que eles estão prontos para apoiar as reformas que estão em curso há mais de uma década;, observa a diretora da Democracy in Americas.

O professor de Nova York recorda que Raúl introduziu as reformas e substituiu homens leais a Fidel em posições de poder, mesmo sem o apoio integral do irmão mais velho. Com o fim de seu mandato, em 2018, o historiador acredita que mais mudanças podem ocorrer, mas de forma moderada. ;O povo de Cuba não parece querer retornar ao modelo de governo latino-americano. Prefere manter seu sistema único.;


; Falcão no Pentágono
Depois de ter escolhido representantes da linha-dura republicana para postos chave de seu governo ; a direção da CIA e o Conselho de Segurança Nacional ;, Donald Trump terminou a semana com um novo sinal de que poderá abordar a política externa por um viés oposto ao de Barack Obama, baseado na combinação de poder militar e multilateralismo diplomático. O general reformado James Mattis, que comandou os fuzileiros navais (os ;marines;), aceitou o convite do presidente eleito para assumir o Departamento de Defesa. Chamado de ;cachorro louco; e ;monge da guerra;, Mattis vê com desconfiança iniciativas como o acordo nuclear com o Irã.

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