Paulo Pestana

Paulo Pestana

por Paulo Pestana >> papestana@uol.com.br

postado em 04/12/2016 00:00



Tempos bárbaros
Todos o conheciam. E mais: todos queriam saber o que ele pensava sobre tudo; era requisitado para falar sobre qualquer assunto e tinha sempre algo a dizer, ampliava a relevância das questões e decidia em nome do senso comum, agindo como uma consciência superior. Mas a queda é inexorável. Foi abandonado e, pior, desprezado. Ninguém mais quer saber do ;Formador de Opinião;.

O Formador de Opinião era uma entidade. Estava acima do bem e do mal, definia os temas mais complexos em entrevistas reveladoras que eram repetidas à exaustão, guiava corações e mentes, dominava o pensamento comum como um pastor conduz suas ovelhas. Era relevante; responsável por colocar o açaimo na boca da gentalha.

Sua palavra era aguardada como pronunciamento do Oráculo, que revela as verdades mais recônditas, pondo ordem na anomia coletiva. Hoje o Formador de Opinião anda apalermado, ainda sem entender porque a turba não quer mais saber de sua baliza para os destinos do mundo. ;Onde foi que eu errei?;, pergunta-se, sem resposta.

O Formador de Opinião sobreviveu enquanto a transmissão de informação foi organizada. Tudo começou com os pergaminhos egípcios, as tábuas orientais e os bardos da idade média. Vieram os tipos móveis de Gutemberg, o rádio e a tevê. Eram esses os meios de circulação da informação, até que as chamadas redes sociais tomaram conta do mundo, deram voz a todos, igualaram os desiguais e começaram o processo de destruição da sociedade.

Hoje, um idiota tem o mesmo volume de um intelectual e talvez por isso a gente veja tanto intelectual tirando onda de idiota, como no recente episódio que envolveu Chico Buarque e a TV Cultura. O compositor vetou o uso de sua música Roda viva na abertura do programa homônimo depois de uma entrevista do presidente Temer. ;A gente quer ter voz ativa, no nosso destino mandar;, diz a letra da canção, que pode virar hino dessa geração auto-suficiente.

Os idiotas falaram alto quando a Inglaterra voltou a ser uma ilha, quando Trump ganhou a eleição, quando a direita avança na França ; aliás, se Marine Le Penn for eleita, será que Chico Buarque vai abandonar seu apartamento parisiense? Ou a indignação dele só vale para o Brasil?

Nos Estados Unidos, na Inglaterra e na França a imprensa e o Formador de Opinião foram largados à deriva diante da corrente formada pela nova massa-com-voz e que decide suas opiniões com bases em meias verdades, mentiras inteiras e boatos que agora ganham status, como pós-verdades.

Antes a dispersão dessas multidões era feita na base do cassetete, da água fedorenta e do spray de pimenta; agora não há muito o que fazer, é preciso aturar. Os líderes mundiais ; imprensa inclusive ; estão pagando pela educação deficiente oferecida ao povo e que, até então, protegia as elites dos penetras.

O Formador de Opinião não existe mais. É apenas a lembrança de um mundo que buscou ser mais consciente, mas que fracassou exatamente ao tentar ser superior, quando deveria ser mais homogêneo. Voltamos aos tempos bárbaros; as espadas são twits e posts.

;Hoje, um idiota tem o mesmo volume de um intelectual e talvez por isso a gente veja tanto intelectual tirando onda de idiota;


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