Terremotos

Terremotos

Tremores de terra são constantes em regiões a cerca de 300 km de Brasília. Nos últimos 16 anos, foram quatro episódios. Moradores da cidade ainda se lembram, especialmente, do susto que passaram em 2000 e em 2010

» ISA STACCIARINI
postado em 11/12/2016 00:00
 (foto: Helio Montferre/Esp. CB/D.A Press)
(foto: Helio Montferre/Esp. CB/D.A Press)



Nos últimos 16 anos, a terra tremeu em Brasília por quatro vezes. O abalo mais forte foi registrado em 2000, em São Sebastião, e continua a ser um enigma para pesquisadores do Observatório Sismológico da Universidade de Brasília (UnB). O terremoto teve magnitude de 3,7, o suficiente para objetos se moverem e os moradores sentirem o abalo. Não se sabe, até hoje, por que a onda aconteceu uma única vez, sem outras manifestações em seguida.

Esse episódio instiga os pesquisadores porque, segundo o professor do Observatório Sismológico da UnB George Sand França, não houve registro de abalos posteriores. Ele explica que em terremotos sempre há sequências de outros tremores, e é assim que os estudiosos conseguem identificar com mais facilidade o que provocou a ocorrência. ;A falta desses outros abalos fez com que alguns pesquisadores suspeitassem de colapsos de cavernas, mas a hipótese não foi confirmada. Até o presente momento, uma possibilidade poderia ser uma pequena movimentação de falha e fratura, mas igualmente sem confirmação. É preciso estudar mais, até porque é necessário que aconteça o tremor ou terremoto para que se possa investigar;, destacou o especialista.

Outro registro marcante sentido por moradores da capital foi o evento de 8 de outubro de 2010. O tremor aconteceu em Mara Rosa (GO), divisa entre Goiás e Tocantins, a cerca de 300km de Brasília, mas teve impacto em vários prédios públicos da capital, inclusive com atuação do Corpo de Bombeiros e de equipes da Defesa Civil. Essa foi a última vez que a população do DF percebeu o tremor. Antes disso, quatro outros registros de abalos de terra por aqui (veja mapa). Isso porque a energia liberada nas outras vezes não foi suficiente para pudesse ser notada. George exemplificou que um terremoto de magnitude 4 para 5 libera 32 vezes mais energia, e talvez nos demais episódios não tenha sido gerada energia suficiente.

O servidor público da Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT) Augusto Pinto da Silveira, 59 anos, estava no prédio na hora do tremor que começou em Goiás e viu copos de água balançarem sobre a mesa. Apesar de ter durado poucos segundos, ele contou que a sensação o assustou. ;Não chegou nem a um minuto, mas, de certa forma, foi um abalo forte. Deu para sentir que se tratava de um tremor. As pessoas desceram do prédio e ficamos lá embaixo, querendo saber o que tinha acontecido: se poderia ter sido um acidente próximo, que causou um impacto, ou se tinha ocorrido alguma dilatação da estrutura do prédio;, suspeitaram.

No entanto, a possibilidade de terremoto não foi sequer levantada por Augusto, que ficou surpreso com a notícia. ;Fiquei surpreendido, porque não se imagina que no Brasil tenha esse tipo de caso. Em outros países acontece, mas nunca esperamos na nossa casa. Acaba sendo uma história para contar. Várias pessoas do meu convívio naquele espaço sentiram o tremor e sempre nos lembramos do que aconteceu nas conversas que temos;, recordou.

Terremotos próximos

A 300km da região oeste do Distrito Federal, os registros de tremores são constantes. O mapa dos pesquisadores da UnB (veja mapa) mostra a quantidade de abalos. O professor explicou que as ocorrências são mais registradas nessa localidade em razão de três fatores: ;A crosta terrestre é mais fina; a proximidade com o lineamento transbrasiliano (uma das estruturas da plataforma Sul-Americana que se estende por todo território brasileiro por cerca de 2,7 mil km), e por estar perto da zona conhecida como faixa sísmica Goiás-Tocantins (que tem aproximadamente 700km de extensão e 200km de largura);, esclareceu George Sand.

Para se ter uma ideia, o terremoto de Mara Rosa (GO) teve magnitude 5, com capacidade de rachar paredes de casas. Segundo o pesquisador, moradores do DF sentiram o impacto em razão da energia liberada. Além disso, a falha do lineamento transbrasiliano, uma espécie de rachadura, pode ter correlação com os tremores que ocorrem na faixa sísmica Goiás-Tocantins (Veja insert) e são sentidos no DF, como foi o caso em 2010. ;Esse foi o maior evento que aconteceu nessa faixa. Nunca antes havia tido um histórico nessa magnitude. Naquele episódio, quem mais sentiu o tremor foram as pessoas que estavam em edifícios. Quanto mais alto o andar, mais fácil de ter a sensação;, acrescentou.

É o caso do servidor público do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) Daniel Adjafre, 36 anos. Ele estava trabalhando quando sentiu o abalo daquele dia. Na época, o TSE ficava na Praça dos Tribunais e, segundo ele, a sensação foi uma espécie de tontura. ;Senti como se tivesse sido uma onda. Primeiro achei que fosse uma sensação pessoal, mas algumas pessoas começaram a ficar nervosas, até alguém dizer que foi um terremoto e todo mundo começou a descer sem saber o que estava acontecendo direito;, relembrou.

Daniel contou que os servidores receberam orientação para encerrarem o expediente, porque uma equipe de engenharia faria uma vistoria no prédio. Ele se lembra que demorou a acreditar que o tremor era por causa de um reflexo de terremoto. ;Fiquei meio incrédulo. No momento, nem me assustei porque, desde que me entendo por gente, o Brasil, em tese, não é afetado por esse tipo de fenômeno.;, destacou.

Se em Brasília a sensação foi suficiente para causar apreensão em moradores do DF, em Mara Rosa a população entrou em pânico, já que a energia liberada no epicentro é muito maior. Quando o tremor é sentido em outras cidades, o abalo chega com um menor impacto. Mas é possível, por exemplo, terremotos que acontecem na Bolívia, Argentina e Chile serem sentidos por moradores do Brasil, como em São Paulo.

Na humildade e no jeito simples de explicar o que sentiu, o vendedor Valder Fernandes, 43 anos, contou que o tremor era como se estivesse sentado em um touro mecânico. ;Foi como se tivesse saído um dinossauro de baixo da terra. Todo mundo ficou abismado e saiu correndo para fora. Aqui no trabalho, não vi nada mexendo, mas em vários lugares a parede rachou e bebidas caíram dos bares. A gente só vê pela televisão e nunca imagina uma coisa dessas. Na hora não dá para pensar em nada e fiquei impressionado por ser um terremoto;, lembrou.

O encarregado de escritório Roseimar Oliveira Barbosa, 43 anos, é nascido e criado em Mara Rosa. Ele se lembra que no dia do terremoto estava no trabalho quando sentiu a sensação de tremor. ;Parecia que estava tudo balançando, como se fosse uma espécie de trovão dentro da terra. Nunca tinha visto nada parecido. Foi assustador. Senti vibração na janela e dava para perceber a terra tremer. De lá para cá, sempre que passa algum veículo pesado na rua e balança, como um caminhão, a gente sempre assusta e corre para saber o que está acontecendo;, contou.

Para saber mais
; O abalo mais forte sentido no Brasil aconteceu em 1995, na cidade de Porto dos Ga&

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