Crônica da Cidade

Crônica da Cidade

por Severino Francisco >> severinofrancisco.df@dabr.com.br
postado em 21/02/2017 00:00
Os fracassos de Darcy

Na passagem dos 20 anos sem Darcy Ribeiro, eu me lembrei de várias histórias lidas ou ouvidas. Na infância, Darcy era um moleque endiabrado. Certo dia, subiu até o reservatório que abastecia a sua cidade, Montes Claros, em Minas Gerais, e colocou anilina na água. No dia seguinte, as beatas da cidadezinha ficaram aterradas, interpretando a água azul que esguichava das torneiras como um sinal do apocalipse. Mas também revelava compaixão. Roubava rapadura da despensa da casa para doar aos retirantes esfomeados durante os períodos de seca na região.

Darcy foi um péssimo aluno do curso de medicina. Só se interessava pelos cursos de filosofia e por literatura. Tomou bomba três anos seguidos no curso de medicina da Universidade de Minas Gerais, na qual ingressou para agradar a mãe: ;A Faculdade de Medicina não me interessava, o que me interessava estava fora da Faculdade. Em razão do fracasso, pensou em se suicidar e comunicou a um colega, um poeta jovem e pretensioso, que lhe dissuadiu com um insólito argumento: ;Se suicidar é para gênios, você é um merda;.

O poeta pretensioso se suicidou e Darcy se tornou um antropólogo, um educador, um escritor, um político e um intelectual público brilhante. Enveredou pela filosofia, devorou encantado os livros de Sócrates e Platão. E dizia: ;Pô, em Montes Claros não tem ninguém como esse Sócrates, nem em Belo Horizonte. Então eu comecei a procurar homens sábios;.

Darcy não nos ensinou somente com os livros, mas também com a vida, com as intuições, os lampejos e as velocidades do instinto. Zuenir Ventura escreveu que Darcy humilhou o câncer. Em estado terminal, Darcy livrou-se dos tubos do hospital, fugiu para a casa que tinha em Maricá e escreveu O povo brasileiro, sua obra-prima.

Quando ganhou o título de Doutor Honoris Causa da prestigiosa universidade Sorbonne, na França, num acesso de falsa modéstia, afirmou que os únicos orgulhos de sua vida eram seus fracassos ; fracassou em salvar os índios, em escolarizar as crianças brasileiras, em realizar a reforma agrária e em transformar a Universidade de Brasília em sede da consciência crítica brasileira. Mas era uma brincadeira de Darcy. Ele fechou dizendo que tinha orgulho dos seus revezes. Os fracassos de Darcy são os fracassos do Brasil.

E os homens públicos atuais? A maioria de nossos homens públicos não têm nenhum sentimento público. Eles se consideram os vencedores. Todavia, são a própria encarnação da mediocridade. Jactam-se de ter contas em off-shore na Suíça, de comprar ternos Armani em Paris, de amealhar joias milionárias, de ter foro privilegiado, de roubar e de criar leis para lavar os seus roubos.

Não sou nostálgico. Já tivemos escolas que formaram gente com a grandeza humana de Darcy Ribeiro, de Vinicius de Moraes, de Ariano Suassuna, de Glauber Rocha, de Caetano Veloso, de Gilberto Freyre, entre outros. Mas, com certeza, isso não acontecerá com ;a escola sem partidos;. É a fórmula da mediocridade pedagógica.

Só se fazem sábioscom a instrução de sábios, nos ensinou Darcy. Tom Zé escreveu uma canção que parece uma homenagem direta ao espírito visionário de Darcy Ribeiro, ligado, simultaneamente, em ancestralidades e em futurismos: ;Que somente os dementes, os loucos/Os corações, os quixotes, os palhaços/Podem vencer os dragões aliados/aos caminhões e aos supermercados;.




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