Entrevista / Mart'nália

Entrevista / Mart'nália

postado em 27/02/2017 00:00
 (foto: Marta Azevedo/Divulgacao)
(foto: Marta Azevedo/Divulgacao)


O disco anterior, gravado ao vivo nos Espaço Cultural João Nogueira, foi dedicado ao samba, a gênese do seu trabalho. Em + Misturado, o CD recém-lançado, embora tenha samba, você explora outros estilos musicais. O que a levou a isso?
Cumpri uma longa temporada com o Em samba, show que deu origem ao CD e DVD, lançado em 2015. No fim, já estava querendo fazer alguma coisa diferente e comecei fazer um outro show, o Mart;nália Misturado. Quando decidi gravar o novo disco utilizei o mesmo nome até porque a proposta era a da diversidade de canções e de estilos.

Para o álbum, além do nome, você levou músicas que cantava no Mart;nália Misturado?
O repertório é outro. Como sempre faço, para construir o repertório saí pedindo músicas para vários amigos compositores. Alguns me enviaram inéditas, outros, não, por razões diversas. Mas como são artistas pelos quais tenho admiração e amizade, como Caetano (Veloso), (Gilberto) Gil, Dija (Djavan), fui lá na obra deles e escolhi canções que tinham a ver com o que queria para o Misturado.

Entre nomes consagrados da MPB, há dois que você gravou pela primeira vez, Lupicínio
Rodrigues e Geraldo Azevedo. Por que da escolha?

Há muito tempo Geraldinho me prometeu uma música. A gente se via em shows, em festas, o assunto voltava, mas a música não aparecia. Aí, voltamos a nos encontrar num festival em Angola e ele me disse que tinha composto uma canção com o Capinan para mim. Já aqui no Rio chegou a mim Se você disser adeus, que gravamos juntos. A responsável pela inclusão de Ela disse-me assim e Loucura, do Lupicínio foi Maria Bethânia, que queria ouvir de mim uma interpretação séria. Como não atender um pedido de Bethânia. Acho que é porque estou sempre sorrindo, com essa boca cheia de dentes...

Tempo de estio, canção setentista de Caetano Veloso; e Estrela, de Gilberto Gil, são outras
regravações. O que a fez as incluir no repertório?

Certa vez, o Gil colocou sua obra à minha disposição para que eu escolhesse músicas para gravar. Sempre gostei de ouvir Estrela na voz dele e a quis no disco com a minha interpretação. Conheço Tempo de estio desde a infância. É uma canção em que Caetano fala de um Rio cheio de alegria, com a cara do verão. Ele fez para o Marcelo, que era um adolescente meio bofe, meio viado, que fez muito sucesso ao gravá-la. Lembro dele, cantando esta música no programa do Chacrinha. Na letra, Caetano fala de várias meninas que eram amigas dele. Na minha versão inclui nomes das minhas meninas.

Martinho da Vila sempre quer ouví-la cantar composições dele?
Não há essa preocupação. Ele costuma compor alguma coisa para eu gravar, mas se essa ou aquela música não entra no disco, compreende. No Misturado gravamos juntos Ninguém conhece ninguém, um samba com a marca registrada do paizão, que também gosta de misturas.

Antes de gravá-la, você sabia que em Linha do Equador Caetano e Djavan fazem uma ode a Brasília?
Prestei mais atenção na letra quando fui gravar essa parceria dos dois. Percebi que, na citação de Traço do arquiteto, implicitamente há uma referência a Oscar Niemeyer. Mas me chamou a atenção também a referência ao céu de Brasília e à música de preto.

Você é amiga do compositor congolês Lokua Kanza?
Conheço o trabalho dele já há algum tempo. Sou fã do Lokua e quis gravar uma música dele. Como ele estava no Rio, quando da gravação do disco, o chamei para interpretar Si tu pars comigo.

Mombaça tem sido eu parceiro mais frequente. Nesse trabalho, além dele, com quem compôs Tomara, você fez Libertar com
Zélia Duncan, Arthur Maia e Ronaldo Barcellos; e Vem cá, vem cá com o veterano Zé Katimba. Mais misturas?
Mombaça é parceiro de música e de copo. É o cara com quem mais me entendo musicalmente. Ele vai lá pra casa, fica escornado, mas sempre criamos alguma coisa. Zedu (Zélia Duncan) é uma velha amiga e parceira. Com Arthur e Ronaldo estou junta e misturada na produção desse disco. Já Zé Katimba é o mestre do samba-enredo, por quem tenho muito respeito.

Entre as novidades desse projeto estão as composições de Tereza Cristina e Mosquito (Ouvi dizer), Zé Ricardo (Eu te quero agora), Tom Karabichian (Melhor para você) e Rodrigo Lampreia (Sem dó). Por que você quis gravá-los?
Teresa Cristina é uma grade sambista; Mosquito e Rodrigo são talentos da nova geração do samba. Eu me aproximei do Zé Ricardo ao participar do Rock in Rio, do qual ele é um dos diretores. O Zé é um excelente baladista, de quem me tornei amiga. O Moska, um dos meus melhores amigos, sempre está presente em meus discos. Como desta vez ele não me mandou nada, gravei uma música do Tonton, filho dele, que conheço desde que nasceu.

Tanto na televisão, interpretando Tamanco, o sapatão da série Pé na cova, quanto no palco, em show, você tem a simpatia do público. Carisma é uma virtude que você cultiva?
Não penso nisso, não. Tenho o meu jeito esparramado e não sou de ficar me estressada com nada. Como tenho uma boca grande cheia de dentes e estou sempre sorrindo, acho que as pessoas acabam tendo simpatia por mim.

Como você lida com a intolerância nos dias atuais, principalmente em relação a homossexuais, negros e pessoas idosas?
O mundo está muito chato. O que não falta é gente creta e preconceituosa. Com gosto das misturas, como disse, vou vivendo do meu jeito. Na vida e na música deixo claro de que lado estou. Quem quiser que me aceite como sou.

Em Brasília, sua presença tem sido observada desde a época em que era backing vocal nos shows do seu pai. Qual é sua relação com a cidade e com os brasilienses?
Eu sempre gostei de Brasília. Aí moram alguns parentes, da parte da Ruça (Lícia Maria Caniné, mãe da cantora).

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