O fim do homem está próximo

O fim do homem está próximo

Novo livro de Joca Reiners Terron reflete um pouco do desencanto do autor com os tempos contemporâneos ao narrar a trajetória de um menino que perde a memória

Nahima Maciel
postado em 30/04/2017 00:00
 (foto: Renato Parada/Divulgação)
(foto: Renato Parada/Divulgação)

Joca Reiners Terron fez um reforço à entrevista enviada por e-mail. Mandou uma segunda versão, corrigida. ;Algumas respostas são radicais, mas refletem o que penso no momento;, avisou, ao pedir atenção para o segundo e-mail. Defensor do antinatalismo e do Movimento Voluntário pela Extinção Humana, ele acredita que a humanidade já passou do ponto da perdição. Agora precisa sumir do planeta. ;A única saída para o futuro da vida neste planeta é a desaparição do homem;, diz.

Noite dentro da noite, o novo romance de Terron, reflete bem esse estado de desânimo. Um menino de 12 anos sofre um acidente na escola, entra em coma e acorda sem memória. Passa, então, a acreditar em uma narrativa particular: os que dizem ser seus pais são, na verdade, sequestradores e algozes. O menino é arrastado pelo interior do Mato Grosso e tem a vida contada por um tradutor alemão, Curt Meyer-Clason, personagem real, conhecido por ter traduzido autores como Machado de Assis e Guimarães Rosa. São tempos de ditadura, de tensão, de guerrilha e de incertezas.

Meyer-Clason se refere ao menino como ;você;, mas esse tratamento, Terron explica, é dirigido a todos os leitores. ;Esse protagonista do livro tratado apenas por ;você; está vazio de existência, pois não se lembra dela. Então recorre a outras pessoas, que a contam para ele. Além disso, é mudo. Como mudo, não poderia narrar a própria história. Aos personagens mudos está vetada a primeira pessoa;, repara o autor, que sofreu um acidente semelhante na infância e perdeu a memória. ;;Você; não sou eu, e sim todo mundo, já que os temas tratados no livro ; abandono, dúvida, inadequação ; pertencem a todos nós.;;

;Você; somos todos nós que nos debruçamos sobre Noite dentro da noite, romance que perpassa boa parte da história recente do Brasil. E os personagens reais ; há mais deles, como o tio do autor, Karl Reiners, que não fez guerrilha no Araguaia, como o do romance, mas sofreu perseguição por acreditar na educação para todos, pobres e ricos ; ajudam a ancorar a narrativa numa possível reflexão sobre o que é o real. ;Ao serem transportados para a ficção, mesmo os personagens reais passam a ser inventados. A imaginação precisa se apoiar no real para surpreender;, afirma Terron.

O livro é permeado de memórias do próprio autor, nascido em Cuiabá, em 1968, mais de duas décadas depois da Segunda Guerra e quatro anos depois do Golpe Militar. Lembra bem da doutrinação na escola, das sessões de canto do Hino Nacional banhadas de nacionalismo. Essa memória está no romance, assim como muitas outras, uma característica da obra de Terron, um detalhe que dá unidade a este e aos cinco romances anteriores. ;A memória é tão instável quanto o lugar do escritor na sociedade. A ficção é uma ferramenta para explorar a memória e imaginação, e extrair alguma verdade dessa sequência de absurdos a que chamamos vida;, acredita. Em entrevista, Joca Reiners Terron fala sobre a construção do livro Noite dentro da noite, mas também fala sobre o Brasil, ditadura e literatura nacional.



Por que escolheu o tradutor como narrador? Hugo e Karl Reiners são realmente seus tios?
Nessas condições, ninguém mais adequado do que um tradutor que busque ;traduzir; ao protagonista fatos de um passado longínquo. Eu procurava o atestado de veracidade que existe nos relatos que são contados, um pouco ao modo de W.G. Sebald. Hugo, assim como Karl Reiners, é um personagem inspirado em um tio homônimo. Embora não sejam as mesmas pessoas, compartilham de fatos comuns em ambas vidas, real e inventada.



Como você definiria coerência nas tuas próprias obras, nos teus romances?
Se não existe coerência nenhuma na vida, por que deveria haver nos contos e romances? Aquela ideia de que no instante final de nossas vidas passará um filminho de trás para frente que atribua qualquer sentido à existência não passa de esperança, e como toda esperança, é infundada.



O Mato Grosso é muito presente no livro, especialmente na visão do menino e do narrador. O que é o Mato Grosso para você hoje?

O Mato Grosso meio que inexiste no imaginário nacional. E o meu Mato Grosso, o da fronteira com Paraguai, é ainda mais desconhecido. Literariamente, só aparece em Taunay, Manoel de Barros e no injustamente desconhecido Ricardo Guilherme Dicke. Minha geração tem procurado corrigir isso, através do trabalho de Douglas Diegues e Sérgio Medeiros, entre outros. Já o meu Mato Grosso é quase mitológico, só existe na imaginação. Tanto que inventei Curva de Rio Sujo, território que mistura Alto Araguaia, Bela Vista, Cuiabá e outros lugares onde vivi. É minha Santa Maria, região onde se passam as histórias de Onetti, e meu distrito de Yoknapatawpha, aquele do Faulkner. Foi preciso criar Curva de Rio Sujo para que essas cidades continuem sempre iguais à imagem delas que carrego na cabeça.



Falar do Brasil é uma coisa que te estimula? Quando Karl Reiners vai para a luta no Araguaia, deseja eliminar as diferenças sociais no Brasil. Isso ainda é possível?
A ideia de nacionalidade é a primeira a ser combatida, quando se trata de ampliar os limites do realismo. E o atual momento exige que os nacionalismos sejam combatidos, pois a realidade já não é possível de ser absorvida pelo realismo, esse delírio que nos afasta da realidade. Os desejos de Karl Reiners foram mal-sucedidos, e não compartilho da esperança dele. Creio que o livro é desesperado, refletindo minha profunda descrença e desilusão com o Brasil. Mas quem sabe esses sentimentos não gerem reações fortes? A rebelião sempre nasce da desesperança.



Você escreve: ;Foi em abril de 1964 que as esperanças terminaram, após o golpe militar e a consequente prisão dos resistentes;. Há esperanças hoje? Quais?
Minha esperança é a de que o povo se levante, que comecemos uma guerra civil e que nos autoexterminemos da face da Terra. Se a conflagração se estender pelo mundo todo, melhor.



De que forma trazer esse período da ditadura da história brasileira para a literatura pode gerar reflexões para o momento contemporâneo?
Sinceramente, creio que não existe mais nenhuma possibilidade de reflexão. Chegamos ao final, e espero apenas o verdugo puxar a cordinha do alçapão.



Você está contente com o Brasil de hoje? Com o momento sociopolítico que atravessamos?
Só os idiotas estão contentes com o Brasil atual. Os idiotas e os bandidos, ou seja, 95% da nação.



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