Guerra cega às drogas

Guerra cega às drogas

No primeiro ano de governo, o presidente das Filipinas, Rodrigo Duterte, ordenou a execução de pelo menos 7 mil usuários e traficantes de drogas. Apesar da política de assassinato sumário, popularidade do líder segue alta. Especialistas condenam abordagem violenta do tema

» RODRIGO CRAVEIRO
postado em 24/07/2017 00:00
 (foto: Noel Celis/AFP)
(foto: Noel Celis/AFP)




Filipinas. ;Hitler massacrou 3 milhões de judeus. Há 3 milhões de viciados em drogas. Eu ficaria feliz em massacrá-los;, declarou o presidente Rodrigo Duterte, 10 meses atrás. Em 30 de junho, ele completou um ano de governo com uma estatística macabra: 7 mil usuários e traficantes de drogas foram executados sumariamente. Quase sempre os assassinatos ocorrem na calada da noite. Após dispararem, homens mascarados colocam cartazes com a palavra ;Pusher; ; termo usado em alusão aos traficantes. Os familiares dos mortos são obrigados a pagar entre 15 mil e 20 mil pesos (de R$ 980 a R$ 1,6 mil) para que os corpos sejam recolhidos pelas autoridades. Duterte, um ex-advogado de 72 anos, conta com popularidade em 75%, apesar da guerra às drogas, classificada por organizações de direitos humanos de ;calamidade; e de ;crimes contra a humanidade;.

No México, perto de completar 11 anos, a ofensiva declarada pelo ex-presidente Felipe Calderón aos cartéis do narcotráfico surtiu quase nenhum efeito. Mais de 200 mil pessoas morreram, muitas delas decapitadas e esquartejadas, e 32 mil estão desaparecidas. Apesar da prisão de líderes do comércio das drogas, a violência segue em escalada. Há 12 dias, ONGs exigiram do Tribunal Penal Internacional, em Haia, a abertura de inquérito preliminar sobre o cenário de guerra no norte do país. Elas acusam as autoridades, com a ajuda do cartel de Los Zetas, de crimes contra a humanidade. Especialistas consultados pelo Correio colocaram em xeque a política de confrontação lançada pelos governos mexicano e filipino.

;Duterte desencadeou uma calamidade dos direitos humanos nas Filipinas em seu primeiro ano de governo. A assassina ;guerra às drogas;, a superlotação das cadeias por acusados de tráfico e a perseguição de críticos dessa estratégia provocaram um acentuado declínio no respeito aos direitos básicos, desde a posse do presidente, em 30 de junho de 2016;, afirmou Phelim Kine, vice-diretor da Human Rights Watch (HRW) para a Ásia. Segundo ele, as forças de segurança e homens não identificados ; os ;vigilantes; ; mataram 7 mil supostos usuários e traficantes desde 1; de julho do ano passado, incluindo 3.116 execuções pela polícia. ;Apesar de ter prometido proteger os direitos humanos, Duterte gastou o primeiro ano no poder como instigador de uma campanha de assassinatos ilegais. Nós entrevistamos testemunhas e familiares de vítimas e analisamos os registros policiais. Isso expôs um modelo de conduta ilegal da Polícia Nacional das Filipinas, desenhada para pintar um verniz de legalidade sobre as execuções extrajudiciais, as quais sugerem crimes contra a humanidade;, comentou.

Sanho Tree, especialista do Projeto de Política de Drogas do Instituto para Estudos Políticos (em Washington), lembra que Duterte citou a existência de 4 milhões de usuários de entorpecentes. ;Ele disse que deseja matar todos, se preciso. É uma insanidade. O presidente não pode assassinar o caminho para uma sociedade saudável.; O analista admite que os assassinatos extrajudiciais representam uma política de Estado. ;Duterte disse às pessoas que as protegeria se eliminassem os criminosos ligados às drogas. Há relatos na mídia detalhando pagamentos da polícia a esquadrões da morte. As vítimas, sempre mais pobres, não puderam apelar das sentenças de morte sumárias.;

O americano Josh Gershman, professor de serviços públicos da Faculdade de Serviços Públicos Robert F. Wagner, em Nova York, e estudioso sobre política filipina, alerta que campanhas sangrentas contra o tráfico ; como nas Filipinas e no México ; não demonstram evidências de diminuição da demanda ou da oferta do produto. ;A melhor forma de abordar a questão das drogas é um modelo de redução de danos, que trata o vício e o uso como questões de saúde pública. Tal abordagem também reduz a procura pela droga;, observa.

México

Especialista em narcotráfico e professor do Colegio de la Frontera Norte (em Tijuana), o mexicano Vicente Sánchez Munguia adverte: ;A confrontação extrema não é a melhor política antidrogas;. De acordo com ele, o custo humano dessa abordagem no México foi muito alto. Munguia disse que as autoridades não conseguiram impactar o comércio de drogas e, apesar de terem desarticulado algumas organizações criminosas, outras surgiram, e a violência aumentou, assim como a extorsão, o sequestro e o controle mafioso de regiões. ;O crime, associado às drogas, se alimenta de setores sociais deprimidos e sem a atenção do Estado. Jovens nascidos na pobreza e com poucas oportunidades são recrutados pelo crime, ante a oferta de expectativas de acesso a bens que jamais teriam.; Por isso, em vez de execuções sumárias, ele afirma que a chave está na atenção aos jovens desses setores por parte de uma política governamental a longo prazo.

80%
Índice de popularidade do presidente filipino, Rodrigo Duterte, que prometeu assassinar todos os viciados e criminosos de drogas

7 mil

Número aproximado de usuários e traficantes de drogas executados pela polícia e pelos vigilantes; nas Filipinas

200 mil

Total de mortes provocadas pela guerra aos cartéis de narcotráfico do México desde 2006, quando Calderón assumiu o poder

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