Correção genética contra a infertilidade

Correção genética contra a infertilidade

Uso de células-tronco permite que ratos inférteis tenham filhotes sadios e com capacidade reprodutiva. Pesquisadores britânicos trabalham para que o procedimento possa ser usado em humanos

Vilhena Soares
postado em 18/08/2017 00:00



O uso de células-tronco tem sido cada vez mais estudado e explorado na medicina. Elas já são uma opção de tratamento para o transplante de medula e na recuperação de queimaduras, por exemplo. Também poderão ser a resposta para a infertilidade genética masculina, segundo cientistas britânicos. Eles fizeram com que as células retiradas de roedores inférteis se transformassem em esperma saudável, que deu origem a filhotes também sadios. Segundo os autores, o estudo abre caminho para o desenvolvimento de novos tratamentos de síndromes que prejudicam a capacidade reprodutiva de muitos homens.

Na determinação do sexo biológico, normalmente, as mulheres têm dois cromossomos X (XX) e os homens, um X e um Y (XY). Mas aproximadamente um a cada 500 homens nasce com um X ou Y extra (Leia Para saber mais). A presença adicional de um dos cromossomos (trissomia) pode interromper a formação do esperma. ;Ter o número correto de cromossomos é vital para o desenvolvimento e a saúde. A trissomia afeta cerca de 0,1% da população humana e está associada à infertilidade;, ressaltam os autores do trabalho, divulgado na edição desta semana da revista Science.

Os investigadores buscaram uma maneira de remover o cromossomo sexual extra. Inicialmente, retiraram pedaços de tecido da orelha de camundongos com trissomia (XXY e XYY) e os cultivaram em laboratório. Em seguida, coletaram fibroblastos (células do tecido conjuntivo) da amostra em cultivo no laboratório e os transformaram em células-tronco. Nesse processo, algumas células perderam o cromossomo sexual extra.

Por meio de substâncias químicas, os cientistas conseguiram ;orientar; as células-tronco a se tornar células com potencial de se transformar em esperma. Elas foram, então, injetadas nos testículos de um rato saudável e seguiram o esperado. Em uma última etapa, os cientistas colheram os espermatozoides maduros e utilizaram o material na técnica usual de reprodução assistida. O método mostrou-se eficiente: nasceram filhotes do roedor infértil saudáveis e com capacidade reprodutiva.

;Nossa abordagem nos permitiu criar descendentes de camundongos estéreis XXY e XYY. Seria interessante ver se a mesma abordagem poderia ser usada, um dia, como tratamento de fertilidade para homens com três cromossomos sexuais;, ressalta, em comunicado, Takayuki Hirota, um dos autores do estudo e pesquisador do Instituto Francis Crick, no Reino Unido.

Além do sucesso com os roedores, os pesquisadores realizaram um experimento preliminar em que descobriram que células-tronco produzidas a partir de fibroblastos de homens com a síndrome de Klinefelter também perderam o cromossomo sexual extra. No entanto, os investigadores destacam que muitas pesquisas são necessárias antes que essa abordagem possa ser usada em seres humanos.

Limitações
;Atualmente, não temos como fazer esperma fora do corpo. Nas nossas experiências com ratos, também tivemos que injetar as células com potencial para se tornar espermatozoides nos testículos a fim de ajudá-los a finalizar o seu desenvolvimento, mas descobrimos que isso causou tumores em alguns dos receptores das cobaias;, diz James Turner, autor principal do estudo e pesquisador do Instituto Francis Crick. ;Portanto, descobrir uma maneira de produzir esperma maduro em um tubo de ensaio é o obstáculo que precisa ser vencido antes mesmo de considerarmos o uso dessa técnica em humanos.;

Para Mauro Bibancos, urologista e especialista em andrologia e reprodução humana do Grupo Huntington, em São Paulo, a pesquisa mostra um tipo de abordagem que tem sido bastante explorada na área genética. ;Temos visto uma onda de estudos que priorizam a correção genética, o que é diferente de antigamente, quando só tínhamos o rastreamento. Essa é uma mudança que se mostra bastante benéfica, mas temos que esperar para ver se vai dar certo;, pondera.

No caso do uso dessa técnica em humanos, o mais importante, segundo o médico, é observar se a criança gerada por intermédio desse método nasceu saudável. ;Para fazer esses testes, também temos que lembrar que a questão ética vai surgir. Temos dificuldade de fazer pesquisas em embriões porque elas podem causar problemas maiores. Por isso, acredito que muito ainda precisa ser pesquisado.;

Segundo Bibancos, se chegar às clínicas, o método proposto pelos britânicos pode ter como principal vantagem o fato de ser uma opção de tratamento de um problema com possibilidades de intervenções restritas. ;O gene não pode ser mudado, é algo que já está ;escrito; no DNA, não temos medicamentos que revertam essa situação. Somente em uma das síndromes citadas no estudo, a de Klinefelter, existe uma esperança de se encontrar espermatozoides. Esse cenário faria dessa técnica uma possibilidade nova dentro dessa área;, contextualiza.



Para saber mais

Duas síndromes

A síndrome de Klinefelter ocorre como resultado de um erro genético aleatório após a concepção, onde é registrado um cromossomo X extra. Homens que nascem com esse problema podem ter baixos níveis de testosterona e massa muscular, pelos faciais e corporais reduzidos. A maioria dos portadores produz pouco ou nenhum esperma, tendo a reposição de testosterona como uma das opções de tratamento. Já a síndrome XYY, também conhecida como síndrome de Jacobs, caracteriza-se pela presença extra de um cromossomo Y. As chances de infertilidade, nesse caso, são menores, havendo menos chance de os descendentes sofrerem com a doença. Características de homens com essa síndrome incluem o crescimento acelerado na infância e estatura muito elevada.

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