Crônica da Cidade

Crônica da Cidade

por Mariana Niederauer >> mariananiederauer.df@dabr.com.br
postado em 02/10/2017 00:00
Cidade grande, casa de vó

Acordei num domingo e percebi que não havia aproveitado a beleza cotidiana que a seca de Brasília proporciona a seus habitantes. Não tirei selfies com os ipês-amarelos próximo à Torre de TV. Ignorei os exemplares brancos, que, por diversas vezes, se exibiram em meu caminho, como o que emoldura a Catedral. Um dos poucos que escaparam do desdém de meu olhar cruel foi o roxo plantado ao lado da Igrejinha Nossa Senhora de Fátima. O fogo dos flamboyants tampouco chamou a minha atenção o suficiente para que eu parasse e dedicasse alguns minutos de contemplação.

Quem me fez perceber o erro foi a minha avó. Nordestina, fincou raízes no Planalto Central quando a cidade era apenas barro. Hoje, o vínculo com esta terra não vem só dos cinco filhos, dos 13 netos e do primeiro bisneto que está chegando, mas também do que nasce mesmo do solo candango. Plantas que trouxe da terra natal ou que conheceu aqui. Ela, assim como a outra avó, criada no Rio Grande do Sul, tem destreza e sabedoria invejáveis ao cuidar dos pequenos brotos, ou das mudas imponentes. Se elas tivessem encontrado Francisco Ozanan, o jardineiro de Brasília, com certeza, teriam muitas ideias a trocar.

A minha avó me chamou até o portão da casa para admirar a beleza do ipê que perdia suas flores, espalhadas como um tapete cor-de-rosa sobre o gramado. Não era a primeira vez. Há alguns anos, recebi uma ligação. Era dona Carmen pedindo que viesse o mais rápido possível, com câmera fotográfica em mãos, para registrar a floração do ipê e a beleza das orquídeas que cresciam acopladas ao tronco de outra árvore.

E, até hoje, assim seguem os exemplares plantados pela casa: belos e bem cuidados. Só o pobre mandacaru, apesar de acostumado às agruras do sertão nordestino, não resistiu à seca brasiliense este ano. Pequeno e murcho, assemelha-se mais ao gramado marrom-acinzentado do que ao oásis de folhas frescas e verdes que estende a sombra do alpendre.

Esse passeio pelo jardim de minha avó acendeu o alerta. Acordei determinada a desbravar a cidade em busca da beleza tamanha que encontrei naquele cantinho. Desci o Monumental, cortei os eixos pelas tesourinhas, estacionei o carro em uma das quadras e caminhei até chegar ao Eixão. Eram poucos os exemplares floridos que haviam restado. Quase confundi um jacarandá com um ipê-roxo.

Mas que bela visão da integração total da cidade com seus moradores. Os pilotis abertos que chamam às brincadeiras de criança ou a um bate-papo no fim de tarde. A Brasília dos eixos, das tesourinhas, das agulhinhas, das quadras e das controvérsias de esquina tem charme de metrópole e gosto de café passado no coador de pano em casa de vó.

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