De punhos cerrados

De punhos cerrados

Em tom conciliador, Trump usa discurso sobre o Estado da União para apelar à coesão entre democratas e republicanos, mas cobra reforma imigratória e descarta fechamento de Guantánamo. Presidente atacou Rússia, China, Irã e Coreia do Norte

Rodrigo Craveiro
postado em 01/02/2018 00:00
 (foto: Jim Bourg/AFP)
(foto: Jim Bourg/AFP)


Mãos abertas e punhos fechados. De um lado, o convite à unidade nacional, ainda que conveniente. De outro, uma retórica destinada a agradar à própria base política e a decisão de manter aberta a prisão da base naval de Guantánamo, em Cuba. Em seu primeiro discurso sobre o Estado da União e na presença de vários estrangeiros ilegais (leia abaixo), na noite de terça-feira, o presidente americano, Donald Trump, preocupou ativistas de direitos humanos; atacou a China, o Irã e a Rússia; ameaçou a Coreia do Norte; e expôs posições controversas sobre a questão migratória.

;Peço a todos que deixemos de lado as nossas diferenças, busquemos um terreno comum e que possamos construir a unidade que precisamos para oferecer às pessoas que nos escolheram para servi-las;, declarou o republicano, em um claro apelo à união para ;trazer nosso sistema migratório ao século 21;. ;Estou estendendo uma mão aberta para trabalhar com membros de ambos os partidos, democratas e republicanos, para proteger nossos cidadãos, de todos os cenários, raças e credos.;

A Casa Branca depende de um acordo com os democratas sobre o destino dos dreamers ; imigrantes que chegaram aos EUA quando crianças ; para impulsionar a votação do orçamento federal e evitar o segundo shutdown (paralisia do governo) em menos de um mês. Trump também defendeu a construção bilionária do muro na fronteira com o México como um dos pilares de sua política migratória.

A maior polêmica, no entanto, foi o anúncio sobre Guantánamo. ;No passado, libertamos estupidamente centenas e centenas de terroristas perigosos, apenas para encontrá-los novamente nos camposde batalha. Por isso, hoje estou cumprindo outra promessa. Acabo de assinar uma ordem orientando o secretário (de Defesa, Jim) Mattis que reexamine a nossa política de detenção militar e mantenha aberta as instalações de detenção em Guantánamo;, avisou.

Diretor executivo da Human Rights Watch (HRW), Kenneth Roth disse ao Correio que Trump não fechará Guantánamo por querer torná-la símbolo de ;dureza; contra o terror. ;Ele está mais interessado em usar Guantánamo para marcar pontos políticos, mesmo às custas da segurança.;

De acordo com Roth, o número de detentos de Guantánamo caiu de 780 para 41. ;Do total, 31 têm sido mantidos por anos sem acusação formal ou julgamento, e 10 enfrentam acusações ante comissões militares. Depois de 15 anos ou mais, muitos dos presos agora são idosos. Eles representam muito mais uma ameaça como símbolos de injustiça, e uma bênção para recrutadores de terroristas, do que se tivessem sido devolvidos aos seus países.;

Para Robert E. Hogan, cientista político da Universidade Estadual de Louisiana, Guantánamo tem valor meramente simbólico. ;Este é um tema que apela à base eleitoral de Trump, a qual crê que os democratas preferem pôr os cidadãos em risco, ao trazer terroristas para os Estados Unidos;, disse.

Política externa
Trump acusou Pequim e Moscou de representarem perigo para os EUA. ;Em todo o mundo enfrentamos regimes sem controle, grupos terroristas e adversários como a China e a Rússia, que ameaçam nossos interesses, nossa economia e nossos valores;, admitiu. Além de homenagear o desertor norte-coreano Seong Ho-ji, o republicano fez contundentes críticas a Pyongyang. ;A irresponsável busca da Coreia do Norte por mísseis nucleares pode, muito em breve, ameaçar nossa terra.; Ele assegurou que Washington segue ;junto do povo do Irã em sua corajosa luta pela liberdade;. ;Quando o povo do Irã se ergueu contra os crimes de sua ditadura corrupta, não fiquei calado.; Pequim reagiu exortando os EUA a abandonarem a ;mentalidade de Guerra Fria;. Teerã denunciou a ;ignorância; de Trump. O magnata não mencionou denúncias de interferência russa nas eleições.

No âmbito interno, Trump anunciou a criação de 2,4 milhões de empregos e pediu a liberação de US$ 1,5 trilhão em verbas para infraestrutura. ;Ao abordar a imigração, a linguagem e o comportamento do presidente mudaram. O desejo de associar a violência e o terror ao tema tornou-se latente. Muitas das alegações de Trump não podem ser verificadas ou não são verdadeiras, mas servem à base de apoio;, disse Hogan.



Homenagem a desertor norte-coreano



Em meio às tensões nucleares entre Washington e Pyongyang, Trump homenageou um desertor norte-coreano durante o discurso sobre o Estado da União. Ji Seong-ho, que escapou da Coreia do Norte em 2006, ocupou um lugar de destaque na tribuna, perto de onde estava a primeira-dama, Melania Trump, enquanto o presidente contou sua história aos congressistas. Trump relatou o sofrimento de Seong-ho, que teve uma mão e um pé amputados depois que foi atropelado por um trem na Coreia do Norte em 1996. Desnutrido e ferido, ele foi torturado pelo regime por uma rápida visita à China, antes de escapar caminhando com muletas ao longo da China e do sudeste asiático em sua fuga para a liberdade. ;Hoje, vive em Seul, onde resgata outros desertores, e transmite para dentro da Coreia do Norte o que o regime mais teme: a verdade;, disse Trump. ;Agora ele tem uma nova perna, mas, Seong-ho, eu entendo que você conserva as muletas como uma recordação de quão longe você veio. Seu sacrifício é uma inspiração para todos nós;, completou. Seong-ho levantou suas muletas e chorou, enquanto era aplaudido.




Trechos do pronunciamento


Principais temas abordados por Trump no discurso mais importante do ano



; ;No passado, libertamos estupidamente centenas e centenas de terroristas perigosos, apenas para encontrá-los novamente nos campos de batalha. Por isso, hoje estou cumprindo outra promessa. Acabo de assinar uma ordem orientando o secretário (de Defesa, Jim) Mattis que reexamine nossa política de detenção militar e mantenha aberta as instalações de detenção em Guantánamo.;

Imigração
; ;Durante décadas, as fronteiras abertas permitiram que drogas e gangues entrassem em nossas comunidades mais vulneráveis. (...) E, tragicamente, provocaram a perda de muitas vidas inocentes.;

Rivais
; ;Ao redor do mundo, enfrentamos regimes fora de controle, grupos terroristas e rivais como China e Rússia, que ameaçam nossos interesses, nossa economia e nossos valores. No confronto com estes perigos, sabemos que a fragilidade é o caminho mais seguro para o conflito e que um poder sem paralelo é a forma mais segura de defesa.;

Unidade
; ;Esta noite, peço a todos que deixemos de lado as no

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