Luta a favor dos prematuros

Luta a favor dos prematuros

Teste de sangue identifica a presença de genes maternos ligados à prematuridade. O método criado nos Estados Unidos também é mais preciso na definição do tempo de gravidez

Vilhena Soares
postado em 08/06/2018 00:00

Buscar sinais de que a gestação pode terminar prematuramente é um cuidado que faz parte de todo o pré-natal. Não há, porém, um teste que traga essa resposta. Pesquisadores dos Estados Unidos desenvolvem um exame de sangue com esse objetivo. Em experimentos com grávidas, o método detectou de 75% a 80% dos nascimentos prematuros. A nova tecnologia também poderá ser usada para estimar a idade gestacional do feto de forma confiável e menos cara do que a ultrassonografia, segundo os criadores. As descobertas foram divulgadas na última edição da revista Science.

Para desenvolver o teste, os cientistas realizaram análises sanguíneas de dois grupos de grávidas. O primeiro foi composto por 31 dinamarquesas. Saudáveis, elas forneceram amostras de sangue semanalmente durante a gestação. Os investigadores usaram o material para, partir dos RNAs produzidos pela placenta, construir um modelo estatístico capaz de prever a idade gestacional.

Com esse modelo, a equipe analisou amostras de sangue de 38 mulheres americanas que estavam em risco de parto prematuro devido a contrações precoces ou ao histórico de gestações com essa característica. As voluntárias forneceram amostras de sangue durante o segundo ou terceiro trimestre de gestação. Os cientistas descobriram que os níveis de RNA livre de células de sete genes da mãe e da placenta poderiam prever quais as gestações terminariam mais cedo.

;São principalmente genes maternos. Nós achamos que é a mãe enviando um sinal de que ela está pronta para ter o bebê;, explica, em comunicado à imprensa, Mira Moufarrej, pesquisadora da Universidade de Stanford, nos Estados Unidos, e uma das autoras do estudo. Do segundo grupo de grávidas, 13 tiveram os filhos prematuramente, e 25, no tempo esperado.

Mads Melbye, professor de medicina da Universidade de Stanford e também autor da pesquisa, chama a atenção para importância dos resultados atingidos. ;Eu passei longos anos trabalhando para entender o parto prematuro. Este é o primeiro progresso científico real e significativo sobre esse problema em um longo tempo. Agora, descobrimos que um punhado de genes consegue prever quais mulheres correm risco de parto prematuro;, diz.

Gustavo Guida, geneticista do Laboratório Exame, de Brasília, também acredita que o teste trará grande ganho para a área médica. ;Apesar de ainda ser uma das principais causas de mortalidade neonatal, nós até hoje não sabemos ao certo o que provoca a maior parte dos partos prematuros e, assim, não podemos preveni-los. Esse teste é razoavelmente simples, sem riscos para o bebê e com um resultado muito mais preciso do que qualquer outra ferramenta que já temos;, destaca.

O especialista conta que grávidas são submetidas a cuidados para reduzir a prematuridade. A adoção do exame do sangue poderia, por exemplo, ajudar a identificar as que precisam de um apoio mais específico. ;Saber exatamente quais serão os prematuros vai permitir tratá-los mais cedo e garantir que tenham a melhor chance possível de sobrevivência, além de evitar medicar as gestantes quando não for necessário;, complementa Gustavo Guida. ;Para a mulher, é mais uma tranquilidade poder saber que ela não corre risco de um parto prematuro e que poderá programar melhor a vida pessoal e profissional.;

Motivação pessoal

Stephen Quake, também autor do estudo e pesquisador da universidade americana, conta que começou a se interessar pelo assunto quando virou pai. ;Minha filha nasceu quase um mês prematura. Ela agora é uma jovem de 16 anos muito saudável e ativa, mas certamente ficou na minha cabeça que esse é um problema importante para se trabalhar.;

A chegada de bebês antes do esperado é comum, mas nem sempre com o fim desejado. A Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que, por ano, nasçam 15 milhões de bebês nessa condição e morra 1 milhão de crianças com menos de 5 anos em decorrência de complicações desse tipo de parto.

Dados como esses, segundo Quake, estimulam a busca de soluções médicas mais eficazes. ;A ultrassonografia fornece informações menos confiáveis à medida que a gravidez avança, tornando-a menos útil para mulheres que não recebem atendimento pré-natal. O ultrassom requer equipamentos caros e técnicos treinados, que não estão disponíveis em grande parte do mundo em desenvolvimento. Acreditamos que o novo exame de sangue será simples e barato o suficiente para ser usado em ambientes com poucos recursos;, destaca.

A equipe ressalta que precisa validar o teste com grupos maiores de grávidas. Além de investigar a fundo os papéis dos genes que sinalizam a prematuridade, eles planejam identificar alvos para drogas que possam atrasar o nascimento prematuro. ;Conhecer quais genes sinalizam a prematuridade e o parto vai nos permitir entender melhor algo por qual todos nós passamos, o nascimento, e que ainda é um processo muito desconhecido;, opina o geneticista Gustavo Guida.

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