CRÔNICA

CRÔNICA

Paulo Pestana %u2022 papestana@uol.com.br
postado em 08/06/2018 00:00

Isso é sabido desde Confúcio, há mais de 2.500 anos: ;O mestre disse: ;Pode-se induzir o povo a seguir uma causa, mas não a compreendê-la;;. Mas isso foi antes do WhatsApp que, sabe-se agora, não serve apenas para disseminar pornografia e combinar a cervejada da noite.

A oclocracia sempre foi ; mais que um palavrão ; uma ilusão. Melhor, uma teoria. O termo criado por Aristóteles servia apenas para denominar uma das três formas de degeneração de um governo; ninguém nunca levou a sério como política viável, já que define o exercício do poder pela plebe. Até agora.

a exceção foi John Lennon, que fez até uma canção, Power to the People (Poder para o povo), que clamava pela derrubada do governo ; qualquer um ;, mas não falava em exercer o poder. Fica na catarse, um exercício que dá ao povo a impressão de que livre expressão é poder e não retórica.

Isso é sabido desde Confúcio, há mais de 2.500 anos: ;O mestre disse: ;Pode-se induzir o povo a seguir uma causa, mas não a compreendê-la;;.

Mas isso foi antes do WhatsApp que, sabe-se agora, não serve apenas para disseminar pornografia e combinar a cervejada da noite.

Foi exatamente no boteco que o assunto estava sendo discutido com a seriedade de sempre, quando alguém cunhou uma dessas frases que na hora, duas doses acima, parece genial: ;é a revolução sem tiros;.
O Faixa, que é advogado, não se emocionou. Está preocupado com a possibilidade de algum deputado favorável ao desarmamento apresentar um projeto permitindo apenas o uso de telefones fixos ; pretos, de preferência. Na justificativa, ele imaginou que estaria escrito: ;o povo não está preparado para ter telefones mais inteligentes que ele;.

Houve até quem fizesse troça da Constituição, onde está escrito que todo poder emana do povo. ;Estava na prateleira de livros de ficção;, dizia.

O fato é que os caminhoneiros ; ou os chefes deles ; mostraram-se mais espertos que o resto da sociedade. Há quem se lembre dos tempos em que se ouvia Pedro gritar ;É uma cilada, Bino!”, quando farejava qualquer perigo nas aventuras de Carga Pesada, o velho seriado da tevê. Agora, a ameaça está na boleia. E no celular.

Os entendidos que não enxergam o óbvio acreditavam que a limitação do número de usuários de cada grupo do aplicativo (256) serviria como freio; erraram feio. O poder de informação ; e principalmente de desinformação ; revelou-se imenso; o Brasil inteiro soube de golpes iminentes que nunca foram planejados por meio de áudios, vídeos e memes.

;O povo está nas ruas em Brasília. A revolução começou;, dizia uma voz feminina, já depois de amainada a crise, sem informar que a multidão eram fiéis na procissão de Corpus Christi. Isso sem contar imagens antigas apresentadas como cenas do último minuto. Enquanto o povo estava na fila da gasolina, havia um fake coup (golpe falso) sendo armado.

Há uma eleição logo na esquina, com políticos encurralados e uma população sedenta para mostrar poder, mesmo sem saber o que fazer com ele. Nas redes sociais aumenta o número de postagens que defendem o voto nulo, sem medo da idiotice da proposta ; entrega-se a administração do país a quem? Kierkegaard explicou melhor: ;O povo pede o poder da palavra para compensar o poder de livre pensamento a que ele foge;.

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