Para nunca mais esquecer

Para nunca mais esquecer

postado em 15/07/2018 00:00
 (foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press)
(foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press)
Maryane Machado pode até ter voltado para casa sem presenciar o hexa, mas embarcou para Brasília com muitas histórias para contar. Na bagagem, lembranças da Rússia e um carinho imenso pelos torcedores do país europeu. A funcionária pública, de 30 anos, é uma das centenas de mulheres que vestiram a camisa verde-amarela e foram ver a Seleção jogar no Mundial.

A jovem viajou com mais quatro amigas e um colega. A viagem nem precisou de muito tempo para ser planejada. Em menos de um mês, Maryane já tinha hospedagens e passagens reservadas. ;Começamos a planejar após o carnaval. Já tínhamos vontade de ir, mas só depois que voltamos de Salvador resolvemos colocar no papel;, lembra.

Maryane conta que nunca tinha feito uma viagem internacional para assistir a jogos de futebol, mas, pela Seleção, ela decidiu ir além dos estádios brasileiros e dos jogos na televisão. Assim, a Rússia nem parecia mais tão longe. ;É incrível torcer de pertinho, sentir a energia, cantar junto, agregar torcedores. É sensacional;, ressalta.

E o país europeu não deixou mesmo a desejar e surpreendeu a funcionária pública com uma ótima recepção, além da animação, que passou a ser regra no local. ;É uma coisa surreal, fora de série. Os russos são uma gracinha, eles torciam por nós. No jogo contra o México, encontrei um garoto de 7 anos e eu lhe dei meu boné do Brasil. Ele, por sua vez, me deu uma bandeira da Rússia e a gente torceu junto;, recorda-se.

Quanto às cenas de assédio, Maryane diz que, de fato, isso era comum. Mas ela acredita que poderia acontecer em qualquer lugar, não só na Rússia e durante Copa. ;O assédio é uma coisa ridícula. Quando eles veem um grupo que só tem mulher, aproveitam;, lamenta.

Porém, ela enfatiza que as mulheres não devem abandonar os estádios de futebol por isso. Maryane mostrou que elas devem se impor e não se privar de viver momentos maravilhosos, como uma Copa do Mundo. ;Vão, mulheres! É maravilhoso! Sensação única;, garante.

Dicas da Maryane
  • Pesquise o local para onde você vai viajar (clima, cultura, meios de transporte).
  • Garanta acesso à internet. Compre um chip local para usar pacotes de dados. O Google pode tirar algumas dúvidas, além de ajudar na hora de traduzir alguma palavra.
  • Use e abuse da internet. Verifique a distância entre um lugar e outro e as avaliações dos pontos turísticos. Em sites, como o TripAdvisor, viajantes dão dicas sobre segurança, se vale a pena visitar e o que levar.
  • Aprenda pelo menos o básico do inglês e algumas palavras do idioma local, como ;olá;, ;por favor;, ;farmácia; e ;restaurante;.
  • Baixe pelo celular algum aplicativo de mapas que funcione off-line. Assim, perdido você não fica!
  • Assim que a Fifa divulgar os estádios onde ocorrerão os jogos, procure reservar as hospedagens para não ficar em um local afastado ou de difícil acesso.


;Deixa ela trabalhar;

Diante de um ambiente tão masculino, as mulheres ficam vulneráveis até quando estão trabalhando. Em especial, as repórteres. Depois de, em março deste ano, ser assediada por um torcedor do Vasco, que tentou beijá-la durante cobertura ao vivo da partida contra o Universidad de Chile, pela Copa Libertadores, Bruna Dealtry, do Canal Esporte Interativo, lançou a campanha ;Deixa ela trabalhar;.

Em sua página no Facebook, ela desabafou: ;Sempre fui uma repórter que adora uma festa de torcida. Não me importo com banho de cerveja, torcedor pulando, pisando no meu pé; Mas, hoje, senti na pele a sensação de impotência que muitas mulheres sentem em estádios, metrôs, ou, até mesmo, andando pelas ruas;.

A campanha reuniu, em um vídeo, várias repórteres esportivas, como Fernanda Gentil, Aline Nastari, Dani Monteiro, Renata de Medeiros e muitas outras, que contam que também já foram assediadas enquanto trabalhavam. ;Somos mulheres e profissionais. Só queremos trabalhar em paz. O esporte também é lugar nosso e quero respeito. Respeite nossa voz e nossas escolhas. Chega de desconfiança e de diferenciação. Ei, você aí, chegou a hora de se importar. A omissão também machuca. É desrespeitoso, é ofensivo, é nojento;, reclamam.

Mas, na Rússia, infelizmente, não foi diferente. Enquanto fazia uma participação ao vivo na Sportv, em Ecaterimburgo, antes da partida entre Japão e Senegal, a repórter Julia Guimarães quase foi beijada por um torcedor. Imediatamente, ela reagiu e se dirigiu ao assediador pedindo respeito: ;Não faça isso, nunca faça isso de novo, ok? Eu não permito isso. Isso não é educado, isso não é certo. Nunca faça isso com uma mulher. Respeito;.

Em seu Twitter, Julia também lamentou mais um caso de assédio no Mundial. ;É difícil encontrar palavras... Por sorte, nunca vivi isso no Brasil! Aqui já aconteceu por duas vezes. Triste! Vergonhoso!”.

Depoimento / Maíra Nunes

Como me senti sendo mulher na Copa do Mundo da Rússia?

Por MAÍRA NUNES

;Palco da Copa do Mundo, a Rússia carrega a fama de pouco coibir casos de assédio e episódios de violência contra mulher. Ainda assim, fui sozinha para cobrir os bastidores dos torcedores na competição. Para mim, tratava-se de um sonho e não acharia justo deixar de realizá-lo. Em Moscou, capital russa, senti-me segura, em relação à violência urbana, ao andar pelo centro da cidade em plena madrugada com o celular na mão. O que não significa que não senti medo. A apreensão ocorre pelo simples fato de ser mulher em meio a um evento esportivo, que ainda é muito machista.

A Copa do Mundo reúne clima festivo e amantes do futebol ; e, para quem gosta, é uma experiência realmente incrível. Mas também expõe o quão machista é o pensamento dos torcedores, principalmente os que chegam de fora da Rússia, pois parecem que se sentem libertos longe de casa. Os assédios contra as mulheres ocorrem no meio das ruas, sem que os autores se sintam nem um pouco constrangidos por estarem envoltos por aglomerados de pessoas. Nem a câmera de uma emissora de televisão intimida os assediadores, a calcular pela quantidade de repórteres mulheres que são atacadas enquanto trabalham.

Eu não sofri nenhum episódio de assédio enquanto estive na Rússia. Mas vale a reflexão sobre os motivos de exi

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