Conexão diplomática

Conexão diplomática

Por Silvio Queiroz silvioqueiroz.df.@dabr.com.br
postado em 28/07/2018 00:00
 (foto: Sergio Lima/AFP - 26/6/18)
(foto: Sergio Lima/AFP - 26/6/18)
Política externa
em teste duplo


Entre uma cúpula entre Mercosul e Aliança do Pacífico e outra do Brics, o chanceler Aloysio Nunes termina a semana como um enxadrista disputando partidas simultâneas em múltiplos tabuleiros. Por fora das duas articulações comerciais, de interesse central para o país nesse período em que a sucessão presidencial vai dominando o cenário, duas situações urgentes e cruzadas se impõem na agenda do Itamaraty: Raynéia Lima, a brasileira morta por paramilitares nos conflitos que dilaceram a Nicarágua, e o destino das crianças brasileiras separadas dos pais nos EUA, como desdobramento da tolerância zero imposta pelo governo Trump à imigração ilegal.

São situações que colocam em teste a inflexão adotada na política externa desde o impeachment de Dilma Rousseff e a chegada de Michel Temer ao Planalto. Primeiro com o senador tucano José Serra, correligionário e colega de bancada de Aloysio ; e ambos eleitos por São Paulo ;, a diplomacia brasileira se descolou do campo dito bolivariano, do qual a Nicarágua é hoje um dos vértices de um tripé completado por Venezuela e Cuba. Na outra frente, nas relações com Washington, a linha de concorrência e disputa deu lugar a um período de aproximação e reacomodação. Como ficou demonstrado na visita recente do vice de Trump, Mike Pence: entre outros acertos de passo, por fim foram assentadas as bases para a cooperação no campo espacial, concretizada na base de Alcântara.

Aviões de carreira
Observadores da cena regional seguiram com atenção incomparável as negociações que resultaram na compra da Embraer pela Boeing. A indústria aeronáutica estabelecida no eixo de São José dos Campos (SP), berço também do programa espacial brasileiro, tem sua história ligada a um ciclo do desenvolvimento econômico do país ; o salto, tentado nos anos 1960 e 1970, sob o regime militar, para impulsionar o projeto do ;Brasil potência;. Ao longo de meio século, desde os primeiros Bandeirantes até os atuais Supertucanos, a Embraer conquistou mercados e acrescentou os aviões à pauta brasileira de exportações. No início do século 21, firmou-se como opção de companhias aéreas de diferentes partes do mundo para determinados tipos de voo.

Os interesses se voltam também para um dos elementos da transação, relacionado à área de defesa. Os Supertucanos conquistaram fama no setor pela adequação para determinadas missões de combate. Foram peça importante na ofensiva final do Estado colombiano contra a guerrilha das Farc, em bombardeios de precisão contra alvos de valor identificados pela inteligência. Pelas caratcterísticas de versatilidade e adequação ao cenário de selva, foram pretendidos também pela Venezuela, mas a negociação com o governo chavista foi atravessada: o caça brasileiro tem componentes eletrônicos americanos, que dão aos EUA o direito de vetar a transferência para governos considerados por Washington como hostis.

Pelo conjunto, na tirada de um diplomata atento ao tema, com a incorporação da Embraer pela Boeing, fica demonstrado que entre o céu e a terra, além das demais coisas, estão até aviões de carreira.

Adiós, muchachos
O tom enérgico da intervenção do governo brasileiro na morte trágica da estudante Raynéia, em Manágua, reúne os ingredientes para tornar-se um dos marcos da recolocação do país na geopolítica do Hemisfério Ocidental. Em uma sucessão de notas e pronunciamentos, o chanceler tratou de enquadrar o governo do sandinista Daniel Ortega ; por coincidência, no mesmo momento em que os expoentes da esquerda brasileira se sentavam em Havana, ao lado dos nicaraguenses e de outros compas (companheiros), em reunião do Fórum de São Paulo.

A escolha das palavras, porém, foi acompanhada pelos atos. O embaixador brasileiro foi chamado de volta a Brasília para consultas, um termo efetivo da linguagem diplomática para expressar desagrado com um governo. Na ausência física do titular da representação, a condução das relações bilaterais fica em patamar mais baixo, ao menos até o ponto em que se considere conveniente ou proveitoso normalizá-las plenamente.

Sem a presença de um embaixador também na Venezuela, como desdobramento da contestada reeleição do presidente chavista Nicolás Maduro, o Brasil se afasta progressivamente do ;tripé bolivariano;. No último vértice, Cuba, a situação é de expectativa: até aqui, apesar de um estremecimento temporário após o impeachment, os assuntos cotidianos seguem fluindo. Mas sem o entusiasmo dos anos Lula-Dilma, quando a Odebrecht teve papel central nas reformas para ampliação do Porto de Mariel, a plataforma de processamento de exportações idealizada por Fidel e Raúl Castro para captar as divisas de que a ilha necessita imperiosamente para girar sua economia.

Tags

Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor. As mensagens estão sujeitas a moderação prévia antes da publicação